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A verdadeira história por detrás do ressurgimento do BoKo Haram

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O exército nigeriano parece ter um longo percurso a percorrer no combate aos insurgentes do Boko Haram.

Nos últimos dias, diversos soldados têm desaparecido e muitos outros foram mortos pelo Boko Haram – isto semanas após o governo nigeriano ter declarado que tinha entrado em negociações com os insurgentes, o que levou à libertação de 21 das raparigas de Chibok que se encontravam sequestradas no enclave controlado pelo Boko Haram.

Apesar do governo nigeriano ter negado as alegações, a informação disponível diz sugere que o governo terá trocado as raparigas por combatentes do Boko Haram que se encontravam detidos.

Em menos de uma semana após a libertação das raparigas, os combates tomaram uma nova dimensão. 83 soldados nigerianos desapareceram sem que até à data nenhum responsável tenha prestado informação sobre os mesmos.

Suicídios com bomba têm reemergido como táctica, especialmente em Borno, baluarte dos insurgentes.

O estilo de ataques usados pelo Boko Haram não mudou. No entanto, parece que os insurgentes se reagruparam e estão mais audaciosos na condução de ataques de acção directa contra posições militares, bem como na organização de emboscadas em diferentes posições por onde as tropas passam.

Um alto oficial do exército, com o posto de Coronel, que desejou permanecer anónimo, disse à E-global que mais de 300 soldados nigerianos foram já mortos desde a libertação das 21 raparigas de Chibok.

“Os oficiais estão confusos, eles pensavam que nós tínhamos desmoralizado os insurgentes mas parece que eles se reagruparam e que ganharam mais confiança. É como se as negociações os tenham tornado mais audazes”.

“Nós temos armas e equipamento. Como disse o Chefe de Estado-maior do Exército, as nossas armas são autênticas, e isso é verdade. Mas precisamos de mais apoio aéreo e eventualmente de uma mudança de estratégia.”

 

A História

O Boko Haram é um grupo militante islâmico formado em 2004 que, desde 2009, tem lutado pela implementação da lei islâmica (Sharia) no Norte da Nigéria.

Em meados em 2014, este movimento insurgente conseguiu conquistar cerca de 15 Governos Locais (forma de organização administrativa) no Estado de Borno, Nordeste da Nigéria e declararam aí o Califado.

Nos combates entre os insurgentes e as Forças Armadas da Nigéria já foram mortas mais de 200.000 pessoas de ambos os lados.

Nos finais de 2014, a Nigéria contractou uma empresa mercenária sul-africana para ajudar na luta contra os insurgentes, o que trouxe ao governo nigeriano uma vantagem na luta contra o Boko Haram, tendo conseguido subjugá-los durante algum tempo.

Antes do fim da legislatura do ex-Presidente Goodluck Jonathan, mais de 7 Governos Locais foram libertados ao Boko Haram com a ajuda da empresa mercenária.

Apesar do governo federal nigeriano reclamar uma reconquista de todos os territórios no jugo do Boko Haram, cidadãos locais desses territórios desmentem essas declarações. O Pastor Dikwa disse que um número indeterminado de vilas e aldeias continuam sob o controlo do Boko Haram e que ninguém, nem mesmo os militares, conseguem entrar nesses locais.

“Os militares desde o Presidente Jonathan tem conseguido conquistar a maioria das vilas e aldeias mas há ainda outras que estão sob o controlo do Boko Haram e ninguém lá entra.” “Nós estamos a rezar por uma intervenção divina nesta situação porque muitas pessoas não conseguem regressar as suas casas”, disse o Pastor.

 

Relatos vindos do terreno

Um residente de Maiduguri, capital do Estado de Borno, Nordeste da Nigéria, Imrana Suleiman, acredita que a razão principal pelo aumento dos ataques é o facto de existir uma cisão dentro do grupo e o governo nigeriano ter estado a negociar com uma das facções que será mais sensível às pretensões governamentais. “A outra facção, que não fez parte das negociações, não sente qualquer obrigação em respeitar um acordo com o governo” declarou.

Um soldado que foi ferido nos combates contra o Boko Haram e sofreu uma amputação da perna disse “Nós temos as armas mas estes insurgentes também têm armas e parecem estar muito bem treinados. Nós enfrentamo-los cara a cara e eles não demonstram qualquer medo de nós. Eles lutam como soldados, às vezes sinto-me tentado a pensar que existem soldados entre eles.”

“O nosso maior problema são os ogas (generais) que são egoístas, tiram-nos os subsídios. Nós também temos famílias, queremos enviar-lhes dinheiro mas não temos hipóteses de o fazer e assim como é que estão à espera que nos sacrifiquemos.“

Um residente de Abuja (capital da Nigéria), Ephraim Kuku disse “a libertação de 21 raparigas de Chibok é uma farsa. Não consigo imaginar nenhum cenário em que uma rapariga libertada ao Boko Haram comece a dançar da forma como elas o fizeram.” “Querem me dizer que nenhuma delas ficou traumatizada e que quando libertadas se iriam comportar como comportaram? Será preciso mais para me convencer. As raparigas que foram expostas pelo governo estão bem alimentadas, contra as descrições que nos foram dadas – elas disseram que estiveram mais de trinta dias sem comida”.

“Eles (o governo actual) escondem-se atrás dos sucessos do governo anterior que trouxeram mercenários para ajudar na luta. Agora que estes se foram embora quem é que vai lutar?”

“Nós não estamos a comprar as mentiras deste governo. Eles têm nos mentido sobre tudo e querem desviar a nossa atenção dos seus falhanços e incompetência” disse.

Um soldado na reserva que lutou na Guerra civil nigeriana lamentou que o país já não tenha verdadeiros soldados, “Onde é que eles estão? Já não temos verdadeiros soldados – Estes rapazes (soldados nigerianos) têm medo de entrar na floresta de Sambisa para enfrentar o Boko Haram. Quando encontram uma pequena ameaça, fogem e abandonam as armas e o Boko Haram recolhe-as – este são os relatos que recebemos”
Illya Kure, Correspondente em Kaduna – Nigéria

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