Opinião | Rodrigo Nunes

O labirinto de José Mário Vaz

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Durante os encontros mantidos nas últimas semanas em Bissau para encontrar uma solução para a grave crise política que afecta a Guiné há dois anos, José Mário Vaz lançou uma mensagem preocupante aos seus parceiros internacionais: “Preciso de ajuda!”.

O pedido desesperado de ajuda traduz bem o labirinto em que José Mário Vaz se colocou com a crise política na Guiné-Bissau.

Em Agosto de 2015, José Mário Vaz demitiu o então Governo do PAIGC, liderado por Domingos Simões Pereira, recém-chegado de uma Mesa Redonda onde obteve da Comunidade Internacional financiamentos recorde para o desenvolvimento no país. O Presidente da República alegou actos de corrupção e nepotismo – que até hoje nenhum tribunal comprovou, nem sequer foram identificados pela Comissão Parlamentar criada para averiguar essas mesmas denúncias.

Hoje, dois anos depois, a Guiné-Bissau vive uma situação de paralisia.

A Assembleia Nacional está bloqueada porque o partido mais votado nas eleições, o PAIGC, controla a Comissão Permanente, que por sua vez, controla o agendamento das sessões plenárias.

Fruto deste bloqueio, o Executivo do inexperiente e supostamente “general” Umaro Sissoko não viu o seu programa de governo legitimado e está, de facto e de acordo com a Constituição guineense, em situação inconstitucional.

O PAIGC, que reclama da actuação “parcial” do Presidente da República, vive uma crise de liderança com a direcção de Domingos Simões Pereira a ser atacada diariamente por Braima Camará, opositor derrotado no Congresso de Cachéu e líder do Grupo dos 15, o denominado conjunto de deputados que romperam com a bancada do partido e se constituíram como um bloco único de influência junto do Presidente José Mário Vaz. Por isso mesmo, todos os 15 foram expulsos do PAIGC pela actual direcção

Por último, o PRS, partido que seria o líder da oposição mas que em face da crise actual está a aproveitar-se – e bem! – para viabilizar as sucessivas tentativas de Governo, e com isso, amealhar ministério a ministério, seguindo uma clara estratégia de reforço financeiro a preparar as inevitáveis eleições legislativas.

A estratégia política do Presidente é hoje clara. Depois de não ter sido o candidato presidencial apoiado por Domingos Simões Pereira nas primárias do PAIGC, José Mário Vaz privilegiou um grupo de elementos do partido (o Grupo dos 15) que lhe garantia a pés juntos que afastado esse mesmo Domingos Simões Pereira do Governo, eles próprios não teriam dificuldades em fazer cair a direcção e tomar o partido. Ao fim de dois anos não só não o conseguiram como acabaram expulsos do partido e inviabilizados de participar no próximo Congresso.

José Mário Vaz, ao apoiar-se no PRS para fazer avançar a sua estratégia, dando posse a sucessivos governos apoiados numa suposta “Nova Maioria” de Grupo dos 15/PRS, acabou por permitir a este partido capitalizar financeiramente e estar hoje melhor preparado para as próximas eleições do que qualquer outro partido. Ou seja, José Mário Vaz, um histórico do PAIGC, acabou por colocar o PRS como favorito às próximas eleições, voluntária, ou involuntariamente.

Neste cenário surgem as reuniões das últimas semanas com os actores políticos guineenses e parceiros internacionais. Perante a falência do projecto do Grupo dos 15, José Mário Vaz pretende agora recuperar o defunto Acordo de Conacri, que previa a nomeação de Augusto Olivais, nome próximo da direcção do PAIGC, para liderar um Governo de Consenso com funções de reforma legislativa e preparação das eleições.

A posição do Presidente é óbvia. José Mário Vaz quer o segundo mandato, e nas actuais circunstâncias, só o apoio da direcção do PAIGC lhe poderá dar as garantias de que veja renovado o seu mandato. Mas uma aproximação desesperada ao PAIGC – cujo apoio ao projecto eleitoral de José Mário Vaz é muito duvidoso – levaria a que os seus aliados de campanha – Grupo dos 15 e PRS – não só lhe virassem as costas como lhe lançassem ferozes ataques.

