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Rex Kazadi: Felix Tshisekedi não representa uma sucessão hereditária do poder como de Joseph Kabila

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Rex Kazadi em Kinshasa

Após complexas negociações, e pouco antes do fim do ano de 2016, a Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) conseguiu que a Maioria Presidencial na República Democrática do Congo (RDC), fiel ao presidente Joseph Kabila, estabelecesse um acordo com a aliança de partidos e organizações da oposição, Rassemblent, liderada pelo carismático líder da oposição Etienne Tshidekedi e líder do UDPS, principal força política da oposição.

O acordo entre as duas partes rivais, que acabou por se designar Acordo de São Silvestre, estabeleceu a retirada até ao final de 2017 de Joseph Kabila, a criação de um organismo de supervisão da aplicação da transição política, autorização de alguns exilados políticos regressarem à RDC assim como libertação de prisioneiros políticos, mas também, após complexas negociações, que um primeiro-ministro fosse escolhido pelo Rassemblent.

Um dos primeiros exilados políticos a chegar à RDC, foi Roger Lumbala, acolhido por uma multidão nas ruas de Kinshasa. Entre as personalidades a acolherem Lumbala, estava Rex Kazadi.

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Rex Kazadi, secretário-geral do Ba Patriotes ya Kongo (BPK), uma organização da diáspora congolesa que aderiu ao programa de Etienne Tshidekedi, participando no conjunto de partidos e organizações que formam Rassemblent e consequentemente nas decisões que resultaram no Acordo de São Silvestre.

Depois da corrida para chegar à assinatura do Acordo de São Silvestre, o processo abrandou, e tudo se concentra na indicação do novo primeiro-ministro que sairá das fileiras do UDPS. Face à lentidão para a aplicação do Acordo, alguns receiam que não venha a ser de facto adotado nos moldes em que foi assinado.

“Para quem conhece o Congo sabe que existe um ritmo característico. Infelizmente é desta forma que o país funciona. Não há recuos, é simplesmente o ritmo normal”, explicou Rex Kazadi ao e-GLOBAL, “um diálogo que deveria ter durado duas semanas, já vamos em praticamente em dois meses e meio, o diálogo de uma semana, já dura há um mês e 10 dias, é este o modo de funcionamento, quer dizer, demora, vai demorar, mas as coisas evoluem”.

Neste momento o debate gira em torno do número de ministros a distribuir entre a maioria e o Rassemblement, mas também definir quais ministérios vão ser partilhados entre os rivais, e impor o primeiro-ministro, explicou Kazadi.

“Hoje existe um pequeno bloqueio na Maioria, no seu ego, porque eles querem imperativamente que lhes fornecemos o nome do primeiro-ministro, porque querem dar a impressão de que foi o presidente a escolher, enquanto nós, todo o Rassemblement, já decidimos por unanimidade um único nome e será esse que iremos apresentar”, disse Rex Kazadi avançando que o primeiro-ministro indicado pelo Rassemblement é Felix Tshisekedi, filho de Etienne Tshisekedi.

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Indicado pela UDPS, e confirmado pelo Rassemblement, Felix Tshisekedi poderá assim ser o próximo chefe do executivo congolês, uma escolha que ainda terá de ser aprovada por Etienne Tshisekedi, na qualidade de chefe do Conselho dos Sábios, e aquele “que tem direito à última palavra”, sublinhou Rex Kazadi.

Para o secretário-geral do BPK, a escolha do filho do líder da oposição para liderar o executivo não pode ser encarada como uma sucessão de poderes hereditários, característico em alguns países africanos, e tal como aconteceu na RDC com Joseph Kabila a suceder o seu pai, Laurent Desiré Kabila.

“A configuração é completamente e totalmente diferente. Etienne Tshisekedi não está no comando do país. A pessoa que está á frente do país é Joseph Kabila. Etienne Tshisekedi é um opositor e provavelmente vai chefiar o conselho de supervisão da transição, além disso, coube à UDPS escolher o chefe do executivo, que foi confirmado pelo Rassemblement, e Etienne Tshisekedi irá alinhar pela maioria no Rassemblement”, precisou Rex Kazadi que acrescenta “uma vez que Felix Tshisekedi assuma a chefia do governo, o seu pai passará a ser um cidadão congolês comum, sem qualquer mandato executivo”.

Rex Kazadi garante que não receia que o Acordo de São Silvestre não seja cumprido e que possa ocorrer um bloqueio que impeça a sua aplicação e sublinha que “até hoje, a maioria tem respeitado escrupulosamente o acordo”.

Como secretário-geral do Ba Patriotes ya Kongo (BPK), Rex Kazadi, defende em Kinshasa os interesses dos congoleses no estrangeiro. “A Diáspora representa 10 milhões de congoleses que não participaram nos debates, tendo no entanto o pleno direito de o fazer nas eleições presidenciais. Representa 10% da população. A Diáspora é um universo onde existem inclusive pessoas da Maioria, pro Kabila. Com a lei eleitoral de 2015, os congoleses da Diáspora podem votar e vão votar. É por isso mesmo que estamos aqui”, explicou Kazadi.

“Eu sou um dos representantes da Diáspora, e o receio daqueles que eu represento é de serem postos de lado, de serem esquecidos. É importante que aqui não esqueçam que a Diáspora envia para a RDC duas vezes o orçamento nacional”, salientou o secretário-geral do BPK, “quer dizer que enviamos praticamente 9 a 10 mil milhões de dólares por ano, enquanto o orçamento nacional é de 4.5 mil milhões”.

Para Rex Kazadi a sua “principal luta” é que a Diáspora possa ter deputados na Assembleia Nacional. “Neste momento a Diáspora não tem deputados. Pode votar nas presidenciais, mas não pode nas legislativas, o que não é normal”, defende Kazadi, “nós representamos 10% da população, portanto, deveríamos ter 10%, dos deputados na Assembleia”. Não é lógico que “uma pessoa pode ser eleita deputado em Lubumbashi, quando está a 4 horas de avião de Kinshasa, e outra no Congo Brazzaville, que está a 5 minutos de barco de Kinshasa, que não tenha direito a representação na Assembleia porque supostamente está no estrangeiro, tal como alguém que esteja Paris, Londres, ou a nos Estados Unidos”, defendeu Rex Kazadi, secretário-geral do Ba Patriotes ya Kongo (BPK).

RN

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