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As dúvidas sobre a libertação das raparigas de Chibok

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Na semana passada, os militares nigerianos garantiram a segurança de 82 raparigas de Chibok que tinham tinha sido sequestradas em Abril de 2014 pelo grupo Boko Haram. A libertação foi conseguida em troca da libertação de 5 comandantes do grupo terrorista, detidos pelo governo federal e que se encontravam encarcerados em prisões da Nigéria.

Desde então, o tom de crítica tem subido de volume na Nigéria sobre a forma como a libertação das raparigas foi conseguida, se efectivamente as raparigas faziam parte do grupo de raparigas sequestradas em 2014 e se vieram da floresta de Sambisa, como foi feito ao mundo crer.

A narrativa fornecida foi a de que as 82 raparigas foram libertadas pelo Boko Haram ao Departamento da Segurança do Estado (DSS) a 6 de Maio numa aldeia do Estado de Borno após negociações envolvendo várias entidades nacionais e internacionais. O Comité Internacional da Cruz Vermelha foi apresentado como sendo o intermediário para a entrega das raparigas ao governo nigeriano.

As 82 raparigas foram imediatamente levadas para Abuja, a 7 de maio, onde foram recebidas pelo Presidente Buhari antes de este partir para os seus tratamento medicos no Reino Unido.

As raparigas resgatadas estão a ser mantidas na capital num local desconhecido, alvo da acção de equipas médicas, psicólogos, assistentes sociais e especialistas em trauma.

O governo nigeriano fez saber que todos os pais das raparigas resgatadas foram já contactados e que os preparativos para as reunir com as familias já começaram.

As reações do nigerianos

A facção liderada por Makarfi do Partido Democrático Popular (PDP) veio através do seu porta-voz, Dayo Adeyeye, condenar a decisão de trocar as raparigas de Chibok pelos comandantes do Boko Haram, dizendo que os terroristas conseguiram escapar à justiça e que “todos os esforços feitos pelas agências de segurança para que fossem capturados foram agora em vão”.

O porta-voz disse “As negociações são uma clara violação e um assalto directo ao consagrado princípio internacional de nunca negociar com terroristas. A captura e detenção destas raparigas pelo Boko Haram trouxe nos últimos três anos uma dor e sofrimento imensos não só as familias a todas as pessoas no pais bem como a todas as pessoas de boa fé pelo mundo fora.”

A situação trouxe também criticas do Governador Ayodele Fayose do Estado de Ekiti no Sudoeste da Nigéria. “Actualmente, existe um assunto de urgente importância nacional que é o estado de saúde do Presidente. Enquanto continuo a rezar pela sua rápida melhora, assim como muito nigerianos, não posso deixar de condenar esta vergonhosa jogada sobre a inteligência e psique dos nigerianos, tomando partido do problema vexado que são as alegadas raparigas de Chibok.”

“Tornou-se o estilo deste governo de distrair a atenção mas a verdade irá prevalescer. A questões aqui são: De que raparigas de Chibok estão eles a falar? As raparigas que estão a fazer exames de certificação secundária de física mas que não falam uma palavra de inglês? As raparigas que estavam a ser protegidas da comunicação social? Até hoje a comunicação não conseguiu falar com as alegadas raparigas de Chibok.”

Numa reacção a estas reacções, o Presidente da Conferênica de Partidos Políticos Nigerianos (CNPP) no Estado de Ektiti, Tunji Ogunlola, condenou Makarfi por estar a jogar jogos políticos com a liberdade das raparigas de Chibok.

Sabendo que as raparigas estão sob cativeiro há três anos, o governo actual tem tentado, e os nigerianos agradecem a Buhari por ter conseguido garantir a libertação das raparigas, mantendo a sua promessa eleitoral.

Na sua declaração disse “A CNPP condena o líder do PDP, Makarfi, por fazer política com a liberade das raparigas de Chibok. Eles tiveram o seu tempo no poder mas faltou-lhes a vontade de providenciar a libertação das raparigas.

Ogunlola também aconcelhou Fayose a prestart atenção à boa governação e para procurar medidas para pagar aos funcionários públicos e pensionistas que estão a sofrer no seu Estado.

Serão elas as raparigas de Chibok?

