África Subsaariana | Exclusivo | Reportagem

Mauritânia: Fazer a cultura da Paz todos os dias no campo de refugiados de M’Bera

M'Bera école pour la net

 

1
A imensa vastidão do campo de refugiados de M’Bera a perder de vista impõe-se aos olhos habituados à paisagem árida do deserto da Mauritânia! Impõe-se não só pela vasta área que ocupa mas também pelo significado poderoso que cada metro quadrado encerra, onde cada família tem uma história para contar, onde cada refugiado transporta consigo, no seu dia a dia, o sofrimento de ao longe, apesar de tão perto, ver o seu país mergulhado na pobreza e na insegurança originada pela ocupação dos grupos jihadistas, onde cada olhar está marcado pela memória de momentos de inesquecível brutalidade, que perdurarão na História destes malianos obrigados a ficar arredados do seu lar, do seu quotidiano, da sua normalidade.

2

É com este sentimento que se olha para este campo de refugiados, muito devido à realidade que aqui se observa quanto mais nos aproximamos. Cada homem e cada mulher, que carrega consigo a angústia de voltar, procura, todos os dias, trazer à sua vida a normalidade de outrora. Organiza o seu dia, ocupando-o com tarefas que lhe trarão a sensação de utilidade, de projeto, de construção, de esperança. E é assim que labora na procura do caminho de regresso, que deseja rápido mas seguro. Semeia, planta, rega, colhe, vende. Nasce, tece, cresce, educa, dança, canta e volta a renascer com a vontade de melhorar, de ser ainda melhor.

3 4 5 6

Vence mais um dia na tentativa de mitigar a dor. Trabalha, assim, como um artesão da vida, da vida que quer ver construída e transporta para o seu quotidiano a cultura da paz. Ensaia viver e ousa mostrar ao mundo como afinal as tribos, as etnias, os homens, as mulheres e as crianças podem viver juntos e em paz!

7É este o ambiente que o ACNUR, em associação com os seus parceiros nacionais e internacionais, promove no campo de refugiados malianos de M’Bera, na Mauritânia, com um conjunto de projetos, onde se procura envolver toda a comunidade de refugiados malianos e a promoção de coexistência pacífica com os mauritanos.

8

É um importante trabalho conjunto de todas as Organizações que trabalham empenhada e construtivamente com a ACNUR que deve ser realçado e amplamente apoiado por todos aqueles que pretenderem contribuir para ajudar a devolver mais sorrisos e conquistar mais paz para o futuro das nações. É com este espírito que vemos estes malianos trabalhar a terra, que os mantém ocupados, que lhe dará o sustento, que os ajudará a sobreviver aos imprevistos do tempo, que lhes proporcionará algum conforto à alma e manterá nos seus corações a chama viva da esperança de um futuro certamente melhor.

9 10 11 12
Por isso colaboram ativamente com as instituições presentes no terreno, para participarem nos diferentes projetos e abraçam com carinho todas as oportunidades que a ACNUR lhes apresenta. Aboubakrine AG Hamama, responsável supervisor do Campo de Plantação nº4, fala-nos com ânimo do seu trabalho e diz conhecer todas as culturas que crescem neste campo, tornando-se rapidamente perceptível que tanto a sua quantidade como a sua qualidade estão sujeitas ao olho clínico de Aboubakrine, que parece aceitar com candura a sua nova situação de refugiado mas sempre com o olhar posto no além.
14

Do mesmo modo, Mohamed Yahya, especialista na plantação de culturas, mostra com vivacidade as e orgulho as sementes que assegura vão desabrochar numa planta medicinal capaz de acalmar as dores de estômago e fazer parar o vómito, nomeando-as em tamashek: AKAMN. Mais à frente indica, com alegria, a árvore da constipação, que em tamashek chama de TAFNIT. Assim se percorre o organizado Maraichage nº 4, sob a supervisão do SOS Desert, entre beringelas, tomates, batatas e arrachides. Mohamed Yahya, verdadeiro conhecedor de cada produto que a terra cultivada e cuidada pelas gentes do campo oferece dá por encerrada a visita mostrando com entusiasmo todos os legumes e frutas que foram o ganho do dia e que vão ser vendidos no mercado semanal de terça-feira, onde cada família está a vender os seus produtos colhidos do seu suor.

_15  16  17 181920

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antes de terminar, YAHYA quer deixar vincado que “no campo não se cultivam árvores, porque as árvores simbolizam vontade de permanecer no mesmo sítio e essa não é a vontade dos refugiados malianos, que querem ver as árvores crescer nas suas queridas terras malianas”, acrescentando que “aqui, nas terras dos nossos irmãos mauritanos, fazemos o melhor possível para a manutenção do dia-a-dia e agradecemos com fervor tudo o que aqui nos tem sido facultado”.

Sem dúvida, este é um projeto amplamente apoiado pela SOS Desert, digno de aplauso, mas, como salientou Bettina Gambert, encarregada da Proteção na ACNUR, numa entrevista à e-Global, a educação é a principal prioridade da ACNUR, em associação com os seus parceiros, sobretudo da UNICEF e INTERSOS, para os refugiados do campo de M’Bera. E é neste setor que vemos o maior e mais exemplar empenho de todos, desde as crianças às mulheres e homens que não viram costas ao futuro, apesar do presente ser duro e absorver as energias que dão mais alento à vida. A educação aqui é mesmo para todos, como indicam as placas à entrada do complexo escolar, que teve a mão do arquitecto português João Sobral, num projeto levado a cabo pela organização italiana FAREstudio.

