Cultura

À mesa com… Rem Na Schwarz “A população guineense tem um altifalante, está muito mais politizada”!

Rem Na Schwarz

Por alturas do Natal, o Chiado, em Lisboa, é um dos sítios a evitar, mas mesmo assim decidimos arriscar, cortámos caminho por entre a multidão, avançámos rumo ao Bairro Alto, descemos pela Bica e a pouco a pouco a multidão ficou para trás e conseguimos ouvir os nossos próprios passos na calçada. Finalmente, encontrámos a esplanada ideal num cenário de postal de boas-vindas. Rem Na, o artista guineense, senegalês, Cabo-verdiano, africano, está em Lisboa desde Maio de 2018. Depois de 10 anosa viverem Cabo Verde conta que não se dá bem com o frio de Lisboa e que tem saudades de Cabo Verde. Durante cerca de uma hora Rem Na abriu as páginas da sua carreira e abordou todos os assuntos sem quaisquer tabus, reconhecendo que apesar do mundo ter mudado, é importante “sermos atores do mundo, termos voz”!

Rem Na, o que é que tu guardas de todas as tuas viagens, de todos os sítios por onde passaste e especialmente, da Guiné-Bissau, do Senegal, de Cabo Verde?

Em África há semelhanças entre os vários países; É o cheiro, a humidade, o calor, o à vontade e a disponibilidade das pessoas, a música – tão rica, tão boa, tão diferente, cheia de ritmos melodias. Mas nós vamos à Guiné, a Cabo Verde e sentimos que estamos em dois países diferentes, claro. Mesmo aqui em Lisboa eu sei se a pessoa é senegalesa, cabo-verdiana, mesmo sem a pessoa falar. Eu vivi lá, eu tenho esse superpoder (risos)!

Qual é o livro que tens agora na mesinha de cabeceira?

Neste momento estou com vários livros dentro da minha mochila; A Biografia de Steve Jobs, pois eu tento sempre perceber como o ser humano consegue mudar tantas coisas no dia-a-dia das pessoas com a visão certa, o foco correto… Steve Jobs era um visionário, tal como o meu pai foi um visionário. São pessoas que antecipam o futuro, que sabem sempre o que irá acontecer. Estou a ler também 7 habits of highly effective people, porque a capacidade de nos disciplinarmos é muito importante, especialmente agora que vivemos numa sociedade em que rapidamente se perde o foco. E, finalmente, o primeiro livro da minha mãe, “Silêncio entre Duas Notas”, de Teresa Schwarz, estou muito orgulhoso dela, está muito bem escrito.

Vens de uma família de artistas! Ainda te lembras da primeira vez que subiste a palco? Como é que isto tudo começou?

Sim, lembro-me! Subi ao palco pela primeira vez em Nova Iorque para ser solista. Eu estava com um amigo meu, tinha 13 anos, e fui com ele a uma audição. O meu amigo cantou e o maestro que estava a fazer a audição pediu-me para cantar também. Ao princípio, disse-lhe que não, mas ele insistiu e eu lá cantei. Passado algum tempo saiu o resultado das audições e o meu nome estava lá. Então lá fui, subimos ao palco e eu levei uma canção de Simon and Garfunkel e fiz um solo que não tinha nada a ver com o que tínhamos preparado nos ensaios e com tanta adrenalina fiz um solo incrível! Eu não sei como aquilo tudo aconteceu, as pessoas estavam aos berros, a gritar, a rir… Cantei como nunca cantei na minha vida, estava possuído… Depois, mais tarde, quando fui para França comecei a tocar numa banda de Reggae, pois conseguia encontrar aquele equilíbrio entre as melodias e a reivindicação, que era o que fazia sentido para mim, era a minha forma de comunicação. Quis aprender tudo; comecei a tocar bateria, passei pelo baixo e apaixonei-me pela guitarra, ao mesmo tempo continuava a compor.

E em que momento é que deixas o Reggae para escolheres outro estilo muito mais tradicional?

Lembro-me perfeitamente de como tudo aconteceu. Eu mostrei a minha música ao líder da banda, ele tocou e eu cantei. E no outro dia, durante o ensaio, ele disse aos restantes elementos para apagarem as luzes e anunciou que íamos tocar a minha música. Um dos meus colegas estava com lágrimas nos olhos, foi um momento realmente mágico e nessa altura senti um clique… “Mano, está na hora!”

