Ciência | Entrevista

“Morcegos estão a ser mortos por medo!”, referem investigadores

Há vários grupos de investigadores que estão a monitorizar populações de morcegos que dão conta disso mesmo: as pessoas estão a matar grandes quantidades de morcegos por medo e desconhecimento.

Roberto Leonan Morim Novaes é biólogo, mestre e doutorado em Biodiversidade e Biologia Evolutiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e desde 2004 trabalha de perto com populações de morcegos sul-americanos. A sua paixão por este pequeno mamífero, que desde o início do ano se encontra no olho do furacão pela estreita relação que se definiu entre o este e o novo Coronavirus, leva-o a alertar as populações para o risco que se corre em perseguir este animal que é também ele uma vítima dos acontecimentos. Um estudo mais profundo e alguma sensatez tanto da comunidade científica como dos Media em geral, podem alterar decisivamente o percurso dos acontecimentos. Pois actualmente há populações de morcegos que estão a ser dizimadas sem que nada se esteja a fazer .

 

 

por Ana Gonçalves

 

A polémica à volta do morcego vai-se adensando cada vez mais. Este novo coronavírus veio mesmo do morcego?

Atualmente, existem mais de 1500 espécies de morcegos no mundo e sabemos também que existe circulação de alguns grupos virais, entre eles os coronavírus, que podem ser potencialmente perigosos para os seres-humanos e até causar doenças. Sobre este vírus em específico -o SARS-Cov- 2- que é o vírus responsável pela Covid-19, nunca foi encontrado em morcegos ou em qualquer outro animal. Até ao momento, este vírus só foi encontrado em seres-humanos, o que se encontrou foi outro vírus, que tem similaridade genética, ou seja 96% do seu ADN é compatível com o SARS e, esse sim, foi encontrado tanto em morcegos como pangolins. Então, suspeita-se que a origem evolutiva deste novo SARS-Cov-2 que circula em humanos possa ter tido origem neste vírus. Mas isso são especulações! Até agora, a certeza que temos é que este vírus é exclusivo do ser-humano.

 

Está completamente fora de parte a ideia de que este vírus possa ter origem laboratorial? 

Essa hipótese já foi levantada e estudada. Um estudo publicado por cientistas norte americanos mostrou que este vírus tem origem natural e não foi criado em laboratório. As sequências do RNA viral destes vírus são muito semelhantes a outros vírus que existem na natureza e todos estes processos de mutação foram gerados através de seleção natural.

 

Daqui para a frente este vai ser o “novo normal”, termos que nos adaptar a estes novos surtos virais?

A humanidade já convive com surtos virais desde a sua origem evolutiva. Nos tempos mais recentes houve a varíola, o sarampo, a gripe espanhola, outras gripes, inclusive, como a H1N1 e, em geral, a nossa trajectória evolutiva vai no sentido de ganharmos resistência imunológica, vai havendo uma seleção natural das pessoas. Infelizmente, aquelas que não têm defesas naturais, eventualmente, perecem e aquelas que têm defesas sobrevivem e, por conta disso, vai havendo uma seleção natural. Contudo, no mundo actual não são só as nossas próprias defesas que nos protegem, nós criamo-las artificialmente a partir do desenvolvimento de medicamentos de controle e suporte, vacinas, através de melhores instalações hospitalares. Vamos estando cada vez mais aptos a sobreviver a este tipo de situações. Este surto actual não surpreendeu assim tanto a comunidade científica. Desde 2005, 2007, já havia estudos publicados que mostravam que um surto de um vírus respiratório, muito possivelmente um coronavírus, poderia acontecer em proporções globais. Só que, infelizmente, a humanidade ignorou os avisos da ciência e não se preparou melhor… mas os seres-humanos vão adaptar-se e daqui a alguns anos vai criar-se uma nova normalidade. Mas, claro, quanto maior é a população, quanto maior é a nossa proximidade com ambientes naturais, mais sujeitos ficaremos a estes surtos.

