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Sara Ocidental: “O nosso exército está muito bem preparado para lidar com a possibilidade de reinício da guerra”

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Entrevista com o Ministro da Defesa da República Árabe Sarauí Democrática (RASD), Abdallah Lahbib.

E-GLOBAL: Que medidas defensivas a Frente Polisário adotou em Gargarate face à ameaça Marroquina?

Abdallah Lahbib: Antes de mais gostaria de aproveitar o momento para agradecer a atenção dada à legítima causa sarauí que se arrasta há muito tempo e para a qual ainda não foi possível encontrar uma solução. Esta entrevista é para nós uma oportunidade sobre sensibilizar o público internacional sobre a realidade da nossa causa.

Antes de responder à sua questão quero lembrar que foi o ocupante marroquino que provocou a questão de Gargarate, tomando a iniciativa de violar o acordo de cessar-fogo assinado entre a Frente Polisário e Marrocos em 1991, no âmbito do plano de paz da ONU para o Sara Ocidental. O exército hostil marroquino saiu do seu muro defensivo e começou a varrer a zona-tampão (5 km para lá do muro marroquino) até então interdita para ambas as partes, e deu início à pavimentação da área em questão, tentando assim ocupar novos territórios aos nossos territórios libertados.

Marrocos tentou alterar a realidade no terreno e impor a situação como “um facto consumado” depois de termos informado as Nações Unidas da violação marroquina do acordo de cessar-fogo e das constantes provocações, mas não fizeram nada sobre as violações marroquinas. Assim, o Exército de Libertação Sarauí assumiu a responsabilidade de repor a normalidade, enviando unidades militares com ordens precisas e instruções de responder vigorosamente a qualquer passo das tropas marroquinas, mesmo que seja de apenas um metro.

Geograficamente, Gargarate está localizada numa estreita faixa de terra entre o Sara Ocidental ocupado e a Mauritânia. A Frente Polisário tem capacidade militar para travar uma ofensiva militar marroquina nesta área?

É verdade que Gargarate está localizada numa área muito estreita, entre o Sara Ocidental ocupado e a nossa irmã Mauritânia, mas o campo de batalha e a guerra não estão limitados a Gargarate mas sim a todo o Sara Ocidental e Marrocos vão ser o teatro de guerra e a estratégia não é apenas repelirmos ataques aqui ou ali, mas com base na experiência, do tipo e tática, que o exército de sarauí alcançou durante a guerra, e com a convicção que a nossa causa é justa, as características de sacrifício e coragem que temos, apostamos na manutenção de Gargarate.

Gargarate vai inflamar o conflito numa região que não precisa de mais problemas, pois já está cheia de grupos terroristas, crime organizado e tráfico de drogas.

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Os “gigantes” africanos (Argélia, Nigéria, Angola, África do Sul) apoiam a causa sarauí. Em caso de conflito, acha que esses países podem apoiar militarmente a Frente Polisário? Ou a cooperação é limitada ao treino?

O apoio que recebemos dos nossos amigos e aliados é muito importante e estamos muito gratos. Agradecemos muito a quem contribuiu ou ajudou, apoiando este povo oprimido que tem sido deslocado e a sua terra ocupada só porque queria viver livre e dignamente, tal como os outros povos do mundo.

A 20 de Maio de 1973, quando anunciamos a revolução e iniciamos a luta armada contra a Espanha, não tínhamos nada, nem armas nem munições e no entanto não esperamos que nos chegasse qualquer apoio de fora. Dependíamos apenas de nós próprios e construímos o nosso próprio poder usando como recurso principal as armas, camiões e carros capturados aos nossos inimigos.

Esperamos ter a cooperação desses países, e outros, em todos os campos e aspetos.

Confrontada com a ameaça terrorista e a presença de grupos extremistas na região, como é que a Frente Polisário pode contribuir para a segurança da região?

A Polisário teve experiências com terrorismo há alguns anos, quando alguns estrangeiros foram raptados nos campos de refugiados sarauís por movimentos terroristas (tawhid e Jihad). Todos estes grupos eram, e são ainda hoje, financiados pela droga proveniente de Marrocos. Lutamos e realizamos várias operações contra grupos de traficantes de drogas, que dependem financeiramente dos relacionamentos e ligações com os terroristas.

