Entrevista | Exclusivo

Ali Moussouni: O conceito de ‘segurança alimentar’ é a base para o desenvolvimento agro-industrial da Argélia

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Akli Moussouni, especialista argelino em desenvolvimento e engenharia agrónoma, defende que a agro-industria argelina se encontra prejudicada devido a falta de matéria prima em quantidade suficiente e em qualidade de acordo com as normas internacionais.

Segundo Moussouni, é urgente criar uma dinâmica de exportação no setor agro-industrial e para tornar este setor numa fonte de divisas, de riqueza e de emprego, o respeito das diretivas normativas dos mercados internacionais tem que ser uma prioridade, o que, segundo este especialista, está longe de ser uma realidade na Argélia. É por esta razão que Akli Moussouni afirma: a “a dinamização dos setores agrícola e agro-industrial consiste em adotar a segurança alimentar como o eixo de desenvolvimento”.

e-Global: A diversificação da economia impõe-se presentemente como uma opção inevitável. Qual será, a seu ver, o lugar da indústria agroalimentar nesta nova estratégia de desenvolvimento desejada pelo poderes públicos?

AM: A agroalimentar é uma atividade de transformação e não de produção. E não pode implicar-se senão indiretamente na diversificação da economia, no âmbito da agricultura. Mas presentemente não vejo nenhuma estratégia destinada a atribuir uma tal missão a este setor. Com efeito, a complexidade de uma tal missão leva a pensar que há necessidade de agir desde logo a montante deste setor, ou seja transformar a produção em quantidade e em qualidade. É imperativo construir um mercado normalizado que possa impôr a este setor uma diretriz de procedimentos de transformação para os mercados identificados.

Esta cadeia de valor do campo até à mesa deve ser concebida para uma produção competitiva e concorrencial, explorando as vantagens comparativas específicas no contexto natural dos nossos territórios. Esta visão só pode ter sucesso se for enquadrada no saber dos intervenientes a todos os níveis, das regulamentações apropriadas e das organizações profissionais em torno das produções num espírito de indústria a partilhar com o Estado que, por seu lado, intervém como um suporte por objetivos económicos precisos. Esta é a melhor estratégia para o desenvolvimento do setor, em vez de ações espontâneas contra-produtivas às quais assistimos todos os dias. A confusão orquestrada em torno da batata é um excelente exemplo de falta de estratégia.

e-Global: Gozando de um significativo crescimento nos últimos anos, a agroalimentar coloca-se na ‘pole postion’ no mercado local. E ao nível das exportações, pode-se contar verdadeiramente com esta industria para, ainda que parcialmente, reabastecer os cofres do Estado?

Não vejo onde está o crescimento substantivo ao qual se refere. É necessário reter que nas economias desenvolvidas, 80% do produto alimentar é colocado à disposição do consumidor e é transformado contra apenas 5% nosso e do qual uma boa parte é importado! O pouco produto transformado coloca questões em matéria de segurança do alimento cuja natureza duvidosa não poupa produtos embalados ou acondicionados.

Pior ainda, certos produtos como por exemplo a carne branca, o leite em saco, o azeite, o mel, o tomate industrial são não somente produzidos mas transformados fora de todas as normas do comércio internacional. Assim, os custos de produção e de transformação são multiplicados em relação ao caráter “anão” das nossas unidades de produção e também nos casos de transformação.

Em relação ao produto nacional, o setor está ligado á terra por uma agricultura arcaica, em que a única tábua de salvação é a importação. Por outro lado, a agricultura continua a ser de subsistência. Ambos os setores estão diante de uma derrota, agravada pelas necessidades de importação. Assim, no contexto de funcionamento atual, estes setores continuarão a lesar os cofres do Estado em vez de os socorrer.

e-Global: Entretanto, os profissionais da área queixam-se de certas deficiências em matéria de acompanhamento. A seu ver o governo deverá tomar medidas de encorajamento junto desta categoria de industriais?

AM: A economia argelina considera que é mais fácil e menos arriscado importar do que produzir. É um facto da atualidade, combinado com um ambiente insalubre e de negócios informais das empresas. Mas também, como noutros setores, os profissionais agem de forma individual, sem nenhuma organização que lhes permita evoluir numa lógica comercial universal. É por isso que estes setores com esta configuração atual não permitem que os seus produtos possam integrar plenamente o comércio internacional.

Não há medidas de encorajamento possíveis para re-dinamizar este setor fora daquilo que é autorizado pelo mercado mundial tal, como está definido pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Se a Argélia quiser progredir nesta área, pelo contrário, temos que explorar as vantagens comparativas do nosso contexto natural para produzir bem e de forma competitiva e depois fazer valer nas negociações em relação aos mercados externos a diversificação climatérica das nossas diferentes zonas de produção de acordo com as regulamentações comerciais que regem as trocas entre as nações. Por exemplo, nós não podemos vender citrinos uma vez que eles são produzidos mais eficientemente em Espanha!

e-Global: O desenvolvimento da indústria agroalimentar passa indubitavelmente pelo desenvolvimento agrícola. Acha que desenvolvemos os meios de produção capazes de fornecer a indústria com matéria-prima ou ainda não temos meios para assegurar o crescimento real do setor?

AM: Neste momento todas as unidades de produção agrícola sentem o problema que afeta o futuro da agricultura argelina. A pressão dos mercados, cada vez mais exigente em termos de volume e de qualidade, sublinha os defeito das medidas mal concebidas que são tomadas através de programas chamados de desenvolvimento agrícola que não formam nem informam os operadores e os agricultores. Consequentemente, os produtos de maior consumo são submetidos a variações de preços complexos, por vezes em detrimento de qualquer relação entre procura e oferta. Estas políticas também não têm em conta os produtos locais, que são a mais valia do nosso contexto natural.

Além disso, as restrições, a anarquia e o atraso que caracterizam a agricultura tradicional do norte do país foram transportados para as novas áreas agrícolas do sul do país, incluindo a atribuição de terras , a irrigação, as culturas estão à sorte dos que aí vão mesmo que não sejam formados nas culturas que pretendem desenvolver, nem informados em relação aos mercados e normas de produção. Por isso é insuficiente a resposta do setor face às exigências cada vez mais importantes do mercado nacional, o que complica o problema. O que hipoteca o crescimento destes setores em vez de o impulsionar.

e-Global: Por fim, e tendo em conta as potencialidades existentes em termos de produção agrícola, mas que estão ainda sub exploradas, não considera que é altura de rever a política agrícola com investimentos orientados para além do cultivo e uma melhor orientação segundo as zonas e os produtos?

AM: A dinamização destes setores consiste em praticar uma política agrícola em torno do conceito de segurança alimentar. Este eixo de desenvolvimento assenta em três (3) pilares essenciais: saber determinar os grandes territórios (zonas demarcadas) e proteger as suas vocações naturais; organizar as unidades produtivas em torno de produtos de destaque; e, por fim, construir um mercado normalizado tanto para o consumidor nacional como para a exportação. Seguir-se-ão as medidas de proteção ambiental para balizar ecologicamente as oportunidades e o desenvolvimento económico. É somente a partir desta visão que se pode fazer evoluir a situação e não de outra forma.

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