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Cabo Verde permanece um entreposto importante do narcotráfico proveniente da América do Sul

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Allan de Abreu

Tradicionalmente o Brasil não é um país produtor de cocaína, no entanto, pelo Brasil transita a maior parte da cocaína produzida na América Latina que parte para os EUA, África Ocidental, Espanha, Holanda e Portugal.

Depois de mais de cinco anos de investigação, o jornalista brasileiro Allan de Abreu expôs ao longo de mais de 800 páginas pormenores sobre tráfico internacional de cocaína, numa obra intitulada “Cocaína: A Rota Caipira”.

“O termo caipira é um termo brasileiro que significa algo como campesina. A rota campesina porque a cocaína passa pelo interior do país. Essa rota tem origem nos países produtores de cocaína que são sobretudo a Colômbia, Peru, Bolívia e o Paraguai”, explicou Allan de Abreu à e-Global.

“A droga vem desses países sobretudo por via aérea, em pequenos aviões monomotores, até ao interior, especialmente o interior do estado de São Paulo e o triângulo mineiro, que é uma parte do estado de Minas Gerais, uma região muito plana topograficamente que facilita a aterragem das aeronaves”, essa região está “repleta de plantações de cana-de-açúcar, e nessas plantações existem muitas pistas clandestinas, porque aí já utilizam aviões agrícolas na pulverização, os quais se confundem com os aviões dos narcotraficantes”.

“Os aviões descem nessas pistas e descarregam a droga, sobretudo em camionetas. Em seguida essa droga vai em carros ou camiões até aos grandes centros de consumo de cocaína no Brasil, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, e uma boa parte dela é exportada para a Europa”.

Sobre a quantidade de cocaína que transita pelo Brasil, Allan de Abreu reconhece que nem a Polícia Federal brasileira consegue fazer uma estimativa, mas mensalmente “são toneladas, muitas toneladas, isso sabemos com certeza”.

Para exportarem a cocaína a partir do Brasil, Allan de Abreu referiu, como exemplo, o porto de Santos onde a droga é “camuflada” em cargas convencionais. “No livro eu cito muito isso, ocultam como azulejos, válvulas hidráulicas, a carga é variada”, explicou, “e depois despacham diretamente para a Europa ou para África, que é um entreposto importante do esquema do narcotráfico, também como destino final a Europa”.

Segundo o trabalho de investigação de Allan de Abreu, em África os destinos principais do narcotráfico proveniente do Brasil estão concentrados no Golfo da Guiné, especialmente a Nigéria. “Os nigerianos são muito atuantes no Brasil, a massa nigeriana é muito presente no estado de São Paulo, justamente para operar esse tráfico que passa por Lagos, na Nigéria”, precisou.

Para além da Nigéria, a Guiné-Bissau, Cabo Verde e Guiné Conacri são outros destinos, citados por Allan de Abreu, que continuam a ser privilegiados pelos narcotraficantes.

Para a Guiné-Bissau, os narcotraficantes não optam exclusivamente pelo transporte aéreo, mas privilegiam a via marítima, contrariamente a Cabo Verde onde o transporte aéreo da cocaína é preferido “por ser mais próximo da costa brasileira e dos países da América do Sul. É muito comum aviões de pequeno porte  levarem a droga até Cabo Verde, que ainda é um entreposto importante. Posso afirmar isso com toda a certeza. A localização de Cabo Verde é estratégica, fica a meio caminho entre Brasil e Portugal”, frisou Allan de Abreu que acrescenta que “são quadrilhas portuguesas que operam em Cabo Verde, e inclusive têm representantes aqui (Brasil). É muito comum receber notícias de traficantes portugueses presos no Brasil, justamente nesta rota, eu cito alguns casos no livro”.

Fazendo referência aos métodos utilizados pelos narcotraficantes, Allan de Abreu conta que na Guiné Conacri os narcotraficantes estavam a construir um submarino “para transportar até 5 toneladas de cocaína entre o litoral da Venezuela e da Guiana, até à Europa, sobretudo Portugal e Espanha”.

No entanto, o projeto dos narcotraficantes “não chegou a concretizar-se porque o DEA americano infiltrou agentes na quadrilha e constatou a construção desse submarino no litoral da Guiné Conacri” que contava com o apoio técnico de engenheiros colombianos, “que são especialistas neste tipo de construções”.

As investigações de Allan de Abreu revelaram também que as principais portas de entrada da cocaína proveniente da América Latina na Europa são Portugal, Espanha e o porto de Gioia Tauro em Itália, onde o narcotráfico é controlado pela máfia local. Porém, a maior parte dos narcotraficantes na Europa são holandeses e sérvios, precisou o investigador brasileiro.

Para Allan de Abreu, no Brasil e nos países vizinhos, o “tráfico de cocaína tem aumentado e o poder de repressão das polícias destes países tem reduzido muito. Concretamente no Brasil, a polícia tem concentrado muito esforço no crime de colarinho branco, tal como no processo Lava Jato”, e consequentemente são reduzidos os meios disponibilizados no combate ao narcotráfico. “O tráfico tem caminhado impunemente no Brasil”, lamentou Allan de Abreu.

“É muito nítida a redução no combate ao narcotráfico, tanto na América Latina, no Sul especificamente como na Europa. Aqui estão preocupados com a corrupção e na Europa com o terrorismo”, disse ainda o investigador.

Allan de Abreu nasceu em Urupês em 1979. Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina, há dez anos é repórter especial do jornal Diário da Região, em São José do Rio Preto. Trabalhou nos jornais Folha de São Paulo, Bom Dia e O Estado. Também é professor universitário, com mestrado em teoria da literatura pela Unesp. Vencedor do Prémio Esso de Jornalismo na categoria Interior e finalista do Prémio Ayrton Senna de Jornalismo.

 

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