Cabo Verde | Cultura

Jacira da Conceição mostra Saudade do Sal da Terra, em Lisboa

A exposição da Saudade do sal da Terra, de Jacira e Pedro da Conceição está patente até dia 29 de agosto, no Centro Cultural Cabo Verde (CCCV), em Lisboa, numa homenagem, através de várias formas da olaria tradicional, “ao chão, ao sal e à terra de Cabo Verde.”

A ceramista cabo verdiana, em entrevista à e-Global, refere que as peças expostas nasceram de um trabalho intenso, levado a cabo durante o período de quarentena resultante da pandemia. A jovem oleira, de 30 anos, natural de Chão Bom, ilha de Santiago, admite que “estes últimos tempos não têm sido fáceis para ninguém, especialmente para quem vive da arte”. No entanto, mostra-se esperançosa no futuro.

A viver em Portugal desde 2019, na cidade alentejana de Montemor-o-Novo, Jacira da Conceição sente “uma saudade imensa do sítio onde nasceu e cresceu e de onde desenvolveu esta relação de amor e responsabilidade com a olaria tradicional.  Relação essa que está intimamente relacionada com o projecto desenvolvido no Tarrafal, iniciado em 2009, por Pedro da Conceição, seu companheiro e co-autor das obras em exposição.

Em Janeiro desse mesmo ano, o realizador, ceramista e poeta, fundou – juntamente com outras pessoas – o  CAO- Centro de Artes e Ofícios de Trás di Munti, no concelho do Tarrafal de Santiago. “Neste projeto vi o Pedro trabalhar com um grupo de mulheres oleiras de Cabo Verde e aquilo começou a interessar-me, sobretudo porque era algo feito por mulheres e, em minha casa, eram só mulheres, a minha mãe era tudo, a força, a inspiração… ao ver aquilo eu só pensava em como é que podia contribuir”, explica Jacira.

Entretanto, começa a trabalhar na Loja da Terra, que funcionava como a parte comercial do CAO, onde as peças eram expostas e vendidas. “Havia trabalhos em artesanato, com sementes, conchas, várias peças de cerâmica, e eram essas que me despertavam mais sentimento do que tudo o resto.”

A partir daí, dessa observação intensiva, aprendeu a amassar o barro, a modelar e a fazer todos os trabalhos da tradição da olaria do interior da ilha de Santiago. Até que em Julho de 2009, o casal começa a planear a aventura de uma vida que mudará tudo o resto; partir à descoberta da América do Sul, numa viagem de bicicleta pelo continente.

“Nunca antes tinha andado de avião nem nunca sequer tinha pensado dar uma volta tão grande, ainda por cima de bicicleta. Não sabia bem para o que é que ia. Nunca tinha estado numa auto-estrada, não sabia andar de bicicleta, simplesmente fui.”- revela Jacira.

Do Terrafal para Fortaleza, no Ceará, Brasil, o mundo revelou-se de uma só vez perante o olhar espantado da jovem, “lembro-me que no dia seguinte fui ao mercado e parecia uma criancinha lá dentro, se pudesse levaria tudo o que lá estava”. Jacira é assertiva nas palavras quando diz: “esta viagem mudou-me e a minha arte é fruto de tudo o que vi e vivi”.

Ainda no Brasil, no Estado do Maranhão, viveram numa comunidade Quilombola, formada por descendentes de escravos africanos. “Era uma comunidade de oleiras,  onde as mulheres também trabalhavam com cerâmica e foi um sítio extraordinário. Para mim, foi como se tivesse saído de Cabo Verde, do Tarrafal e voltado para outro sítio igual, só que no Brasil e foi ali que eu senti, dentro de mim, que é isto que eu quero fazer para o resto da minha vida”.

As suas peças têm características únicas, mas esse trabalho ficou a dever-se a muitas horas de observação. “Ficava muitas horas a olhar para as mulheres a trabalharem e tive o privilégio de conhecer grandes mestras como Isabel Semedo, Mariazinha e ouvi-las e vê-las durante dias inteiros”…

Num futuro próximo há o desejo de voltar a Cabo Verde, mas também de viajar novamente, de enriquecer o seu conhecimento, de descobrir novas técnicas. “Por enquanto estou em Portugal e já tenho programada uma exposição para março de 2021, em Setúbal, no dia mundial da mulher, o que me honra muito”.

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