Chico Buarque já recebeu o Prémio Camões

O cantor e compositor brasileiro, Chico Buarque de Hollanda, recebeu na passada segunda-feira, dia 24 de abril, em Lisboa, o diploma do Prémio Camões, das mãos do presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, que esteve em viagem oficial a Portugal. Durante a cerimónia, Lula destacou a importância da obra do artista para “contar com poesia as relações entre Brasil e Portugal e usar a língua portuguesa como instrumento de disseminação da cultura e das lutas do Brasil”.

“Chico transformou em património literário comum os amores de nossos povos, as alegrias dos nossos carnavais, as belezas dos nossos fados e sambas, as lutas obstinadas das nossas cidadãs e cidadãos pela conquista da liberdade e da democracia”, frisou o chefe de Estado brasileiro.

Ao lado do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza e do primeiro-ministro de Portugal, António Costa, além de outras autoridades e do homenageado, Lula confessou-se “feliz em corrigir um dos absurdos cometidos contra a cultura brasileira, que foi o facto de Chico Buarque ter sido contemplado com o prémio há quatro anos, mas não o ter recebido por descaso da gestão anterior com a cultura e os artistas nacionais”.

Segundo Lula, “o ataque à cultura, em todas as suas formas, foi uma dimensão do projeto que a extrema direita tentou implementar no Brasil”.

“Se hoje estamos aqui para fazer este gesto de reparação e celebração da obra do Chico, é porque a democracia venceu no Brasil”, defendeu Lula, que lembrou ainda que “o obscurantismo e a negação das artes também foram marca do totalitarismo e das ditaduras que censuraram o próprio Chico Buarque no Brasil e em Portugal”.

“Este prémio é uma resposta do talento contra a censura, do engenho contra a força bruta”, destacou.

Por seu turno, o presidente de Portugal referiu-se ao artista como “parte integrante do património comum dos países de língua portuguesa e disse que a escolha de premiar Chico não precisaria ser fundamentada por nenhuma decisão, já que ela se impõe pelas evidências, acima de tudo poéticas, da obra do artista”.

“Chico esperou quatro anos para receber e nós esperamos quatro anos, como admiradores esperam os que admiram, como amigos esperam uns pelos outros”, comentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Emocionado, Chico Buarque disse que “valeu a pena esperar quatro anos para receber o diploma referente ao Camões, no dia em que Portugal celebra o fim da ditadura”. Segundo este artista, “os quatro anos pareceram uma eternidade com o Brasil gerido por um governo funesto em que o tempo parecia andar para trás”.

“Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça fascista persiste no Brasil como um pouco por toda a parte. Hoje, porém, nesta tarde de celebração reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu prémio Camões, deixando o seu espaço em branco para a assinatura do nosso presidente Lula”, mencionou o compositor, que afirmou receber o Prémio Camões “menos como uma honraria pessoal, mas como um desagravo a tantos os autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nos últimos anos de estupidez e obscurantismo”.

A importância desta distinção

Instituído por Portugal e pelo Brasil em 1988, o Prémio Camões é considerado o galardão de maior prestígio da língua portuguesa. De caráter anual, presta homenagem a um escritor que, pela sua obra, contribua para o enriquecimento e projeção do património literário e cultural de língua portuguesa.

O Ministério da Cultura de Portugal, através da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e do Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais (GEPAC), organiza pela parte portuguesa a atribuição deste Prémio, que tem o valor pecuniário de 100 mil euros, cerca de 500 mil reais, assumido em partes iguais pelos Governos de Portugal e do Brasil.

Chico Buarque foi o vencedor da 31ª edição do Prémio Camões, na sequência de decisão unânime do júri constituído por Manuel Frias Martins e Clara Rowland (Portugal), António Cícero e António Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola) e Nataniel Ngomane (Moçambique).

Reunido no Rio de Janeiro a 21 de maio de 2019, o júri fundamentou a sua escolha realçando a “qualidade e transversalidade” da obra de Chico Buarque, “tanto através de géneros e formas, quanto pela sua contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa”.

A atribuição do Prémio Camões ao músico e escritor brasileiro reconhece, segundo os membros do júri, “o valor e o alcance de uma obra multifacetada, repartida entre poesia, drama e romance”, um trabalho que “atravessou fronteiras e se mantém como uma referência fundamental da cultura no mundo contemporâneo”.

Nos termos do Regulamento, Portugal e o Brasil organizam de forma alternada as reuniões e as cerimónias de entrega deste galardão.

Ígor Lopes

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