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Economia Azul pode ser inovadora e competitiva em São Tomé e Princípe

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A economia azul não significa aproveitar apenas os inúmeros recursos marinhos, mas valorizar todas as potencialidades que o país tem, de forma sustentável, para gerar emprego e reduzir ao máximo a importação, tendo em conta a inovação tecnológica e no modelo de negócios, bem como a competitividade, mas sem a “tradicional ideia da globalização, de economia de escala e produzir sempre mais barato”.

Quem o diz é Gunter Pauli, Professor e empreendedor belga  que procurou transmitir aos participantes o conceito de Economia Azul na conferência organizada pelo Ministério das Finanças, Comércio e Economia Azul.

Na opinião de Gunter Pauli, São Tomé e Príncipe não pode competir, por exemplo, com a China, Brasil ou Nigéria, produzindo mais e a menor custo, porque vai gerar pobreza. «Há que mudar de ideia. Mudar, com enfoque na geração de emprego. Se este não for o objetivo, não se está a servir a sociedade. Usar o que temos, o que está localmente disponível e gerar mais valor. Este é o princípio básico, a lógica da economia azul», afirmou.

«Como fazer um novo negócio com o café? A qualidade do vosso café, ninguém tem no mundo. O mesmo em relação ao cacau. A vantagem de ter pouco café e pouco cacau é que podem determinar o preço, desde que não compitam no mercado mundial com o preço do mercado. Isso é economia azul», acrescentou.

Deu vários exemplos de projetos que podem ser desenvolvidos, alguns com relativa rapidez, a partir de experiências em países da América Latina e Ásia. «A economia azul não é só aproveitar o cacau, o mar, o peixe, mas também a história. E a vossa história é extraordinária», afirmou.

Sugeriu que o país deve explorar outro modelo de turismo, como o científico e da biodiversidade, aproveitando o que tem de exclusivo. Praia pode-se encontrar em outras paragens.

Em 2019, celebra-se o centenário da expedição do astrónomo inglês, Arthur Eddington, que esteve na ilha do Príncipe, devido a um eclipse solar ocorrido a 29 de maio de 1919, para comprovar a teoria da relatividade de Einstein. Questionou se já se está a preparar para receber milhares de potenciais turistas que podem estar interessados em visitar o país por aquela ocasião e celebrar esse evento especial?

O mergulho como uma nova indústria para turistas, não só para contemplar a beleza das profundidades marinhas, mas para regenerar e aproveitar corais é outra possibilidade. É um processo que dura 6 meses e quem paga são os próprios turistas que depois terão interesse em regressar para acompanhar a evolução dos corais que colocaram. A ideia é também vender o que pode criar uma ligação afetiva com os visitantes estrangeiros.

Outra alternativa é o cultivo e o aproveitamento de algas. Pode produzir-se biogás e “não se precisa de pensar tanto em petróleo”. Tomando como referência o projeto que está a ser desenvolvido na Indonésia Pauli calculou que com 25 km² de algas “já é possível abastecer a população do arquipélago. O custo representa metade do petróleo importado. O lixo da produção de biogás é um fertilizante, é alimento para o gado, serve também para a cosmética, entre outras aplicações. Isso é economia azul”.

O Professor e empreendedor aconselhou ainda que o governo deveria tomar medidas para evitar a captura das fêmeas do peixe. Elas é que garantem a sustentabilidade do mar pela quantidade de ovos que produzem. Pode-se também criar áreas de reservas de peixe no mar para proteger as fêmeas para a médio prazo restabelecer a população do pescado. Os pescadores artesanais queixam-se de que o peixe desapareceu nas regiões perto da costa.

Pode-se montar igualmente uma indústria de construção de casas sociais de bambu. É barata, resistente e saudável. Além disso, uma floresta de bambu ajuda também a gerar água. “É a integração. Múltiplo benefício”.

A criação de gado caprino é também uma vantagem, porque a relação custo-benefício é vantajosa. A cabra pode alimentar-se de produtos locais e os seus derivados, queijo, leite são benéficos e o último pode ser igualmente utilizado na fabricação de gelados.

Enfim, as possibilidades são diversas. “Para uma economia mais dinâmica é conveniente ter uma variedade de produtos e alguns dão muito rapidamente. É preciso uma mudança de mentalidade para transformar a economia”. Gunter Pauli manifestou-se disposto a colaborar, “não para fazer projetos-piloto ou estudos de viabilidade, mas para ações concretas”.

Disse estar interessado no setor do café biológico. “Desenvolvemos com pesquisadores e cientistas uma nova máquina que permite comprar café verde, torrar, granular e fazer o café”.

O ministro das Finanças, na abertura da conferência considerou que “a economia azul, sendo um novo conceito de desenvolvimento sustentado focado no aproveitamento de todos os recursos disponíveis, gerador de emprego e bem-estar de todos os membros da comunidade poderá representar para São Tomé e Príncipe, um momento de mudança de paradigma, da dependência dos recursos externos e de confiança de que é possível um melhor e maior aproveitamento dos nossos recursos”.

«São Tomé e Príncipe como uma ilha, onde o mar é 160 vezes maior que a superfície terrestre, o pleno aproveitamento de todos os recursos disponíveis tanto na terra como no mar, principalmente neste último, representa uma oportunidade impar de geração de emprego com a consequente geração de riqueza e, por conseguinte, a redução da pobreza», ponderou América Ramos.

A concretização das ideias apresentadas dependerá, em grande medida, da vontade política.

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