A natureza não tem hora marcada. No pontão da Doca de Santo Amaro, em Lisboa, desde as 9 da manhã, Catarina Magalhães e Rita Silva, 17 anos, não resistiram ao cansaço e acabaram por sentar-se na calçada. “A Greta dá voz a todos os jovens, está diariamente a testar-nos para os desafios do futuro”, argumenta Catarina, a jovem estudante de Design de moda, que planeia tornar a indústria da moda “mais sustentável” e arranjar “mais espaço para “ideias inovadoras”.
Por ali desde as 08.00, André Leal e Danilo Moreira, jovens ativistas, não dão mostras de cansaço e aguardam com serenidade a chegada da jovem sueca. “A vinda de Greta a Lisboa significa mobilização, esperança e pressão política que também é importante”, acrescenta André Leal. Já para Danilo Moreira, “é urgente que se tomem ações coletivas para enfrentar as alterações climáticas, daí a importância do ativismo”.
Um grupo de jovens joga às cartas, várias pessoas dançam, improvisam-se canções e palavras de ordem, reescrevem-se cartazes, recolhem-se assinaturas para Salvar a Amazónia e olha-se para o horizonte a fim de descortinar o veleiro de Greta. Ao mesmo tempo, espreita-se com alguma ansiedade o relógio ou o telemóvel. São cerca de duas centenas de pessoas, aquelas que aguardam no Pontão de Santo Amaro, desde as primeiras horas da manhã, a chegada da jovem ativista sueca, Greta Thunberg, que tinha chegada prevista entre 08.00 e 09.00 da manhã, mas devido às condições climatéricas adversas, a espera prolonga-se pela manhã e princípio da tarde.
Teresa Machado compõe com afinco as tiras de pano que voam puxadas pelo vento forte. São palavras de alerta que chamam a atenção para a problemática da Quinta Braamcamp, localizada no Barreiro, que foi classificado como Sítio de Interesse Municipal, mas que os cidadãos temem que possa vir a ser explorada pelos interesses imobiliários da zona. “A proposta da Câmara do Barreiro permite a construção de prédios na primeira linha em frente ao rio, perante isso, a sociedade civil do Barreiro mobilizou-se e fundou a plataforma cidadã Braamcamp no sentido de proibir a venda da quinta e pelo direito à paisagem e à proteção de uma área verde importantíssima”. No entender de Teresa, “o grande papel da Greta é de o de alertar consciências e essencialmente os governos, fazendo com que os politicos se apercebam que temos efetivamente de tomar ações. É um ponto de conexão para todos, goste-se ou não…”
Foram também vários os partidos com assento no parlamentar que se mobilizaram para o Porto de Alcântara, como o Bloco de esquerda, o PAN e Joacine Katar Moreira, deputada do Livre, que salienta que“está na altura deste reconhecimento mediático vir acompanhado de um investimento mais ativo por parte dos executivos nas medidas de proteção ao ambiente”.
As horas vão passando, alguns jovens cansados de esperar vão desmobilizando, outros procuram os restaurantes mais próximos para uma refeição ligeira “de certeza que a sopa não tem carne”, pergunta uma cidadã sueca com a bandeira debaixo do braço, “tem mesmo a certeza?”, volta a perguntar.
Cerca das 12.45, quatro horas depois da hora prevista, o catamarã de 15 metros “Le Vagabonde”, do casal australiano, Riley Witelum e Elayna Carausu, que navega à volta do Mundo com a filha, Lenny, de um ano, acompanhado da velejadora profissional inglesa Nikki Henderson e a ativista do ambiente, Greta Thunberg, chega finalmente a Lisboa.
Perante os gritos de euforia e incentivo de uma audiência crescente e debaixo do foco de dezenas de câmaras de vários pontos do mundo, Greta, de 16 anos, não se deixa intimidar, agradecendo em primeiro lugar a todos aqueles que a receberam e à tripulação que a acompanhou e que tornou realizável aquela jornada ao longo das últimas duas semanas. “Sabe bem estar de volta à Europa depois de uma viagem tão desgastante, mas eu e os outros ativistas ambientais não vamos parar, até conseguirmos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance para que os governos dêem prioridade às preocupações ambientais e para que dentro daquelas paredes (na Cimeira COP25) as vozes das pessoas sejam ouvidas, as vozes das futuras gerações sejam ouvidas e especialmente para que as vozes do Hemisfério Sul sejam ouvidas por todos”.
Greta escusou-se ainda a comentar as declarações do Presidente da República português Marcelo Rebelo de Sousa, afirmando que “não está a fazer qualquer aproveitamento politico desta situação, garantindo “que está do lado certo da história”. A jovem sueca deverá partir de comboio para Madrid na próxima sexta-feira a fim de participar na COP25, a cimeira do clima que irá juntar representantes e delegações de cerca de 200 países, pondo fim a uma viagem de cerca de duas semanas, desde que saiu do porto de Salt Ponds, em Hampton, no Estado norte-americano da Virgínia, a 12 de Novembro deste ano, numa viagem mítica, quase sem impactos negativos para o ambiente.