Cultura

Casa do Minho do Rio de Janeiro comemora fundação do seu Rancho Folclórico mais antigo

(C) Casa do Minho

Com o intuito de celebrar os seus 65 anos de fundação, o premiado Rancho Folclórico Maria da Fonte da Casa do Minho do Rio de Janeiro esteve em Portugal, de 2 a 21 de agosto, onde participou em festivais, em eventos sociais e na tradicional Festa em Honra de Nossa Senhora da Agonia. A comitiva carioca foi recebida por autoridades portuguesas, amigos e parceiros institucionais e viu de perto o respeito do público e de membros de outros ranchos em relação ao trabalho desenvolvido em prol da cultura portuguesa no Brasil.

Em solo lusitano o Maria da Fonte somou oito atuações, passando pelo 60º Festival Internacional de Folclore da Meadela, Festival Internacional de Vila Nova de Famalicão (FAMAFOLK), Quinta de Santoinho, Quinta da Presa, Praça da República de Braga, Festival Internacional de Carreço e Festas em Honra de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, com direito a participação no tradicional desfile da Mordomia e ainda desfile pelas ruas da cidade.

 

Números expressivos

Para essa digressão a Portugal, o Rancho Maria da Fonte cruzou o Atlântico com 51 componentes, sendo 23 mulheres e 28 homens, incluindo dançarinos, membros da tocata e dirigentes.

Na bagagem, o grupo contou com 46 trajes femininos e 25 trajes masculinos, incluindo trajes de trabalho, domingueiros, de festa, de mordomas e de noivos. A tocata estava bem composta com oito concertinas, acordeão, quatro cavaquinhos, dois violões, bombo e ferrinhos.

No geral, foram percorridos quilómetros entre as apresentações, tudo com o apoio da empresa AVIC-Transportes. Nos tempos livres, o grupo visitou o Santuário de Nossa Senhora de Fátima e os principais pontos turísticos de Braga e de Viana do Castelo. A viagem ficou marcada também pela confraternização do Maria da Fonte com os integrantes do Rancho Folclórico das Lavradeiras da Meadela e com o Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio, de Braga.

Houve tempo ainda para um dia animado durante a Festa do Emigrante em Ardãos, no concelho de Boticas, na região de Trás-os-Montes, terra natal de Luís Pires da Silva Pezinho, amigo da diretoria e dos componentes do Maria da Fonte e vice-presidente do Grémio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro. Nessa oportunidade, o Rancho foi recebido também pelo presidente da Câmara Municipal de Boticas, Fernando Queiroga, e pelo presidente da Junta de Freguesia de Ardãos e Bobadela, António Dias do Couto.

 

Reconhecimento ao passado

Um dos momentos mais marcantes dessa passagem por Portugal foi uma homenagem que a Casa do Minho do Rio de Janeiro prestou ao casal Benjamin Pires e Fernanda Salgueiro, na Junta de Freguesia de Carreço, na região de Viana do Castelo. Esse casal foi responsável, nos finais dos anos 1950, por implementar melhorias significativas no jeito de trajar e de dançar do Maria da Fonte, sendo essa iniciativa considerada “um momento de viragem na história do grupo brasileiro”.

“O Benjamin e a Fernanda eram naturais de Carreço e, quando conheceram o Maria da Fonte, apontaram detalhes que deveriam melhorar. Eles disseram que os trajes deveriam ser fiéis aos de Portugal e as danças deveriam defender as tradições do Minho de uma forma exata. Isso fez a Casa do Minho repensar o seu trabalho no folclore e, em seguida, foram adquiridos trajes diretamente de Viana e as danças e coreografias começaram a obedecer fielmente ao que se fazia na região do Minho”, comentou Agostinho dos Santos, presidente da Casa do Minho do Rio.

A homenagem aconteceu no dia 11 de agosto com a realização de uma missa pela alma do casal na Paróquia de Santa Maria de Carreço, com a presença dos componentes do Rancho Maria da Fonte e do Rancho Regional das Lavradeiras de Carreço, do qual fazia parte o casal antes de ir tentar a vida no Brasil. Outros grupos folclóricos e etnográficos estiveram presentes na cerimónia.

Mais tarde, nas instalações da Junta de Freguesia de Carreço, o presidente local, João Amorim, descerrou, com a ajuda de Odir Ferreira, único fundador vivo do rancho carioca, uma placa alusiva à data, oferecida pela Casa do Minho do Rio.

“A Junta de Freguesia de Carreço e a Casa do Minho do Rio de Janeiro prestam homenagem à memória do casal desta terra, Benjamin Pires e Fernanda Salgueiro, que mostraram ao Brasil, através do Rancho Folclórico Maria da Fonte, as verdadeiras belezas e encantos do folclore minhoto. Benjamin e Fernanda desempenharam um trabalho fundamental no desenvolvimento e promoção do folclore nessa entidade portuguesa na cidade maravilhosa”, pode-se ler na placa comemorativa.

 

Juventude e experiência

Além de somar centenas de apresentações em várias cidades do Brasil, o Maria da Fonte mantém também uma agenda ativa de viagens internacionais como forma de valorizar as tradições portuguesas no mundo. O Rancho já esteve em Portugal em 1982, 1991, 1995 e 2014. Em 2019, o grupo completou o seu quinto deslocamento à Europa.