 

Como cientista, biólogo, o que o levou a interessar-se assim tanto por este pequeno mamífero, o morcego?

Essa é uma pergunta que eu faço até hoje! Não é algo para o qual tenha uma explicação racional,  acho que todos nascemos cientistas, porque a curiosidade é inata em todas as crianças e eu não fui diferente. Por outro lado, a minha família também sempre me estimulou a isso, a explorar, a descobrir…  em algum momento da minha juventude, um pouco antes de entrar na faculdade, comecei a interessar-me mais pelo morcego, um animal tão mitificado e misterioso. E em 2004, quando comecei de facto a trabalhar com morcegos, apaixonei-me completamente.

 

E até agora o que é que descobriu de mais fascinante no morcego ao longo destes anos de estudo?

Eu acho que devemos ter em conta três grandes caraterísticas, que me impressionam até hoje.  A primeira é a grande diversidade alimentar destes animais, que se alimentam de frutos, insectos, folhas, néctar, pólen e até do sangue de pequenos animais vertebrados. Depois, temos espécies que estão adaptadas a viver em qualquer tipo de ambientes, como desertos, zonas árticas ou sítios de elevada altitude e isso, por si só, já mostra que estes animais têm uma capacidade de adaptação incrível e isso foi o que mais me interessou, visto que eu trabalho na área de taxinomia e  procuro saber como estas espécies se adaptaram e chegaram ao número que temos hoje.  Esta grande variedade de hábitos alimentares é muito importante, porque eles dispersam sementes, polonizam flores, controlam populações de insectos, que de outra forma seriam pragas agrícolas e até focos de doenças. As pessoas não sabem nem imaginam a importância que estes animais têm no mundo. Sublinho mais uma vez que sem morcegos nós não teríamos acesso a muitos frutos, não teríamos uma indústria têxtil como a que temos hoje, porque boa parte das produções de algodão são controladas graças ao serviço dos morcegos insectívoros, que controlam as populações de insectos. Outro facto, que eu considero impressionante, é a longevidade deste animal que sendo tão pequeno, pode viver cerca de 30 anos, porque eles têm a capacidade de regenerar o seu ADN danificado e isso talvez explique porque é que eles conseguem ter tantos vírus dentro deles sem ficarem doentes. Então, estes estudos sobre a espécie, talvez sirvam para desenvolvermos formas de tratamento de doenças, terapias genéticas ou síndromes crónicas. O segredo pode estar no ADN destes animais.

 

Com a desinformação veiculada, teme que este animal possa estar em perigo devido a esta associação com o novo coronavírus?

Há vários grupos de investigadores que estão a monitorizar populações de morcegos que dão conta disso mesmo: as pessoas estão a matar grandes quantidades de morcegos por medo e desconhecimento. Eu recebo quase diariamente emails de pessoas que estão com receio e dúvidas, à procura de informações sobre o que fazer com os morcegos que estão nas suas propriedades. Mas antes disto tudo acontecer, da pandemia, já existia um movimento de perseguição contra os morcegos. Aqui no Brasil, por exemplo, há uma associação muito forte entre o morcego e a raiva, apesar de todos o mamíferos poderem transmitir esta doença. Então, as pessoas matam-nos porque dizem que eles transmitem muitas doenças ou em algumas culturas da América Latina, o morcego está associado a maus presságios, dão azar ou têm um simbolismo associado às trevas e, basicamente, a única forma que temos para reverter esta situação,  é através da educação.  Nós fazemos o que podemos para contrariar esse discurso, dando palestras nas universidades, escolas, em praças públicas, nas redes sociais,  para assim conseguirmos transmitir informação de qualidade e para que as pessoas não tenham mais estes medos infundados e parem de combater estes animais.

 

De uma vez por todas, por que é que o morcego deve ser protegido?

