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Mohamed Abdelaziz permanece chefe supremo da Frente Polisário

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Circularam alguns rumores que sugeriam que Mohamed Abdelaziz, o chefe histórico da Frente Polisário, poderia ser substituído durante o XIV congresso do movimento que decorreu nos acampamentos de refugiados de Dakhla na desértica zona do sudoeste argelino.

O agravamento do estado de saúde de Mohamed Abdelaziz e multiplicação de hospitalizações, alguns focos de contestação à longevidade na chefia do movimento sarauí e o fastidioso impasse da resolução da questão do Sara Ocidental suscitaram a propagação de rumores que pretendiam sustentar e credibilizar as notícias sobre a possibilidade de Abdelaziz passar o testemunho e sair da presidência do movimento ou de ser criado o cargo de vice-presidente que seria uma janela aberta para a posterior saída de Mohamed Abdelaziz.

Perante as contestações contra os chefes perpétuos que varreu o Magrebe, e as revoltas nos países subsarianos que têm ejectado líderes agarrados ao poder, os fiéis do líder da Frente Polisário alegam que Mohamed Abdelaziz chefia um movimento de libertação, daí a necessidade da continuidade. Mas Abdelaziz é também por inerência presidente da República Árabe Sarauí Democrática (RASD), colocando-o assim desconfortavelmente ao lado dos chefes perpétuos africanos.

Respeitando a tradição, que determina que um chefe de um movimento de libertação não é substituído enquanto prossegue a luta, excepto por morte deste, nada impede que a construção política do sucessor de Abdelaziz esteja já em curso.

Alguns nomes de potenciais sucessores de Mohamed Abdelaziz foram evocados oficiosamente, uma estratégia de comunicação eficaz que alimentou uma falsa expectativa de que algo de novo poderia surgir no XIV congresso. Estes rumores terão tido também a intenção de orientar os olhares para os já potenciais candidatos à sucessão.

A personalidade e percurso dos potenciais sucessores evocados acabaram por definir também o perfil do sucessor ideal de Mohamed Abdelaziz. Taleb Omar, primeiro-ministro da RASD, encarna a continuidade; Hamma Selama Ali Salem, membro do Secretariado Nacional da Frente Polisário e Ministro do Interior, é o “embaixador” da juventude sarauí; Mohamed Salem Ould Salek, um diplomata muito popular externamente ainda que praticamente desconhecido internamente; Lamine Ould Bouhali, um militar por excelência e admirado por tal, mas imediatamente excluído na sucessão após o seu nome ter sido citado em vários escândalos.

A campanha subliminal sobre um hipotético sucessor de Mohamed Abdelaziz definiu assim as aptidões necessárias do próximo líder da Frente Polisário: uma personagem que garanta a continuidade, próximo das reivindicações da juventude, com carisma internacional, respeitado militarmente e com um nome limpo de escândalos. Apesar de ter sido excluída a possibilidade da criação do cargo de vice-presidente, a função de adjunto do líder poderá surgir e o perfil do candidato a esta função está consequentemente definido pelos mesmos critérios.

Mas Mohamed Abdelaziz é o fio condutor temporal que surge com o início da luta pela independência, atravessou os cataclismos políticos contemporâneos e sobreviveu politicamente até hoje. É a imagem de Mohamed Abdelaziz que está associada ao combate frontal sarauí contra dois monarcas marroquinos: Hassan II e o seu filho Mohamed VI. Ingredientes fundamentais para a prevalência do culto do chefe e neutralização de prováveis rivais internos ou externos com currículos insignificantes quando comparados com o do líder.

Para os argumentos favoráveis à continuidade da liderança, foram realçadas no congresso Dakhla as recentes vitórias diplomáticas da Frente Polisário: a anulação do acordo agrícola e pesqueiro estabelecido em 2012 entre Bruxelas e Rabat pelo tribunal europeu a 12 de Dezembro de 2015; o voto favorável do Parlamento europeu ao alargamento das prerrogativas da Minurso à vigilância dos direitos humanos no Sara Ocidental; a retirada da petrolífera francesa Total e consequente término das operações de prospecção no Sara Ocidental sob controlo marroquino. A reforçar todas estas vitórias, está também a renovação do reconhecimento da legitimidade da Frente Polisário e da RASD pela União Africana.

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Também o óbvio sistema vitalício e hereditário da monarquia marroquina, inimiga número 1 da causa nacionalista sarauí, sustenta colateralmente que a liderança da Frente Polisário acompanhe temporalmente o adversário enquanto dura o interminável duelo. Um argumento para a longevidade governativa pouco democrático aos olhos do Ocidente, mas incrustado na cultura e mentalidade das populações sarauís.

Diferentes indicadores mostravam ainda que a substituição do líder histórico não era conveniente porque tal poderia desencadear uma microbalcanização do movimento, desejada e incitada por Marrocos, e consequentemente repercutir-se na sua credibilidade externa. Além disso, poderia afectar particularmente a eficácia do dispositivo de segurança numa das regiões mais tensas e porosas de África. Nesta região assiste-se o trânsito permanente de grupos e grupúsculos terroristas, para além de uma vasta teia de informadores itinerantes desses grupos que viabilizam a preparação ou retracção de acções terroristas.

A indefinição política na Argélia onde uma avalanche de reformas está a alterar o funcionamento tradicional dos serviços e forças de segurança, criando novas hierarquias e organigramas do poder, é também considerada como pouco favorável a mudanças de peso no movimento sarauí.

