Cultura | Entrevista

“A enorme massa de artistas angolanos quer exprimir-se e tem vontade de construir uma Angola melhor”

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Fotografia João Catarino

A entrada do Teatro Ibérico conduz-nos para a parte de trás da plateia, e parece que entramos “em cena”, como os atores, ao sermos envolvidos numa atmosfera misteriosa, artística e, sobretudo, por um ambiente que nos convida a entrar, a olhar e a ouvir. O som de fundo vem do que está a acontecer no palco que não vemos. São os sons da criação artística.

O e-Global entrevistou João Garcia Miguel (JGM), o encenador da Companhia com o mesmo nome, que atualmente se encontra no Teatro Ibérico.

JGM falou sobre o Ciclo “Ondas Africanas”, um projeto de intercâmbio entre África e Portugal, que pretende ser um “vai e vem” de artistas, uma verdadeira partilha de criação e ideias entre dois países ligados por uma língua comum. Este ciclo surge da colaboração entre a Companhia e a Associação angolana Globo Dikulu, do Grupo Anim’arte do município do Cazenga, em Luanda, e do grupo de Teatro Horizonte Njinga Mbande. Sobre este intercâmbio JGM frisa que “vai continuar”, e que a Companhia deseja continuar a regressar a África, onde tem vindo a apresentar peças anualmente, desde 2013.

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No Ciclo Ondas Africanas, a Companhia levou a Angola uma peça que teve como base de criação dois contos de um dos autores mais importantes da literatura contemporânea moçambicana, Luís Bernardo Honwana: “Nós Matámos o Cão Tinhoso” e o “Inventário de Imóveis e Jacentes”. A peça “Nós Matámos o Cão Tinhoso” estreou em outubro em Guimarães e foi a base das várias formações que a Companhia realizou em Angola.

Em relação ao Teatro em Angola e aos jovens que começam a surgir neste meio artístico, JGM sublinha que “as escolas de Artes e Teatro estão a começar”, principalmente as de Ensino Superior, e frisa que a enorme massa de jovens criadores e artistas angolanos quer exprimir-se e tem vontade de construir uma Angola melhor. Os jovens angolanos “querem aprender, querem fazer coisas e querem estar cada vez mais ligados ao mundo e ao próprio país deles (…) Têm um forte sentido de “ver” nesse aspeto, muito grande.(…) Há uma vontade muito grande de “fazer” e as artes no fundo acabam por ser uma forma de criar uma identidade, e eles procuram muito uma identidade para Angola, uma identidade para o ser africano, para rever esta questão toda do colonialismo, e do que é que lhes deixou. Têm uma forte ligação a Portugal”.

Sendo Luís Bernardo Honwana um autor moçambicano, surge a questão: “Porque não Moçambique?”, e JGM revela que estão atualmente a fazer-se esforços para levar o Ciclo Ondas Africanas até Moçambique: “estamos em grandes conversações com a Embaixada moçambicana, com o Ministro da cultura de Moçambique, e provavelmente iremos ao FITI (Festival Internacional de Teatro do Inverno de Maputo) em junho”. A Companhia segue depois para Luanda, e regressa a Portugal.

Para fevereiro, o Teatro Ibérico reserva o Ciclo Filhos de Nenhures, um mês de portas abertas para os espetadores e os artistas, para a partilha e para “cruzar coisas que possam elas ser desafiantes para outros”, explica JGM. É um mês que servirá para divulgar os vários projetos da Companhia, em particular a estadia em Angola. Para isso, está reservada a Edição Especial Nós Matamos o Cão Tinhoso, que contará com a exibição da peça “Nós Matámos o Cão Tinhoso” de 15 a 18 de fevereiro.

Ciclo Filhos de Nenhures

Para além disso, JGM conta que vão ser exibidos alguns filmes que mostram as experiências da Companhia JGM em Angola. Sobre a viagem a Angola, João Garcia Miguel lembra a “Família Domingos, a família da Mãe Júlia” e dos seus dez filhos, que em conjunto criaram a Associação Animar’te do Cazenga, com as escassas possibilidades que tinham. Hoje, são hoje parceiros no Ciclo Ondas Africanas.

JGM assume o amor por Angola o “altruísmo real” que se sente ao viajar para o país. Por isso mesmo, esta Edição Especial do Ciclo Filhos de Nenhures promete ser uma forma de “acordar as pessoas para aquilo que são os sabores, os pensares, os olhares africanos. E ao mesmo tempo cruzar isso com olhares de novos criadores portugueses, chamar a atenção aos criadores jovens portugueses para esta riqueza, esta efervescência que há do lado de lá”, esclarece JGM. O Teatro Ibérico abre assim espaço para a criação de sinergias artísticas, de um modo assumidamente global.

Questionado sobre as características do público africano, JGM revela que “são muito curiosos e muito atentos também”, e as portas abrem-se para o resto da conversa.

Parte 1 da Entrevista com o encenador João Garcia Miguel

(Fotografias: João Catarino)

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