Mas se não se apoiar na direcção do PAIGC, José Mário Vaz sabe que terá como adversários um candidato presidencial próprio do PRS, um candidato presidencial do PAIGC e ainda Nuno Na Biam, o líder balanta –etnia maioritária nas Forças Armadas – que há muito se apresentou como alternativa à actual presidência. E José Mário Vaz sabe que vencer as Presidenciais não é tão simples como organizar uma Presidência Aberta pelas tabancas do interior.

É este o labirinto em que José Mário Vaz, o ainda presidente da Guiné-Bissau, se colocou. E é neste labirinto – em Bissau, e não em Calequisse – que a José Mário Vaz se pede uma decisão e a não mais esperar que os problemas do país se resolvam por si próprios.

Neste labirinto, uma palavra de respeito para as Forças Armadas. Perante a irresponsabilidade dos políticos guineenses, indiferentes ao sofrimento da população com o arrastar de uma crise de egos pessoais ao longo de dois anos, são as Forças Armadas que ocupam, de facto, o lugar de Garantia da Constituição da República guineense.

Rodrigo Nunes, politólogo angolano

1 Comentário

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  1. Armando Quadé

    10/08/2017 at 20:03

    AMIGO RODRIGO NUNES,

    NA GUINÉ AS JOGADAS/OS CÉNARIOS SÃO VÁRIOS, CONSIDERANDO AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS EM 2018 E PRESIDENCIAIS EM 2019. MAS TUDO PONTA PARA AS ELEIÇÕES GERAIS (LEGISLATIVAS E PRESIDENCIAIS) NO ANO 2019. PARA JOSÉ MÁRIO VAZ, ESSA ESTRATÉGIA VISA NÃO SÓ GANHAR TEMPO E ARRECADAR MAIS FUNDOS, TAMBÉM SERVE POR PÔR TODOS OS OVOS EM UMA ÚNICA CESTA. “CESTA” ESSA QUE É O JOSÉ MÁRIO VAZ NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS. O ESSÊNCIAL PARA JOSÉ MÁRIO VAZ MAIS O GRUPO DOS DEPUTADOS EXPULSOS E SANCIONADOS POR PAIGC É FAZER MÁRIO VAZ GANHAR AS PRESIDENCIAIS. DALÍ NÃO IMPORTA MUITO QUEM GANHAR AS LEGISLATIVAS. NO FUTURO, SE OS MILITARES OU A TERCEIRA FORÇA NÃO TOMASSEM CONTA DA SITUAÇÃO, ESTARIAMOS DE NOVO NUMA CRISE IGUAL A PRESENTE! TEMOS QUE LEVAR EM CONTA DE QUE A UNICA FORMA DE LEVAR UMA VIDA CONDIGNA PARA A ESMAGADORA MAIORIA DOS GUINEENSES É ESTAR NO GOVERNO, DE PREFERENCIA NUM LUGAR DE RELEVO. SENDO ASSIM, A POLÍTICA NA GUINÉ-BISSAU NÃO PASSA DE UMA MERA GUERRA POR SOBREVIVER! UMA SOLUÇÃO ATÉ PODE RECAIR SOBRE O JOSÉ MÁRIO VAZ. MAS ISSO REQUERE CORAGEM, INTROSPECÇÃO E UMA COMPLETA REVIRAVOLTA NO COMPORTAMENTO DO PR. UMA OUTRA SOLUÇÃO PLAUSÍVEL É SE CONSEGUIRMOS FAZER GANHAR UM NOVO PRESIDENTE NAS PRÓXIMAS PRESIDENCIAIS, OPTANDO POR UMA PESSOA DES-COM-PLE-XA-DA, IDÔNEA E INTEGRA/HONESTA.

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