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Ferhat Ait Ali perspetiva futuro da economia mundial rumo ao ‘fim da era petróleo’

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Por ocasião da reunião da OPEP, em setembro último, Ferhat Ait Ali, reconhecido analista financeiro argelino, conversou, em exclusivo, com a e-Global sobre os contornos desta reunião e perspectivou o futuro da economia global rumo ao fim da ‘era petróleo’.

E-Global: O que pensa do alegado consenso alcançado na reunião informal dos países membros da OPEP em Argel e que, segundo algumas vozes, foi mérito da diplomacia económica argelina?

Ait Ali: Eu ouvi a declaração do Secretário-Geral da OPEP do começo ao fim e não me apercebi de qualquer forma de consenso formal sobre um congelamento efectivo de produção da OPEP antes da reunião de novembro. Foi discutido um compromisso para congelar entre 32,5 e 33 milhões de barris a partir de novembro, mas ainda falta definir as quotas de cada Estado-membro, exceptuando o Irão, a Líbia e a Nigéria, por se tratarem de situações particulares. A equipa técnica que irá fazer este estudo ainda nem está constituída.

Esta declaração, cheia de condicionalismos difíceis de alcançar e isenções, que identifica uma produção excedentária na ordem dos 1,6 milhões de barris por dia, é irrealista e não constitui, na realidade, senão matéria para uma declaração de conveniência do país anfitrião que se empenhou muito para garantir o sucesso formal da sua iniciativa. Esta declaração só foi possível porque adia a aplicação imediata dos compromissos que na verdade muito dificilmente chegarão a ter uma expressão concreta.

Qual é o verdadeiro papel desempenhado pela Argélia durante esta reunião?

Como país anfitrião, a parte argelina centrou-se mais no segundo do que no primeiro dia do fórum, com o objetivo de alcançar uma declaração positiva tendo em vista um possível acordo, ainda que não para ser aplicado no imediato, envolvendo todos, o que é uma tarefa realmente impossível no atual contexto do mercado petrolífero que já não é controlado pela OPEP.

Atendendo ao volume da produção, a Argélia tem alguma influência no seio deste cartel?

É importante saber que o cartel de há algum tempo a esta parte já não funciona como tal, uma vez que os seus membros são antagónicos em muitos aspectos e que o interesse comum no petróleo não é suficiente para conciliar. Alguns estão até mesmo a meio de uma guerra devastadora entre si.

A Argélia tem meios de negociação muito reduzidos no âmbito do cartel, não apenas devido à pouca expressão da produção e das reservas provadas, mas também devido a uma década perdida em termos de política económica e de afirmação estratégica no exterior, muitas vezes em coligação com aliados pouco confiáveis ​​e interesses pouco convergentes com os nossos.

Além disso é evidente que o próprio cartel é atravessado por vários interesses concorrentes e não muito estável, tornando-se uma caixa aberta a todos os ventos.

Podemos ter uma diplomacia económica se internamente não temos uma verdadeira e clara visão económica?

Diplomacia económica sem uma economia eficiente ou mesmo um programa económico claro e sem parceiros económicos confiáveis ​​e duráveis  é uma descoberta recente do governo. A nossa diplomacia carece de uma política económica coerente e de uma política externa transparente orientadas por interesses nacionais bem definidos. Não é isto que acontece atualmente porque a diplomacia está nas mãos dos burocratas da carreira diplomática e a política económica é definida nos círculos da liderança política.

A diplomacia económica é um instrumento para uma forte afirmação económica que exige perfeita articulação entre as potencialidades internas e os interesses externos, defendida por organismos eficazes internamente e com uma diplomacia eficiente no exterior.

Quando ouço a Volkswagen anunciar que para 2020 irá produzir 1 milhão de veículos elétricos, enquanto a sua produção atual é de 5,6 milhões de veículos de combustão, isso simplesmente significa que o conceito de mobilidade elétrica passou da fase técnica para a fase comercial, e os anos da mobilidade à base de combustíveis fósseis estão contados.

Se os outros ocidentais e os asiáticos se intrometerem, na mesma proporção, em 2020 dos cerca de de 210 milhões de carros produzidos nessa data, 40 milhões serão elétricos e em 2025 representarão já metade da totalidade dos automóveis produzidos.

O futuro anuncia-se sombrio para os produtores de combustíveis fósseis e, sobretudo, para aquelas economias dependentes da venda destes produtos.

Determinados países produtores de petróleo, provavelmente, não vão chegar ao fim da era do petróleo com a sua configuração atual, tornado-se, a meio do caminho, entidades virtuais, sem um futuro claro à sua frente.

O mundo está a mudar diante de nossos olhos e em clara desvantagem para os países produtores de petróleo. É altura de projetar um novo futuro para os nossos interesses em vez de no apegarmos a um passado que não é mais do que uma jangada que se está a desintegrar diante de nossos olhos. Por força da influência de personagens elas mesmas já ultrapassadas pelos tempos, não vislumbramos ainda a imensa tarefa que temos pela frente.

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