Cultura

Celso C. Cossa: “Para mim o sentido da vida reside na Arte”

(c) Celso C. Cossa

Celso C. Cossa nasceu em Maputo, é escritor de livros infanto-juvenis, género ainda pouco desenvolvido em Moçambique e, recentemente, publicou o seu mais recente livro, “O Menino que odiava Números”, o primeiro volume da trilogia. Ao longo da entrevista o escritor foi revelando como se tornou escritor e como se revê tão bem nos livros que escreve, pois ainda hoje continua a ser “aquele menino de imaginação aguçada”.

 

Como é que o público  mais jovem tem reagido às histórias que vai criando?

Eu tenho mais três livros já publicados, A Galinha Costureira, O Milhafre Esfarrapado da obra 7 histórias sobre quem come quem e a Capoeira dos sete pintos.  Através disso já me foi possível visitar muitas escolas, bibliotecas e, infelizmente, aquilo de que me tenho vindo a aperceber é que as referências de leitura dos jovens vêm todas de fora de Moçambique, até mesmo de fora do continente africano. Por isso, quando vou às escolas, as crianças e professores olham-me com espanto, porque ainda não existe quase nada nesta área feito por moçambicanos. O meu esforço vai nesse sentido, para que daqui a 15, 20 anos as nossas crianças posssam ter referências de escritores de Moçambique.

A literatura africana é muito rica, com uma grande tradição oral, mas  atualmente ainda não há uma distinção bem definida entre o conto tradicional africano e a literatura infanto-juvenil. Concorda?

Exatamente. O que me motivou a escrever este livro foi exatamente isso. Os escritores que não estão habituados a escrever para crianças, quando acham que querem escrever para um público mais jovem convidam artistas plásticos, escrevem sobre o que vêem na imagem e pronto, trabalho feito. Mas não é assim. O que faço com os meus livros é uma tentativa de aguçar a imaginação, estimular a criatividade e este movimento não é só meu. O escritores Pedro Pereira Lopes e Mauro Brito são também referências importantes neste setor, têm feito um esforço enorme esforço no desenvolvimento da literatura infanto-juvenil moçambicana e no Brasil chamaram-nos mesmo os três mosqueteiros.

Tem sido questionado por outros escritores moçambicanos que também querem enveredar  por este género literário?

Tem havido cada vez mais essa tentativa de desapego do conto tradicional até por parte de grandes escritores como Mia Couto, Marcelo Galvani, que continuam a deixar-se influenciar pela tradição oral, mas optaram por reescrever esses contos de outra forma. Pessoalmente, tenho recebido imensos emails a pedir ajuda e tem sido positivo ver que há cada vez mais pessoas que estão a acompanhar o nosso trabalho e acalentam o desejo de fazer o mesmo.

Para escrever histórias para crianças é preciso ter muita imaginação. Considera que hoje em dia é difícil cativar a atenção de uma criança em relação ao livro, com tantas distrações…

Eu estou otimista, na medida em que há pais que se preocupam com os filhos e isso passa por saber aquilo que os filhos lêem. Existem pais que estão empenhados em acompanhar o desenvolvimento intelectual dos seus filhos em todas as suas valências.

Daí que no seu livro, o menino que odiava números, a personagem do avô Tino, que vai à biblioteca e começa a ler o livro aos netos, também vai nesse sentido, de ensinar os pais a fazer esse caminho com os filhos?

Exatamente. A personagem do avô Tino, que leva os netos à biblioteca, é inspirada no meu pai, que se chama Celestino.  Foi nesse sentido que a personagem foi criada. Numa biblioteca, ou livraria, o adulto tem de ler primeiro e orientar. Infelizmente,  vivemos numa sociedade muito materialista, que tende a esquecer o livro. Eu vou dar um exemplo desta situação, no dia 1 de junho do ano passado ligaram-me três escolas para que eu fosse lá oferecer alguns livros às crianças, mas os pais de duas das escolas recusaram logo, porque os pais acharam que os filhos não iam gostar de receber livros. Fiquei muito triste quando soube disto e essa é precisamente uma das razões pelas quais eu ponho o avô a contar histórias, o gosto pela leitura começa em casa.

Foi também por influência da família que começou a prestar mais atenção aos livros?

Não, infelizmente, não.  O meu pai trabalhava nas minas, na África do Sul e a minha mãe tinha que trabalhar bastante para pôr comida na mesa, na ausência do meu pai, então não havia muitos livros em casa. A minha vocação para a escrita não vem dos meus pais, por isso não ponho o nome do meu pai no meu pseudónimo literário. Mas aquilo que o meu pai não me fez a mim, não quer dizer que eu faça o mesmo agora enquanto pai.