Hoje em dia sentes saudades de tocar com a banda?

Nunca aprendi tanto, não só em termos musicais como ao nível de relações humanas. Uma banda é uma família. As vitórias, derrotas, problemas pessoais. Era a minha primeira família fora da família. Nós tínhamos uma filosofia dentro da banda, não havia um concerto em que não tivéssemos pelo menos cinco, seis convidados.

Sentes que hoje em dia os tempos mudaram?

Hoje é tudo muito mais rápido, a indústria é muito complexa. A música gira toda à volta dos números, muitas vezes falta o sentido artístico. Podes ser o melhor cantor do mundo, mas se não está a ser visualizado na internet, nada feito, naquela altura não era assim.

Mas tens o livro de Steve Jobs na mochila… (Risos)

É verdade, ele acabou por deixar as coisas mais perversas. Mas ele criou um modelo de comunicação que não existia antes, uma ferramenta valiosa. Hoje eu posso a criar parcerias com pessoas que vivem no Canadá, Brasil ou Cabo Verde. Mesmo dentro desta massificação toda há pessoas que acreditam na qualidade e podemos surpreender as pessoas a uma escala muito maior, daí a parte boa. Temos que ter sempre é esta capacidade de nos renovar, de surpreender.

Imagina que tens outra epifania e decides mudar tudo outra vez, eras capaz de voltar a começar do zero?

Eu li uma frase Bob Dylan super interessante hoje; When you are not born again you die a little bit every day (“quando não nasces de novo, todos os dias morres”). Eu acho que para um artista é fundamental essa renovação constante.

Vamos fazer um brinde a essa frase! Então, preparado para esta nova fase em Lisboa?

Sim, Lisboa é agora. Eu sinto aqui o mesmo que se sentia há dez anos em Paris, tudo acontece aqui. Lisboa é perto de África, perto de Paris, Londres, Madrid. É um ponto fulcral nos PALOP, há novos talentos maravilhosos que estão a surgir nos PALOP. São ciclos, é importante estar nos sítios certos, nos momentos certos.

Daí Steve Jobs, novamente…

Sim, para além disso ele dava muita atenção aos pormenores. Eu também faço isso no meu trabalho. São muitas horas de concentração, de muito trabalho. Eu estou sempre a lembrar-me de uma fábula, do macaco e de Deus. O macaco era muito narcisista e muito belo, mas estava sempre a olhar para todos os pormenores, “eu não quero a sobrancelha assim, o bigode assim” e agora olha a cara que ele tem! Isto serve para dizer que nós temos que saber dizer STOP. Dentro do estúdio é sempre uma tortura, quando se começa a entrar nos pormenores, temos de tirar aquilo, aquilo. É difícil. É por isso que é importante deixar a decisão final para outra pessoa, que consegue ter esse distanciamento.

Gostas muito mais de dar concertos ao vivo?

Não tem comparação! Eu gosto de estar sempre na linha da Frente! Nós todos começámos assim. A altura de subir ao palco todos os fins de semana, criar, produzir, refazer nos ensaios, a adrenalina, não é a mesma coisa de mandar isto no YouTube ou redes sociais.

Como é que achas que o teu pai se sentiria hoje ao olhar para a tua carreira?

Eu acho que nós iríamos discutir muito, ele iria ser muito chato comigo! (risos)

Achas que também és um ativista?

À minha maneira, sou! Acho que uma pessoa que não tem nada para dizer é um pecado. Nós temos que ter um ponto de vista. Temos que saber o que está a acontecer a nível social, politico, económico. O meu último trabalho “Zona Zero” é o meu disco mais político de sempre, mas tem que ser assim. Há mais de 40 anos que andamos a tentar escolher um líder para a Guiné-Bissau, há o narcotráfico que está a gerir muitas decisões políticas, há um nível de corrupção altíssimo, isto é um drama para uma nação. A população guineense hoje em dia tem um altifalante, está muito mais politizada. Mas, às vezes, a população e os governantes não têm discursos coerentes e isso mata a política. O que está a acontecer agora é positivo, o povo sabe que as coisas têm de mudar, eu tenho a certeza que estas eleições vão ser históricas. Aquilo que nós estamos a passar agora é um mal necessário, um capítulo muito infeliz, que está prestes a ser ultrapassado. Há um empreendedorismo que nunca tinha visto antes, a população que está na diáspora é fantástica, a situação vai ser ultrapassada! O futuro é África!

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