Estes metamorfismos internos na Argélia podem atingir o rubro com a degradação contínua do estado de saúde do presidente Abdelaziz Bouteflika e da incerteza se a sua sucessão será pacífica ou conflituosa com uma confrontação dos poderosos clãs argelinos. Cenários que não criam as condições favoráveis para substituições profundas na Frente Polisário.

A importância e o imprescindível apoio de Argel à Frente Polisário não permitem ao movimento sarauí dar-se ao luxo de efectuar mudanças de peso quando a Argélia atravessa um ciclone de reformas. Estrategicamente Mohamed Abdelaziz terá de permanecer na liderança da Polisário até ficar solidamente definido quem irá suceder a Abdelaziz Bouteflika.

Estrategicamente Mohamed Abdelaziz terá de permanecer na liderança da Polisário até ficar solidamente definido quem irá suceder a Abdelaziz Bouteflika.

Aliada a esta turbulenta conjuntura está também a delicada e ambígua “sugestão” de Lakhdar Brahimi, apontado como um dos potenciais sucessores de Bouteflika, sobre a criação de um “comité de sábios” argelinos e marroquinos para se debruçarem sobre os espinhos que afectam as relações entre os dois países e naturalmente sobre questão do Sara Ocidental. Um tema considerado tabu mas tolerado quando é lançado por uma personalidade com o gabarito de Lakhdar Brahimi que abre assim um precedente sobre um assunto até agora interdito.

O fim da missão de Ban Ki-Moon e a nomeação no início de Janeiro 2016 de um novo, ou nova, secretário-geral da ONU é também um argumento de peso suplementar para continuidade da liderança de Mohamed Abdelaziz, o qual já negociou sucessivamente com cinco secretários-gerais das Nações Unidas.

Reunidos no acampamento de Daklha, o mais isolado dos acampamentos sarauís no sudoeste argelino, 2472 participantes reelegeram com “uma maioria esmagadora”, 90,31 %, Mohamed Abdelaziz, 68 anos, que dirige a Frente Polisário desde 1976.

Neste congresso as expectativas estavam concentradas na continuidade, ou não, da liderança de Mohamed Abdelaziz. Desfeita a expectativa, foram adoptadas reformas na Frente Polisário que pretendem, supostamente, reduzir o poder de Mohamed Abdelaziz, reforçar a democratização do movimento e promover a transparência. Agora os membros do Secretariado Nacional não são escolhidos pelo líder da Frente Polisário mas eleitos, com uma maioria de 2/3, pelos membros do congresso. Por isso, apesar da unanimidade entre os presentes no XIV congresso, surgiu um “pequeno contratempo”. O congresso que deveria ter fechado as portas a 20 de Dezembro teve de ser prolongado por mais três dias porque foi necessária uma segunda volta para eleger os membros do Secretariado Nacional. As decisões de Mohamed Abdelaziz passaram também a ser acompanhadas e debatidas. Com tudo isto, a Frente Polisário pretende reforçar as suas instituições e dotá-las de poderes que lhes permitam controlar e monitorizar as decisões do líder. Medidas que visam neutralizar as acusações de opacidade na gestão e governação.

No final do congresso, a Frente Polisário tentou jogar em dois tabuleiros, agradando à Comunidade Internacional, tradicionalmente defensora de uma solução pacífica para o conflito sob os auspícios da ONU, e à sua juventude (segundo dados oficiais, representou cerca de 52% dos presentes neste congresso) que é cada vez mais nervosa e defensora de um regresso às armas e retoma das hostilidades contra Marrocos.

Por um lado, a Frente Polisário pretende reforçar a colaboração com Christopher Ross, enviado pessoal do Secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, para o Sara Ocidental, e facilitar as negociações directas com Marrocos a fim de “concluir o processo de descolonização iniciado desde o cessar-fogo assinado em 1991”. Por outro lado, o movimento sarauí fortifica a sua posição como movimento armado independentista reforçando a capacidade e presença militar do movimento nos territórios do Sara Ocidental sob controlo da Frente Polisário, com o objectivo de impor a sua hegemonia sobre este espaço, estar pronto para passar a uma ofensiva e entretanto ir travando as movimentações dos grupos terroristas.

Para os próximos quatro anos a Frente Polisário estabeleceu também que será intensificada a Intifada sarauí no Sara Ocidental sob controlo marroquino, como ainda será reforçada a importância dos militantes sarauís do “interior” no seio do Secretariado Nacional da Frente Polisário, ou seja, uma forma de reafirmar que a Frente Polisário já está solidamente presente no interior do Sara Ocidental sob controlo marroquino.

O reforço das capacidades militares do movimento em consonância com a intensificação pretendida da Intifada sarauí e o reconhecimento oficial de que as dinâmicas insurreccionais nestes territórios são orientadas, geridas e fazem parte da estratégia global da luta da Frente Polisário são “não novidades” mas a revitalização directa e declarada da Intifada sarauí assumida e pretendida pela Polisário é um dos ingredientes que poderá inflamar o Sara Ocidental em 2016.

Durante a aplicação e gestão desta estratégia, anunciada sinteticamente no relatório final do XIV congresso, poderá emergir o sucessor de Mohamed Abdelaziz que terá de demonstrar ter as capacidades necessárias na acção de mobilização da juventude, destreza nos malabarismos da diplomacia e engenho militar… ou seja, os três pilares que sustentam a continuidade na liderança.

A falta de grandes anúncios no final do XIV congresso da Frente Polisário poderá ser o preâmbulo de mudanças profundas no movimento e alteração do clima de perpétuo impasse.

Rui Neumann

 

Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico.

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