Capturamos armas e dispositivos de comunicação, assim como uma enorme quantidade de drogas (toneladas) e tudo foi queimado. Como pode constatar já participamos e permanecemos em guerra contra o terrorismo, e estamos prontos a participar na guerra contra todos os grupos que ameacem a segurança e a estabilidade da região.

Os jovens sarauís estão cansados do impasse e da não-resolução da ocupação do Saara Ocidental. Em todo o Magrebe e o Sahel os jovens são muitas vezes atraídos pelos movimentos extremistas armados. Qual é a estratégia da Frente Polisário para impedir que sua juventude integre esses movimentos?

A juventude sarauí não está cansada, mas farta e dececionada com a incapacidade da comunidade internacional e das Nações Unidas em encontrar uma solução para a sua legítima causa. Há pouca ou nenhuma esperança para resolução deste problema que perdura há mais de quarenta anos e isso faz com que a paciência da juventude esteja desgastada.

A paciência da juventude tem limites e estamos bem atentos para este perigo, mas a verdade é que não conseguimos convencer mais a juventude a ser ponderada, o que vai resultar na explosão da situação a qualquer momento.

Arranjar emprego para a juventude não é solução ou estratégia. A estratégia e a solução para o problema da juventude sarauí, e para todo o povo sarauí, passa por encontrar uma solução para sua causa legítima. Um referendo livre, democrático e transparente para permitir que o povo sarauí decida sobre o seu futuro e que possa ter o direito à autodeterminação, esta sim é a solução ideal.

Qual é a mais-valia da Frente Polisário para fazer face a um exército como o marroquino que, com frequência, moderniza e adquire novos equipamentos e armamento?

A Frente Polisário depende da legitimidade da causa sarauí e da convicção e fé absoluta de sacrificar tudo pela liberdade, dignidade e independência, para além de depender totalmente dos seus meios humanos. Á frente de qualquer máquina ou tecnologia nós dependemos de base e promovemos o recurso humano.

A Frente Polisário depende do homem cuja fé, coragem e grande vontade de sacrifício. Sim, dependemos do homem e apenas do homem.

A mais recente posição assumida pelo Tribunal de Justiça da União Europeia não reconhece a soberania marroquina sobre os territórios ocupados. Acha que isso pode ser um rastilho para o recomeço das hostilidades entre o movimento sarauí e Marrocos?

Não somos belicistas, não fomos nós que causamos este conflito, apenas defendemos o nosso direito de existir e viver com dignidade. Apenas queremos que sejamos questionados sobre o nosso destino, nem mais nem menos. Queremos o nosso direito à autodeterminação, batalhamos e lutamos pelo direito de recuperar os nossos territórios sob ocupação marroquina.

A guerra nos é imposta e iremos lutar, não porque gostamos da guerra, mas para impor uma solução para nossa causa legítima. A responsabilidade da ocupação está nos ombros de Marrocos assim como as consequências do reinício da guerra, enquanto continuarem a ignorar o nosso direito à liberdade e independência.

Chamamos a atenção do mundo para o facto de a nossa paciência ter chegado ao seu termo.

As vossas tropas estão suficientemente treinadas para lidar com essa situação?

É óbvio que as nossas tropas estão bem treinadas e tem experiência militar suficiente para enfrentar novamente o exército de ocupação marroquino. As nossas tropas e as vitórias militares nos anos setenta e oitenta forçaram Marrocos a negociar connosco e a compreender que não é possível eliminar-nos militarmente, daí ter aceitado o plano de paz proposto sob os auspícios da Nações Unidas.

Sim, o nosso exército está muito bem preparado para lidar com a possibilidade de reinício da guerra.

RN/KR

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Ahmed Salem Amr Khaddad

    19/01/2017 at 17:06

    Cada vez que a Argélia está em apuros na questão do Sara Ocidental, ela pede aos líderes polisários que ameaçem Marrocos e a comunidade do Sara Ocidental. Não estamos assustados. Nós estamos prontos. Faremos a guerra se esta é a única maneira de libertar os nossos parentes seqüestrados na Argélia desde 1976. Obrigado

    Ahmed Salem Amr Khaddad
    Saharaui Ocidental

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