Cultura

“Contos de Lisboa” recupera Memórias dos escombros de bairros periféricos da capital

(C) Mónica Miranda

A exposição “Contos de Lisboa”, que decorrerá no Arquivo Municipal de Lisboa, baseia-se num acervo de imagens recolhidas ao longo de dez anos pela artista e investigadora Mónica de Miranda, sobre os espaços da cidade de Lisboa situados à “margem da capital”.

A artista e investigadora Mónica de Miranda, portuguesa de origem angolana, trabalha de forma recorrente temas de arqueologia urbana e geografias pessoais. As suas obras encontram-se difundidas em várias coleções públicas como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e o Arquivo Municipal de Lisboa, ao qual se junta ainda várias participações nacionais e internacionais em diversas residências artísticas.

Hoje, quarta-feira, no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa, é inaugurada a exposição “Contos de Lisboa”, resultante do um projeto “Pós-Arquivo” que teve início em 2009. “É uma reflexão que já estou a desenvolver há dez anos e teve a ver com a minha chegada a Lisboa, vinda de Londres. Na altura tinha alguns amigos e familiares que moravam em alguns deste lugares e foi a partir desse contacto, dessa realidade familiar que eu cheguei a estes espaços”. Durante dez anos, Mónica Miranda foi reunindo um acervo documental de centenas de imagens em bruto, que doou ao Arquivo Municipal Fotográfico, que oferece uma outra visão sobre a realidade de bairros adjacentes à cidade, que albergavam maioritariamente migrantes das antigas colónias e portugueses vindos de ambientes rurais.

Estas imagens contam uma história da cidade e traçam um espaço geográfico que hoje já não existe, ou está diferente. “Alguns destes bairros já nem sequer existem como a Azinhaga dos Besouros (Amadora), ou o 6 de Maio, onde só vive uma pessoa, pois foram demolidos”, argumenta a artista. Assim sendo, o trabalho é uma reflexão sobre uma cidade que já não existe. “A Azinhaga dos Besouros é hoje a Cril, o Bairro Fim do Mundo, é uma Igreja, ou seja, são fantasmas de uma cidade que já existiu e que foi sendo rasurada, que ficou por baixo dos escombros”.

É este caminho de descoberta e de revelação que vai fazendo ao longo de uma estrada que marca o trilho escolhido para a exposição, presente em vídeo. “ Encontrei também uma estrada, que é a Estrada Militar”,- conta-  “que tem sido para mim um motivo de reflexão pois foi construída para evitar os ataques de forças francesas e inglesas e é hoje visto como um forte que separa comunidades”.

Durante a década de 70, 80, 90, a partir da independência das colónias, os arrabaldes da cidade começaram a ser ocupados e surgiram comunidades que por razões socioeconómicas se situavam à margem. Por isso, no entender da autora, nesta mostra “é possível ver as implicações do passado, no presente, que tem, claro, também ligações com a história colonial”. Hoje em dia, a realidade conta uma história diferente e estes “lugares estão muito próximos do centro e acaba por se sentir uma pressão imobiliária crescente. Atualmente, a própria cidade começa a expandir-se e o que era periférico deixou de ser”, refere.

A partir do trabalho de investigação feito pela autora surge também uma recolha arqueológica, na  presença de objetos que foram deixados para trás. São livros, cadernos, aparelho eletrónicos que humanizam aqueles espaços. “Eu quis fazer uma reflexão do próprio arquivo e não expô-lo, pois para mim o arquivo em bruto é muito duro. Ao mesmo tempo queria também entrar mais profundamente nesta realidade como se fosse uma arqueóloga e daí surgiu os Contos de Lisboa”, por vezes através da ficção, fábula ou do imaginado alcançamos outras histórias que atingem um nível mais profundo”.

Estes objetos, recolhidos de cinco casas, foram “dados” a escritores africanos ou afro-descendentes como Djaimilia Pereira, Kalaf Epalanga, Yara Monteiro, Ondjaki que construíram histórias ficcionadas à volta de cada um dos objetos. O público vai poder ouvir estas histórias através de auscultadores disponíveis no museu.

Há igualmente uma “Timeline” que mostra imagens de casas demolidas, junto de outras casas que ainda permanecem de pé e isso é um alerta para a “tomada de responsabilidades” de como todo este processo de demolição foi conduzido.

A autora ressalva ainda que a exposição “Pós-Arquivo” não é estática e brevemente estará online “os sons do bairro”, que ajuda na recriação da memória destes espaços.  Um dos grandes objetivos da autora é “fazer as pessoas olharem para além do aparente, dessas designações do marginal ou problemático, uma vez que há histórias semelhantes em muitos outros sítios”.

“Contos de Lisboa”, com curadoria de Bruno Leitão e Sofia Castro estará patente de 18 de fevereiro a 16 de maio, no Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa.

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