Enquanto alguns nigerianos duvidam da autencidade das raparigas, o líder da comunidade de Chibok em Abuja, Hosea Tsambido disse que comparando a lista de rapargias sequestradas e das raparigas libertadas, ele conclui que se tratavam das suas filhas que tinham sido sequestradas pelo insurgentes do Boko Haram.

“Eu comecei a comparar a lista com a lista que eu tinha e começei a ver um número considerável de nomes que correspondiam à minha lista, por acredito que se tratam das raparigas de Chibok” declarou.

As suas respostas esclareceram um dos aspectos da questão mas a confusão em volta das raparigas mudou para “como é que as raparigas que passaram três em cativeiro estão em bom estado de saúde, limpas e com boas roupas com uma das raparigas a segurar um rosário católico?”

Alguns nigerianos foram para as redes sociais colocar mais questões e exigir respostas. Um destes nigerianos foi Iyke Kingsley, que colocou as seguintes questões:

(1) Como é que as raparigas que foram libertadas na semana passada estavam a segurar rosários católicos quando nós as vimos a usar hijab no campo do Boko Haram? Querem-me fazer acreditar que o Shekau, que odeia tanto os cristãos e o cristianismo deixou que as rapargias continuassem católicas no meio do mato e não matou uma série delas só porque aquilo lhe aborrecia?

(2) Os militares disseram que tinham bombardeado severamente a inteira floresta de Sambisa e que cortou as rotas logísticas do Boko Haram, então como é que os terroristas conseguiram bens e alimentos para alimentar estas raparigas durante dois anos inteiros? Que as fez ter um aspecto ainda mais saudável que a maioria das mulheres a serem alimentadas pelo governo federal no campos de deslocados internos? Quem é que as alimentou na floresta?

(3 ) Alguém reparou que algumas das raparigas tinham o cabelo entrançado? Será que o Shekau tem um cabeleireiro na floresta de Sambisa? Quem é que lhes tratou do cabelo?

(4) Para transportar mais de duzentas raparigas será necessário pelo menos 3 ou 4 autocarros para o fazer…Em lado nenhum grupos terroristas raptam uma multitude de pessoas de uma vez só, muito menos uma multidão de duzentas raparigas…depois de se irem embora, os autocarros nunca foram identificados? Os militares não encontraram indícios dos autocarros em Sambisa?

(5) Onde é que no mundo é que se vê mais de duzentas raparigas a realizar exames secundários de física ao mesmo tempo?… poderia continuar mas vou ficar por aqui…

6) Porque é que estão a impeder que os pais e tutores das rapargias tenham acesso a elas? Ou até os jornalistas para as entrevistar? Claro, que tem medo que alguma das raparigas diga alguma coisa que não está autorizada a dizer num descuido…. As coisas vão acalmar e desaparecer… esperem só.

Um outro nigeriano residente em Abuja, que não está satisfeito com este desfecho disse à e-global, “O rapto destas raparigas foi trabalho do APC pelo Buhari para destabilizar o govenro do Goodluck Jonathan, para roubar o poder mas hoje vemos Deus a trabalhar, até o Buhari está a recolher o que semeou, Deus Todo-Poderoso não que seja ele a governar. “A Biblia diz “Faz aos outros o que queres que os outros te façam a ti” fogo pelo foogo. As raparigas de Chibok libertadas não foram raptadas pelo Boko Haram mas pelo Grupo Militante Buhari.

A história

Mais de 200 estudantes femininas da Escola Secundária Pública de Chibok foram raptadas em Abril de 2014 enquanto realizavam os exames finais de certificação do secundário. Foram rapatadas durante a noite dos seus alojamentos, e desde então, ninguém conseguiu até agora dar a localização exacta das raparigas.

Uma análise mostra que 106 das raparigas raptadas foram libertadas.

  • 21 foram libertadas pelos terroristas numa troca por comandantes do Boko Haram em Outubro de 2016
  • 82 foram libertadas noutra troca a semana passada
  • 3 raparigas conseguiram escapar separadamente do enclave do Boko Haram, uma em Maio de 2016, uma em Novembro de 2016 e uma em Janeiro de 2017.

As raparigas que foram as primeiras a serem libertadas estarão a frequenter um program de reintegração e reabilitação de 9 meses, incluindo aconselhamento psicológico, educação básica, formação professional como alfaiate, catering, entre outras, bem como desporto e recreação.