Para Carlos Alberto Correia da Silva, diretor artístico da Casa do Minho e ensaiador do Maria da Fonte, a experiência internacional do Rancho é algo que deve ser valorizado.

“Cada viagem que o Maria da Fonte fez a Portugal teve a sua importância dentro do contexto histórico do Rancho. E cada viagem fez com que pudéssemos sedimentar, cada vez mais, os laços de amizade e o aprendizado com os grupos folclóricos do Minho, além de adquirirmos o respeito das autoridades em virtude do trabalho de excelência que é feito na Casa do Minho com o intuito de representar, dignamente, o folclore do Minho no Brasil”, afirmou Carlos Alberto Silva, que referiu ainda que a experiência em Portugal em 2019 ficou marcada pela “verbalização do reconhecimento de que o Maria da Fonte, pela forma de se trajar e dançar, é um digno e legítimo grupo de Viana do Castelo fora de Portugal”.

Para esse responsável, “o momento atual do Rancho é bom, com uma mescla de componentes mais antigos, que já tiveram o prazer de estar na Europa em outras digressões, e de jovens que estiveram em Portugal pela primeira vez”.

“Tivemos esse cuidado ao escalar os componentes para virem a Portugal porque precisamos que os mais jovens vejam, aprendam, sintam essa energia para que, num futuro próximo, exerçam protagonismo dentro do Rancho, assim como os mais antigos conseguiram. Dessa forma, penso que podemos alongar a vida do Maria da Fonte com a excelência que nos acompanha há alguns anos”, ressalvou Carlos Alberto Silva.

Por sua vez, Luciano Andrade, também diretor artístico, mencionou o trabalho desenvolvido pelo grupo. “O Maria da Fonte não poderia estar em melhor fase. Comemorou o seu aniversário de 65 anos de Fundação em grande estilo, com uma digressão comemorativa a Portugal e com o lançamento do seu livro. O Rancho representa com empenho os trajes, o canto e as coreografias da região do Minho e, especificamente, de Viana do Castelo. Isso certifica o nosso trabalho, com os elogios de todos os que nos assistem ao vivo ou pelas redes sociais”, sublinhou Luciano Andrade, que recordou ainda o carinho e as grandes manifestações de respeito que o grupo recebeu das autoridades de Braga e de Viana do Castelo durante o lançamento do livro sobre o Rancho”.

“Confio que o nosso presidente Agostinho dos Santos vai continuar a estimular a juventude a manter as tradições portuguesas em terras brasileiras e espero que o Rancho possa viajar muitas outras vezes, inclusive para outros países, mostrando esse lindo trabalho feito ao longo dos seus 65 anos de existência”, finalizou Luciano Andrade.

De acordo com Odir Ferreira, que, além de ser o único fundador vivo do Rancho, é também o apresentador oficial do Maria da Fonte, é preciso lutar para que o trabalho continue.

“É importante ter passado por essa data em Portugal, num ambiente descontraído, e confesso que, para mim, a maior emoção foi estar em Carreço, onde os meus amigos Benjamin e Fernanda nasceram. Não consigo bem definir a emoção de estar participando nesse momento, a convite do presidente da Casa do Minho. Hoje, o Rancho está remodelado. Noventa por cento dos componentes são brasileiros. Os atuais integrantes, que são extremamente competentes, têm a responsabilidade de manter viva a história do Maria da Fonte”, referiu Odir Ferreira.

 

Literatura para perpetuar a história

Para tornar as principais memórias da criação do Rancho ainda mais inesquecíveis, a Casa do Minho editou uma obra literária de autoria do jornalista e escritor luso-brasileiro Ígor Lopes. O livro “Rancho Folclórico Maria da Fonte da Casa do Minho do Rio de Janeiro – A jornada do grupo português que valoriza a cultura minhota no Brasil desde 1954” tem como objetivo celebrar os 65 anos de fundação do Rancho, o mais antigo dos quatro grupos dessa entidade carioca. A obra, cujo viés é histórico, retrata os bastidores das atividades do Rancho no Brasil e no exterior, a sua ligação com as autoridades internacionais e realça o protagonismo do grupo no cenário da defesa do folclore português no mundo.

Em Portugal, foram promovidas quatro apresentações do livro, três na região de Viana do Castelo e uma em Braga. Em ambos os momentos, o lançamento do livro contou com a presença do autor, do presidente da Casa do Minho do Rio de Janeiro, Agostinho dos Santos, do único fundador vivo do Rancho, Odir Ferreira, dos componentes do Maria da Fonte e dos autarcas locais.

O sucesso do livro, que foi apresentado em maio na Casa do Minho, no Rio de Janeiro, fez com que o autor tenha sido convidado para estar presente no Salão do Livro de Lisboa no próximo mês de outubro.

 

Próximas celebrações

E as comemorações não param por aí. Em dezembro, a Casa do Minho, que conta já com 95 anos de idade, prevê uma viagem do Maria da Fonte a Buenos Aires, Argentina, onde o grupo irá se apresentar para os lusodescendentes locais, além de divulgar o livro sobre os seus 65 anos.

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