De onde surge então esse amor pelos livros?

A história é curiosa. A minha infância foi passada com os meus avós e nos anos 90, no Bairro da Maria Galé, numa zona urbana, quase não havia televisores em Moçambique, mas havia televisão na casa dos meus avós. As pessoas do meu prédio vinham para casa dos meus avós assistir à novela, filmes, mas nem sempre havia disponibildade por parte da minha família para receber os vizinhos todos lá em casa. Então, nesses dias em que eles não podiam assistir, os meus vizinhos pediam-me para contar o que se tinha passado na novela no dia anterior ou a fazer o resumo dos filmes. Eu acabei por ficar bom nisso! Tanto mais que chegou uma altura em que não havia filmes novos para contar e eu inventava-os. Isso durante muito tempo. Até que um dia, um  vizinho meu, que também tinha gosto pela escrita, arranjou um televisor e um leitor de video e pediu-me para lhe emprestar as cassetes dos filmes, ainda pensei no que havia de fazer, mas não havia hipótese, tive de lhe contar: “Cristiano, a verdade é que aqueles filmes são todos produto da minha imaginação”. A partir daí fizemos um pacto: eu contava as histórias e ele escrevi-as.

Que idade tinha na altura?

Na altura tinhamos 16, 17 anos, mas entretanto surge o serviço militar obrigatório e interrompemos as sessões. Quando já estava na tropa, interroguei-me: “Porque é que eu não posso transformar as minhas ideias em histórias escritas”? Então, arranjei uma sebenta e comecei a escrever todos os filmes que eu recordava de ter contado aos meus amigos, Mas a sebenta acabou por desaparecer e senti-me muito mal com isso, pois por mais que as histórias sejam as mesmas, ninguém é capaz de escrever da mesma forma duas vezes.

Nessa altura já tinha nascido o bichinho da escrita?

Quando regressei da tropa, o meu pai disse me que tinha de entrar no ensino superior e comecei a ajudar os meus colegas que tinham mais dificuldades ou eram mais preguiçosos com os trabalhos escritos. Um dia, um colega chamou-me a atenção para o meu estilo mais literário e perguntou-me se eu nunca tinha pensado em ser escritor. Essa ideia ficou-me na cabeça e pouco tempo depois pedi a um amigo que me emprestasse os dois primeiros romances que li na minha vida,  para me inspirar, o Mundo de Sofia de Jostein Gaarder e A ditadura da beleza e a revolução das mulheres de Augusto Cury. A partir desse momento, comecei e surge um prémio literário no dia 25 de maio, dia de África e acabei por ganhar o prémio.

É sempre uma longa caminhada até chegar a esse patamar. É também isso que as pessoas têm de perceber?

Acima de tudo, é preciso ter tempo e uma imaginação muito fértil. Na minha perspetiva, mais vale ter uma imaginação aguçada, do que saber todas as regras gramaticais e ter um estilo de escrita perfeito, essa tem sido a  minha luta desde que eu descobri esta vocação; tentar aperfeiçoar as técnicas de escrita e o conhecimento da língua. Isso eu sei que é possível fazer, mas não sei quantos livros se pode ler para aprender a ter imaginação. Eu sempre tive imaginação mas não dominava as técnicas.

Quando é que sente que tem uma história para contar, que pode nascer um livro de uma ideia?

Quando escrevo eu sei exatamente onde eu vou, visualizo logo o princípio e o fim, o caminho para lá chegar é que nem sempre está definido. A gente quando escreve não sabe bem onde quer chegar, mas acaba por chegar lá.

Celso não vive só da escrita, tem outro trabalho, é por opção propria ou porque ainda é difícil viver como escritor?

Quando eu comecei a escrever e a frequentar a Associação de escritores, só pensava que queria deixar o trabalho e viver da escrita. Sou técnico aduaneiro do Ministério das Finanças, trabalho nas fronteiras e nem sempre tenho tempo para me dedicar à escrita como eu queria. Mas acredito sinceramente que cada ser humano tem de encontrar o sentido da vida através de três dimensões, a arte, a religião e a ciência, para mim o sentido da vida reside na arte, tanto na literatura, como também na música. Eu continuo no meu trabalho porque tenho de comer, mas escrevo porque tenho de viver.

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