As recém libertadas 82 raparigas irão gozar das mesmas oportunidades que as primeiras 24 raparigas.

O governo nigeriano veio negar as noticias que tinha negado o acesso dos pais às primeiras raparigas libertadas, dizendo que os pais já tiveram oportunidade de visitar as raparigas em Abuja. Um funcionário do governo que não está autorizado a comentar, disse no entanto, “as raparigas passaram o ultimo natal em Chibok com os pais.”

Mas um nigeriano continua a pensar como é que o governo vai continuar a manter as raparigas longe da sua comunidade. “Acho que algo está mal, o que é que o governo está a tentar esconder. Temos pessoas libertadas nos campos de deslocados internos, porque é que o governo está a impeder que estas raparigas voltem a Chibok, a sua comunidade. Porque é que o mesmo tratamento não foi facultado a outras vítimas?” questionou Abraham Bamusa, residente em Abuja.

A informação que foi dada pelo governo foi de que as raparigas deveriam ter ido passar a Páscoa de 2017 já com as suas famílias. No entanto, por motivos de segurança permaneceram em Abuja, e o governo está a ser cuidadoso pelo trauma que as raparigas podem sofrer quando regressarem e forem sujeitas às perguntas dos seus familiares.

Onde é que elas foram mantidas?

Muitos nigerianos não acreditam que as raparigas foram mantidas na floresta de sambisa. Um deles é um natural de Borno que é o Director Executivo da Voz do Movimento Cristão do Norte da Nigéria, Reverendo Kallamu Musa Dikwa.

Numa intervista à e-global, Dikwa afirmou que as raparigas foram mantidas em Maiduguri e não em Sambisa, como o governo quer que os nigerianos acreditem.

“Estas raparigas foram mantidas em Maiduguri, na capital do Estado de Borno, em três casas pertencentes a importantes politicos de Borno.”

“As primeiras 21 raparigas foram libertadas no que se pareceu como a vitória sobre o terrorismo. E agora foram libertadas estas 82. A maioria de nós em Borno sabe que estas pessoas andam a jogar à política com as vidas destas raparigas – nós sabemos que elas não estão em Sambisa, nós sabemos onde elas estão a ser mantidas.”

“Eu escrevi aos Serviços Secretos, à polícia, ao militares e à Assembleia Nacional como deveria atacar o Boko Haram e todos ignoraram os meus avisos. Quanto tempo tempos de continuar a viver nesta mentira?” questionou.

As raparigas que não querem voltar a casa

Enquanto o mundo continua a celebrar a libertação destas raparigas, insurgentes do Boko Haram divulgaram um video mostrando quatro raparigas que diziam preferir ficar com os insurgentes a voltar para casa.

O video mostrava 4 alegadas raparigas de Chibok, uma delas segurando uma espingarda AK47, pedindo que os nigerianos se voltassem para a oração a Alá.

Antes disto, um dos negociadores, Zannah Mustapha disse que algumas das raparigas tinham escolhido ficar com os insurgentes.

Mas numa reação às declarações de Mustapha, o Presidente da Comunidade de Chibok em Abuja disse que a forma como o governo nigeriano estava a resolver a situação era suspeito.

Ele disse aos jornalistas que “o mais desconcertante e chato nestas declarações de um dos negociadores que disse que algumas das raparigas se recusaram a voltar. Nós não queremos ouvir isso, mesmo que seja verdade, não é da sua competência andar a divulgá-lo.”

“As raparigas tem de voltar, quer elas queiram quer não; Devem forçá-las a vir da mesma maneira que foram forçadas a ir. Da mesma forma que o seu pensamento foi mudado pelo Boko Haram, quando elas voltarem para junto de nós, iremos mudar-lhes o pensamento novamente. Ainda não fomo contactados; os pais ainda não foram contactados. A única coisa que me foi dito foi que algumas pessoas de Chibok, dois presidents de câmara, o actual e o anterior líder do governo local, vieram a Abuja e foi-lhes dado acesso às raparigas. Alguns lideres comunitários de Abuja, que foram com eles, foram impedidos de entrar.”

De acordo com a campanha do grupo Tragam as nossas raparigas de volta (Bring Back Our Girls Group – BBOG), ainda existem cerca de 113 raparigas no campo do Boko Haram.

Iliya Kure, correspondente na Nigéria (Kaduna)

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