Eles não são culpados, de nada, são vítimas. O vírus chegou até nós, não por causa dos morcegos, mas porque nós invadimos as florestas onde estes animais vivem, caçamo-los e então ficamos mais expostos a estes microorganismos que residem nestes animais, não só nos morcegos, mas em todas as outras espécies. Se não houvesse morcegos, não teríamos metade dos alimentos que temos hoje em dia.  Num estudo feito nos Estados Unidos chegou-se à conclusão que uma única espécie de morcegos poupa cerca de seis milhões de dólares por ano que seriam gastos em pesticidas no controlo de pragas. Estes animais também contribuem para regularizar o clima do planeta devido à polonização e dispersão de sementes e tudo isso está em causa se não preservarmos estes animais.

 

Neste momento, como biólogo, cientista, também está na linha da frente na luta contra a Covid 19?

Essa não é a minha área de trabalho, eu trabalho diretamente com os morcegos e não com a parte humana, mas o que aconteceu aqui no Brasil é que o governo decidiu fazer um apelo público para que todos os profissionais da área de saúde, médicos, biólogos, enfermeiros, bioquímicos, nutricionistas, participassem nas formações que estão a ser conduzidas pelo Ministério da Saúde. Então, os vários profissionais estão a receber formação para atuarem em diferentes frentes, nos hospitais, no socorro a pacientes ou até mesmo para estarem junto das populações, no sentido de prestarem esclarecimentos sobre a doença, uma vez que as pessoas estão desesperadas por obterem informações viáveis.

 

E em que ponto é que o Brasil se encontra neste momento?

O Brasil ainda não alcançou o pico da transmissão e os números continuam a aumentar, apesar de ter havido uma desaceleração causada pelas medidas de isolamento social precoces que foram adotadas e baixaram as taxas de transmissão. Porém, essas medidas de isolamento sofreram um alívio em muitas cidades do país, por questões políticas. É que no Brasil para além de uma crise de saúde pública enfrenta-se uma crise política muito forte e por esse motivo algumas cidades decretaram o fim do isolamento social. Então, nesta última semana houve um aumento severo no número de casos e óbitos. As expectativas neste momento não são boas… depois, como o país é muito grande, algumas cidades do interior já decretaram colapso total do sistema de saúde, não têm mais camas disponíveis e já se fazem decisões sobre quem irá ser ou não atendido. Nos grandes centros a situação ainda não é assim, mas pode vir a ser no próximo mês.

 

Nesta época de confinamento tem havido sinais de um abrandamento da atividade económica e, consequentemente,  uma diminuição da poluição, teme agora que no regresso à normalidade estes índices sejam rapidamente ultrapassados?

Eu acho que isso vai depender de como é que a nossa sociedade se vai reconstruir no pós-pandemia.  Nós, de facto, estamos a ter um menor índice de libertação de dejectos advindos de combustíveis fósseis nos oceanos, uma menor circulação de pessoas, o que faz com que os animais tenham mais capacidade de ocupação de espaços, mas, em compensação, está a produzir-se muito mais lixo doméstico, porque as pessoas estão em casa e consomem mais produtos industrializados e por conta disso a produção de lixo aumenta, nos lugares com um suporte económico muito reduzido, a caça ilegal cresce a cada dia que passa, para as populações se conseguirem alimentar e no caso da Amazónia brasileira, como a fiscalização governamental foi aliviada, a posse ilegal de terras também cresceu, visto que agora as pessoas se sentem mais à vontade para invadirem e tomarem posse de territórios públicos. Então, se por um lado se assiste a uma recuperação ambiental do planeta, por outro, há vários setores onde o agravamento é crescente. O cenário final vai depender de como a sociedade se vai reconstruir, se utilizarmos este momento para repensar a nossa matriz de produção de energia, de relações comerciais e a forma como nos relacionamos com o planeta, se aproveitarmos este momento para entender como o consumismo nos afeta a todos, talvez, no futuro possa haver uma produção mais sustentável e um clima que sofra menos impactos. No entanto, se ao sairmos desta crise, a sociedade trabalhar no sentido de correr atrás do tempo perdido, atrás do prejuízo, índices alcançados vão agravar-se cada vez mais.

 

 

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