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STP e China Popular formalizam o reatamento das relações diplomáticas

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A bandeira da República Popular da China já flutua no mastro do Escritório de Ligação em São Tomé, que era a antiga embaixada e que brevemente deverá recuperar esse estatuto.

A e-global também registou a movimentação de trabalhadores que preparam a pintura do edifício. A embaixada de Portugal é que servia de ponte entre os dois países.

A formalização do reatamento das relações feita de “comum acordo” foi anunciada tanto em São Tomé como em Pequim. O ministro santomense dos Negócios Estrangeiros e Comunidades, Urbino Botelho, deslocou-se a Pequim com este objetivo. Assinou o documento com o seu homólogo, Wang Yi, e foi depois recebido pelo vice-presidente chinês, Li Yuanchao. Em São Tomé, esteve o Encarregado de Negócios da Embaixada da China.

De acordo com o comunicado divulgado “o governo da República da China manifestou a sua decisão de apoiar o governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe nos seus esforços pela salvaguarda da sua soberania nacional, integridade territorial e desenvolvimento económico e social em prol do seu povo”. “ Pela sua parte, o Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe reconhece, por seu lado, a existência de uma única nação chinesa, tendo como seu representante legítimo o governo da República da China”- lê-se ainda no comunicado.

Como reconhecimento deste princípio, o governo de São Tomé e Príncipe decidiu cortar as relações diplomáticas com Taiwan.

 

Aurélio Martins, presidente do MLSTP-PSD, considera que com o corte de relações diplomáticas com Taiwan, “o Governo do ADI corrige um erro da história diplomática dos últimos anos”. No entanto, o líder do maior força da oposição lembrou que o seu partido “sempre defendeu, e defende o princípio da existência de uma única China, que é a República Popular da China”. “O nosso partido mantém relações históricas, de solidariedade e de cooperação fraternal com o partido comunista chinês”, sublinhou.

Aurélio Martins lembrou também que o actual Primeiro-ministro Patrice Trovoada foi “um dos protagonistas do estabelecimento de relações diplomáticas com a China Taiwan”, há 20 anos quando ocupava o cargo de conselheiro do antigo Presidente Miguel Trovoada.

O Presidente do Governo Regional da ilha do Príncipe, qualificou de “previsível e acertada” a decisão do Governo de São Tomé e Príncipe em cortar relações diplomáticas com a China Taiwan. “Todos sabíamos que mais cedo ou mais tarde iria acontecer”, comentou Tozé Cardoso Cassandra, acrescentando que este é “um virar de páginas que nós devemos saber como a partir de agora vamos assumir essa relação”. Espera, por outro lado, que o Governo ao tomar esta decisão tenha se acautelado em relação aos interesses superiores de São Tomé e Príncipe.

Por outro lado, o porta-voz do Departamento dos Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado chinês, An Fengshan, disse que a parte continental da China sempre adere ao princípio de “Uma Só China” ao tratar os intercâmbios externos de Taiwan. An fez as declarações segundo a agência Xinhua, ao comentar a retomada das relações diplomáticas China-São Tomé e Príncipe na segunda-feira, após o anúncio do país africano em 21 de dezembro de cortar “os laços diplomáticos” com Taiwan. “Qualquer tentativa de criar ‘duas Chinas’ ou ‘uma China e uma Taiwan’ está condenada ao fracasso. A tendência histórica é irresistível”, afirmou An.

A desilusão das autoridades taiwanesas é bastante profunda também pelo caráter do seu engajamento político a favor dos Trovoadas e do ADI. Acreditaram que facilitando a sua manutenção no poder estaria garantido o apoio nas instâncias internacionais para o formal reconhecimento da ilha Formosa.

Um episódio que e-global teve conhecimento é muito revelador. As autoridades de Taipei condicionaram a ordem de pagamento de uma peça sobressalente para um dos motores da Central Elétrica de Santo Amaro com o resultado das eleições. Se o vencedor fosse Pinto da Costa a luz verde não seria dada, mas como foi Evaristo Carvalho, a autorização foi concedida. Curiosamente Pinto da Costa defendia que o país deveria relacionar-se tanto com Pequim como Taipei, mantendo relações diplomáticas com Taiwan, e, ao mesmo tempo, atraindo o investimento direto chinês, inclusive procurar servir de ponte para o entendimento entre as duas partes.

Em Taiwan, a notícia que corre, segundo uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros é que a decisão do governo santomense deveu-se à recusa das autoridades de Taipei em conceder 210 milhões de dólares solicitados pelo executivo do ADI. Em conferência de imprensa, o titular da pasta, David Lee, não confirmou o montante, mas qualificou a soma pedida de “astronómica”, tendo em conta o número da população santamente. “Com base no princípio da diplomacia pragmática, Taiwan não está disposto a fazer o jogo do dinheiro, mas ofereceu ajuda através de programas que visam melhorar a vida das pessoas de São Tomé e Príncipe”, disse David Lee.

Questionado se o revés diplomático poderia afetar outros aliados de Taiwan, incluindo o Vaticano, único aliado diplomático da nação na Europa, Lee disse que a Santa Sé é muito diferente de São Tomé e Príncipe. “O Vaticano não tem exigências de ajuda financeira, a situação é completamente diferente”, disse Lee. No entanto, ele admitiu que, dado o pequeno número de aliados diplomáticos de Taipei, as missões diplomáticas de Taiwan em todo o mundo estão sob constante pressão.

Analistas e observadores estão expectantes quanto aos resultados práticos e rápidos dessa “inflexão diplomática” feita pelo governo santomense.

ADI faz a viragem num momento de aflição. Restam dois anos para terminar a legislatura. Se a situação continuar como está, a derrota é previsível, até porque grande parte do povo pequeno sente-se desiludido com a performance do governo que já não tem qualquer “força de bloqueio interno” para servir de bode expiatório. Por isso, Patrice Trovoada refugia-se agora na “desfavorável conjuntura internacional” que já era conhecida há alguns anos.

Por outro lado, Patrice Trovoada, juntamente com o seu pai, Miguel Trovoada, estiveram envolvidos na rutura diplomática com Pequim a favor de Taiwan, com base num argumento semelhante: financiamento, dinheiro.

Outro aspeto levantado por vários parceiros é que o país não está suficientemente organizado para absorver os financiamentos que são programados. Com esses ingredientes, resta saber se Pequim vai passar uma borracha por cima do que aconteceu há 20 anos, e que tipo de pragmatismo irá aplicar no seu relacionamento com este governo.

De notar, que não houve vozes, particularmente no seio da classe política que protestaram contra a decisão do governo, como aconteceu em 1997 quando o presidente Miguel Trovoada decidiu unilateralmente estabelecer relações diplomáticas com Taipei. Aquele movimento de contestação de um segmento da classe política facilitou, em certa medida, um olhar diferente de Pequim em relação a São Tomé.

Não fecharam todas as portas. As empresas de construção, por exemplo, ficaram no país. Sempre convidavam o arquipélago a participar no Fórum com os países da CPLP, na qualidade de observador e nos festivais culturais em Macau. A visita privada de Pinto da Costa a Xangai aumentou o fluxo de empresários chineses interessados em investir no país.

Patrice Trovoada antes de sair para Ruanda em visita privada deu a entender que vai, por exemplo, negociar com os chineses o investimento nos projetos estruturantes, como o porto de águas profundas e a melhoria do aeroporto. Pequim já se comprometeu em continuar a intervir nos domínios em que Taiwan deixam um vazio, nomeadamente, a saúde e a educação.

 

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