21 22

Omar Diallo, responsável pela zona das escolas, faz um périplo demorado por todo o recinto, e faz questão de evidenciar o trabalho desenvolvido por cada professor e deixa que estes profissionais, refugiados malianos, conduzam os sonhos das mulheres que maioritariamente assistem às aulas de alfabetização, alimentem o brilho dos olhos das crianças e jovens que aprendem as letras e os números que os vão conduzir a lugares mais justos, garantidamente melhores. Aprendem o francês na sua língua, peulh, tamashek e árabe, que faz parte do programa de ensino no Mali e é gratificante ver a rapidez com que as crianças aprendem a escrever, a ler e a falar a língua da cidade das luzes. E fazem todos questão de mostrar que lembram todos os dias o seu Mali e por isso ouve-se, alto e bom som, à voz límpida destas crianças, cantar o hino do país, cujo coro infantil e juvenil é dirigido pelo mestre, no início das aulas, quase em tom de súplica para que o governo maliano não os esqueça, não os deixe abandonados à sua sorte e perceba que todos no campo se esforçam para regressar com as armas da paz, e por isso se agarram ao ensino, à escola. Com esta mágoa vincada no coração que o director Hamma Ould Baba apela ao ministério da Educação maliano que envie alguém para ver os pequenos malianos que, também, representam o amanhã do país.

23 14 25

26 27 28

29 30 31

33 34 35

É assim, com o programa de aprendizagem maliano, que, segundo o diretor Hamma Ould Baba, a memória do passado é mantida no presente para firmar o futuro e não o deixar fugir dos pequenos corações que batem ao ritmo das agruras vividas pelos adultos, que jamais poderão atenuar as marcas nos seus rostos das dores sofridas pelas perdas de mães, de filhos, de irmãos, de amigos, das suas casas, massacrados pela presença sangrenta dos grupos jihadistas, como a AQMI e o MUJAO, que ocuparam agressivamente todas as cidades do norte do Mali.

Com a certeza de que a cultura pode ter um papel importante na divulgação de mensagens, através da imagem, a desenhista Isabel Fiadeiro aceitou o desafio da e-Global e acompanhou toda a missão ao campo de M’Bera, deixando impresso nos seus cadernos o quotidiano estes refugiados e fê-lo com emoção, rodeada de crianças que maravilhadas observavam a sua arte, a sua criatividade para construir sorrisos naqueles rostos pequeninos, curiosos, atrevidos, brincalhões. Aqui a cultura teve o poder da magia e a Isabel deixou-a fluir, envolvendo-se, dando a sua mão treinada às mãos daquelas pequenas gentes que só queriam estar extasiadas. Aqui a arte teve esse poder, a força de dar a oportunidade a estes olhos ávidos de ver o belo, de sentir a importância das suas vidas desenhadas em cadernos de artista. E sem saberem o alcance deste gesto artístico tem, dispõem-se a ser esculpidos pela arte altruísta da mestre, que só quer dar voz aos refugiados, usando o seu dom.

36 37 M'Bera école pour la net

E para celebrar o dia mundial do refugiado e envolver os talentos artísticos e culturais dos refugiados malianos, a ACNUR, através de Helena Pes, tem todo um programa de actividades culturais preparado, a que a e-Global teve o privilégio de ter acesso antes da sua divulgação, para ser apresentado no Instituto Francês, em Nouakchott, entre 31 de Maio de 2016 e 7 de Junho de 2016, que antecede a data formal do dia mundial do refugiado, que este ano ocorre por ocasião do mês do ramadão, a 20 de Junho de 2016.

38 39 40

Assista a uma aula de Matemática em M’Bera

Numa altura em que a violência extrema enche as páginas dos jornais e faz a sua apologia nas redes sociais, a cultura pode e deve ter um papel importante na solidariedade para com aqueles que são as principais vítimas dos extremismos, os refugiados. E como bem defende Jorge Barreto Xavier “As perspectivas da cultura são fulcrais para encontrar novas respostas”. É a cultura ao serviço da paz!

Para apreciar os cadernos de desenho de Isabel Fiadeiro referentes a esta deslocação ao Campo de M’Bera, na Mauritânia
http://mauritania-isabel.blogspot.pt

Para ver o projeto de construção do complexo escolar do campo de M’Bera, no qual colaborou o arquitecto português João Sobral
http://www.farestudio.it/ism/

Para seguir a página de facebook da ACNUR Mauritânia, com as mais recentes atualidades das actividades de profissionais no terreno
https://www.facebook.com/UNHCRMauritanie/?fref=ts

Para contactar a ACNUR em Nouakchott e estar a par das últimas ações desenvolvidas
UNHCR (ACNUR): www.unhcr.org
http://maps.unhcr.org/apps/campmapping/index.html

Responsável pelos donativos: Sebastien Laroze Barrit, [email protected] +222 22 685 551
Responsável pela Informação e Comunicação: Helena Pes, [email protected] +222 22 887 904

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo