Cabinda | Entrevista

Os cabindas “agora acham que têm motivo para votar”, diz Raul Tati

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Raul Tati, antigo vigário geral da diocese de Cabinda, que entretanto abandonou o sacerdócio, manteve sempre uma posição a favor do direito à autodeterminação do povo de Cabinda. Voz incómoda mas respeitada pelos seus adversários, Raul Tati surpreendeu quando foi anunciado que poderá ser a cabeça de lista, juntamente com o jurista Félix Sumbo, da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) pelo círculo de Cabinda, nas eleições legislativas angolanas marcadas para agosto deste ano.

No entanto, a candidatura de Raul Tati entra em colisão com a posição da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) que tem multiplicado os apelos para a abstenção no enclave, alegando que as legislativas “são eleições angolanas e não cabindas”.

Para Raul Tati a sua candidatura não é contrária aos princípios que sempre defendeu para Cabinda, assim como foi o resultado de uma decisão conjunta. “Nós estivemos a fazer um trabalho profundo e essa decisão não foi tomada de ânimo leve” explicou Raul Tati à e-GLOBAL, “é um trabalho que tem sido feito pela sociedade civil, mais especificamente pelo Grupo de Reflexão da Sociedade Civil de Cabinda onde estou enquadrado, e sempre tivemos divergências em relação a essa questão: Votar ou não votar”.

Sobre a colisão com a posição da FLEC, face à atitude a tomar nas eleições, o futuro candidato da UNITA em Cabinda defende que é necessário pôr de lado as “divergência do passado” e deixar de “continuar a chorar sobre o leite derramado”.

Raul Tati não acredita que a sua candidatura poderá acentuar divisões entre as várias correntes cabindesas e a população do enclave. “Antes pelo contrário”, defende o futuro candidato da UNITA: “Estou no terreno e nos contactos que estou a ter, as pessoas que estavam decididamente para o lado da abstenção, agora acham que têm motivo para votar. Agora estão a dizer que já sabem o que vão fazer”, e sublinha que ainda não recebeu reações negativas à sua candidatura.

Por outro lado, defende a necessidade de ser criado “um novo modelo para abordar a questão de Cabinda”, Raul Tati, que se assume como um patriota cabindês, lembrou o papel de estadistas africanos ao longo da história que defenderam as suas posições nos parlamentos durante a vigência colonial, tal como no Congo francês, Costa do Marfim, Zaire, Senegal ou na Gâmbia. “Não estamos a fazer nada de novo”, sublinhou, “até Agostinho Neto estava no Partido Comunista Português”.

“Ter mais vozes de Cabinda no parlamento, a falar sobre Cabinda, sobre as questões sociais e económicas, mas também políticas que se passam em Cabinda” são as prioridades apontadas por Raul Tati a lançar na Assembleia angolana, caso seja eleito. Excertos de um “plano de ação” que ainda está a ser construído juntamente com Félix Sumbo e a sociedade civil cabindesa. Porém, Raul Tati afirma que reserva o principal do seu programa para ser revelado durante a campanha eleitoral.

Defensor do direito à autodeterminação do povo de Cabinda, Raul Tati adianta que esse direito poderá ser apresentando na assembleia angolana: “A autodeterminação não é um crime, falar da autodeterminação no parlamento também não é um crime. Isso eu sei, tenho consciência disso e portanto vamos apostar, e como se diz, quem anda à chuva é para se molhar”.

Com base na proposta do Presidente angolano José Eduardo dos Santos, aprovada pelo Conselho da República, as eleições legislativas em Angola ficaram agendadas para 23 de Agosto.

Os partidos e coligações políticas angolanas começaram esta terça-feira 2 de maio, a entregar ao Tribunal Constitucional as suas candidaturas, que devem ser validadas por este órgão.

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