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Classe docente em greve

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No Liceu Nacional e nas redondezas, centenas de estudantes estavam, esta terça-feira, a deambular de um lado para outro. Grupos eram vistos a regressarem às respetivas casas, outros a passear na cidade ou nas praias limítrofes. Nas escolas primárias, o cenário era idêntico. Com as escolas encerradas, meninos e meninas aproveitaram as primeiras horas do dia nos parques para brincadeiras antes de tomarem o caminho para as suas residências. Os jardins infantis estavam vazios, embora alguns pais e encarregados de educação tivessem saído com os seus filhos.

Havia dúvida se a paralisação ia pegar ou não, apesar do Sindicato Nacional de Professores e Educadores de São Tomé e Príncipe, SINPRESTEP, ter reiterado no fim de semanaa decisão de manter a greve após uma assembleia com os seus membros.

A reunião realizada domingo entre a comissão criada pelo primeiro-ministro Patrice Trovoada e que envolveu o ministro da Presidência do Conselho de Ministros, o ministro da Educação, o ministro das Finanças e da Administração Pública e uma representação da SINPRESTEP também não permitiu chegar a conclusões para suspender a greve.

Fontes ligadas à classe docente afirmam que houve pressão e ameaças por parte das autoridades para fazer abortar a paralisação. O primeiro jornal da Rádio Nacional silenciou o assunto, o que também contribuiu para levantar dúvidas.

Segundo o líder do SINPRESTEP, a greve e a manifestação convocada para  são para obrigar as “negociações com o governo para que em conjunto possamos encontrar as soluções para os problemas que afetam os professores plasmados no caderno reivindicativo enviado ao governo”.

«Um dos objetivos passa primeiro pela melhoria das condições de trabalho. Segundo, que o Ministério possa dignificar a classe docente. Já tinha dito, que o problema da Educação não pode ser resolvido na comunicação social. Temos uma casa própria para discutir os problemas do setor”, sublinhouGastão Ferreira.

No fim de semana, ao reagir à convocatória da greve, o Ministério da Educação, Cultura e Ciência em conjunto com o Ministério das Finanças e Administração Pública, em comunicado publicado emitido pelos órgãos estatais da comunicação social, deu a entender que o sindicato estava a exigir, sobretudo, mais dinheiro do que o governo pode dar, passando a ideia, de que a remuneração da classe docente é superior a de outros quadros da administração pública.

Foi dito por exemplo, que um professor sem formação é mais bem pago do que um licenciado (técnico superior de 3.ª classe) na Administração Pública. E um quadro com formação superior na Educação recebe três vezes mais do que o seu colega funcionário público.

«Ao contrário daquilo que tem sido dito aos pais e encarregados de educação, à sociedade educativa e à sociedade em geral, que o SINPRESTEP em representação da classe tem estado a insurgir contra o Ministério da Educação, apelando a uma greve sem legitimidade, não corresponde à verdade», comentou, por sua vez, Gastão Ferreira, e deixou um desafio:

«É necessário que o ministro da Educação humildemente crie um fórum para que nós em representação da classe e os fazedores da Educação, em representação do Ministério possamos ter um debate televisivo para nós sabermos quem está a falar a verdade».

O sindicato reconhece que a“educação vai mal. Como um setor transversal, cabe a nós todos refletirmos sobre o que está mal e encontrarmos as respetivas soluções”.

O principal alvo das críticas da classe docente é o ministro da Educação, OlintoDaio, cujas declarações na comunicação social tem contribuído para aprofundar o distanciamento entre o Ministério e o Sindicato.

«Não vale reconhecer que as coisas estão mal e devem ser corrigidas, mas utilizando termos e meios inadequados para encontrarmos essas soluções», disse o líder sindical.

A greve acontece na ausência do primeiro-ministro, que se encontra em Marrocos. Patrice Trovoada, antes de deixar o país reafirmou que “o governo está sempre disponível para dialogar e negociar” e anunciou ter-se encontrado na sexta-feira com os representantes do sindicato até tarde para “falarmos abertamente dos problemas”.

«Felizmente, o sindicato também é de opinião que não é só uma questão salarial. Toda a gente sabe que em STP a Educação não está bem. Precisa de reformas profundas e estamos disponíveis para discutir, se a questão não for apenas de dinheiro. A preocupação fundamental são as nossas crianças, é a educação dos nossos filhos. Ela passa por duas coisas: as condições nas escolas e nos liceus.É uma questão de infraestruturas e das condições de trabalho dos professores.Passapela capacitação dos professores e pelas condições salariais. O problema é profundo. É uma estrutura de remuneração que foi-se fazendo ao longo dos anos que só é sustentável se a Educação estiver mal. À medida que se melhorar a Educação tem-se que melhorar também a estrutura de remuneração, para que as pessoas possam de facto organizar melhor as suas vidas», argumentou.

A greve foi seguida por maior parte dos estabelecimentos de ensino públicos e a sua duração é por tempo indeterminado, ou seja, até haver acordo entre o MECC e o SINPRESTEP.

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