Luis Enrique Gil

O “Gatopardismo” Venezuelano

Venezuela

“Si queremos que todo siga como está, es necesario que todo cambie”. “¿Y ahora qué sucederá? ¡Bah! Tratativas pespunteadas de tiroteos inocuos, y, después, todo será igual pese a que todo habrá cambiado”. “…una de esas batallas que se libran para que todo siga como está”. Giuseppe Tomasi di Lampedusa

  

A Venezuela está hoje num beco sem saída, numa dinâmica onde os factos são avassaladores mas em que tudo continua igual. O país segue o seu curso e enfrenta desafios, que mais parece uma novela italiana de Lampedusa.

A situação difícil que afecta os venezuelanos não é respondida, não obstante representar o principal foco de preocupação dos cidadãos, especificamente no que diz respeito ao abastecimento e acesso a bens e serviços básicos para a vida quotidiana.

O custo de vida é uma das principais queixas, reflexo de um inflação que em Janeiro de 2016 o FMI antecipou que seria de 700% e que segundo alguns peritos atingiu 784%. Para 2017, a mesma Organização estima que poderá chegar a uns impactantes 2200%.

Como se explica, então, que o debate político nacional não esteja centrado na procura de soluções para este problema urgente?

Esta é uma questão que poderia ter uma resposta na própria hostilidade e no facto de se ter levado esta questão a um tal extremo que gerou uma divisão acentuada na população, produzindo as suas próprias audiências e “mercados” eleitorais, próprios de uma situação de conflito.

São audiências extremas, minorias que ante o grande lamento nacional perdem cor, mas que são suficientemente ativas na rua e nas redes sociais, de tal maneira que conseguem influenciar ou provocar decisões políticas junto dos líderes, que tentam procurar uma aproximação entre as Forças encontradas e que bloqueiam a possibilidade da existência de espaços comuns para qualquer tipo de acordo político.

A este fenómeno chamamos, em linguagem venezuelana, Polarização. Trata-se de uma situação em que cada parte de um conflito se dirige ao seu próprio público, com a finalidade de manter os seus seguidores, os que podem garantir o seu posicionamento em um possível futuro e incerto cenário eleitoral ou a preservação da “massa crítica” que os ajude a sustentar as ações de rua, em que se debate o dia-a-dia da dinâmica política venezuelana.

Surpreendentemente, esta situação esquizofrénica tem vindo a ser favorável para ambos os campos políticos, já que conseguiram estabelecer um “status quo” composto pelo PSUV (partido do Governo) e a MUD (Coligação da oposição). Um cenário intrincado que purga do sistema qualquer factor de dissidência, uma vez que na filosofia da guerra, os moderados são factores de fragilidade.

Com este cenário, podemos entender o porquê das ações dos setores políticos emperrarem em uma espécie de ciclo vicioso em que a estratégia, os discursos e os “cenários” das situações de conflito são as ferramentas fundamentais para tratar de ganhar a “guerra comunicacional”, em vez de se declarar guerra à inflação, à escassez ou à paralisação económica. É algo de terrível para a sociedade, na medida em que parece que cada grupo procura, por si só, sacar benefícios desta crise; um grupo responsabilizando o Governo por ser ineficiente e o outro responsabilizando os seus adversários internos e externos de promover e alimentar uma “guerra económica” contra o país.

Como resultado debatemo-nos com uma situação desesperante que empobrece e vai contra a saúde física e mental dos venezuelanos.

Finalmente, na Venezuela deixou de existir política como mecanismo regulador de conflitos de interesses. Parece já não haver espaço para o debate e a criação de soluções.

Impera um Estado de Guerra, assimétrica, por sinal, uma vez que o Poder armado está unicamente do lado do governo Nacional.

Os cenários não permitem a coexistência.

Recentemente, o analista e perito em Investigação Situacional, Oscar Schémel, publicou as conclusões de um relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington, no qual se contemplavam cinco cenários que tratam de antever o desenvolvimento de acontecimentos futuros, que se podem depreender da situação de conflito externo e interno de que padece a Venezuela, chamando a atenção de que em nenhuma destas projeções se prevê uma saída que considere a coexistência entre Opositores e “Oficialistas”.

Vejamos as situações que nos oferece o relatório mencionado:

Aterragem suave. Não seria o resultado de uma negociação Governo-Oposição, mas consistiria em um abandono do Poder sem resistência por parte dos que o detêm neste momento. Isto seria o resultado tanto de ações externas como de ações realizadas no país por forças da Oposição, juntamente com as dissidências dentro do próprio Governo. Posteriormente, poderia ser-lhes oferecida alguma proteção aos atuais membros do Governo que geraram a situação atual.

Modelo Cuba. O Governo estaria em capacidade de manter o controlo dentro do Oficialismo e da situação social evitando assim a perda do Poder.

Os militares tomam o Poder. Os militares abandonariam a sua lealdade ao Governo e derruba-lo-iam através de um Golpe de Estado, que poderia conduzir a uma etapa de transição até à celebração de eleições. O novo Presidente empreenderia uma reforma institucional sob uma supervisão internacional.

Guerra civil. Uma espécie de Guerra Civil que se traduziria em distúrbios e numa confrontação de rua permanente, no meio de dificuldades económicas severas e de um grande mal-estar social, que pode levar a novas formas de luta e à organização de acções armadas por parte de setores da Oposição.

Wild card. Considerada a “menos provável”, a de uma invasão, na qual os EUA, de acordo com este relatório, invocariam o Tratado do Rio e teriam de utilizar argumentos como o narcotráfico, presença de grupos extremistas, ataque a um navio norte-americano ou o perigo da presença da Rússia, da China ou do Irão no Continente.

As minhas conclusões. El “Gatopardismo”

Como na novela de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, “El Gatopardo” (“O Leopardo”, em Português) que narra a vida de Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, e da sua família, entre 1860 e 1910, na Sicília, depois de uma narrativa extraordinária, o personagem Tancredi declara ao seu tio Fabrizio a conhecida frase: “Se queremos que tudo fique igual, precisamos que tudo mude” (“Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi“). Esta frase simboliza a capacidade dos Sicilianos para adaptar-se ao longo da história aos vários governantes da ilha, mas também a intenção da aristocracia de aceitar a revolução unificadora para poder manter a sua influência e Poder. Em política “mudar tudo para que tudo fique igual”, pressupõe o paradoxo de processos complexos, recheados de eventos extraordinários, mas que no final conservam as estruturas do Poder político e económico intactas.

Em algumas ocasiões, a Venezuela faz-me lembrar em muito esta novela.

Luis Enrique Gil Graterol

Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo