Cultura

“O que temos a fazer é reinventar-nos, porque não podemos passar os dias a lamentar-nos”, Mélio Tinha

Mélio Tinga nasceu em Maputo. Escreve prosa ficcional. Publicou «O Voo dos Fantasmas» (Ethale Publishing, 2018), fez parte de «O Hambúrguer que Matou Jorge – Antologia de Contos Criminais Moçambicanos» (Ethale Publishing, 2017), co-organizou e participou da «Contos e crónicas para ler em casa» – Volume I (Literatas, 2020) e co-organizou «Contos e crónicas para ler em casa» – Volume II (Literatas, 2020).

Foi finalista do Prémio 10 de Novembro 2019, com o livro inédito «Outro Dia a Nuvem Evapora». Dirige o Ventrículo – microjornal de contos. É colaborador permanente da Revista Literatas. Fez-se membro do Movimento Literário Kuphaluxa em 2013.

É formado em Educação Visual pela Universidade Pedagógica. Exerce a profissão de designer de comunicação. Às vezes, lecciona no mesmo campo de actuação, é co-fundador da DESIGN Talk e editor da Revista DEZAINE. Faz parte da nova geração de escritores que está a mudar o rosto da literatura em Moçambique, quer através do digital, quer através de novos projectos que avançam mesmo em situação de confinamento, mas acima de tudo através da partilha de ideias com um grupo dinâmico, em crescimento e deixa o aviso, nesta área não “podemos abandonar os amigos.”

 

Por Ana Gonçalves

 

O que leva um jovem a decidir ser escritor?

É de facto complicado, como se canta constantemente que a literatura não dá dinheiro e as pessoas precisam de ter uma segunda actividade quando decidem ser escritores… eu lembro-me de um evento em que participei, aquando do lançamento do meu primeiro livro e uma pessoa conhecida me perguntou, “afinal, tu és escritor?” –“Sim, sim, sou escritor.” Então, vem a segunda questão: “e o que mais fazes? Qual é o teu trabalho?” Há essa perceção de que a literatura, escrever e fazer arte em geral não é um trabalho, é algo que fazemos depois de concluir qualquer coisa importante nas nossas vidas. Esse é um dos desafios que nós temos, principalmente, pelo facto de sermos jovens e alguns estão ainda a construir não só carreira como escritores, mas em paralelo uma outra carreira, que se diz profissional. Mas, eu julgo que a grande motivação é, de facto, permitir que possamos fazer uma nova geração de forma colectiva, principalmente, que salte fronteiras e enquanto nos consolidamos vamos construindo um público, amigos e, constantemente, nos vão lendo.

 

Num país de escritores tão aclamados, como é que os mais jovens vão ganhando espaço e mostram o seu trabalho? Por que razão as obras literárias de escritores mais jovens não tem mais circulação, por exemplo, no espaço da CPLP?

 

Eu penso que o facto de termos escritores que se projectaram e continuam a projetar pelo mundo, que de uma ou outra forma nos influenciaram, como é o caso de Mia Couto, Paulina Chiziane e tantos outros. São escritores que nós passámos o ensino primário e secundário a ler os seus textos e esta geração tem a sorte de ter figuras para se espelhar nelas. É importante termos pessoas e escritores de referência, porque aí, no meu ponto de vista, conseguimos alcançar metas um pouco mais desafiadoras, é como se o desafio fosse realmente tentar chegar a um patamar de Mia Couto, que é extremamente complicado, é um trabalho constante de produção, de interacção com as pessoas, de muita leitura, que leva o seu tempo e para chegar aí levará anos. Outro tema que se debate aqui em Moçambique, muito a sério, é o tema da circulação do livro ao nível da lusofonia, porque falamos a mesma língua, não temos essa barreira linguística, não é necessário haver tradução… mas isso vai muito além do trabalho do escritor, envolve questões políticas dos países envolvidos e maior sensibilidade das pessoas do sector cultural. O livro poderia circular com maior facilidade, sendo que estes países falam a mesma língua.

 

Outra forma de apresentar as vossas obras e de conquistar novos públicos também passa pela realização de festivais literários. Em quantos festivais participa, em média, por ano?

Nós temos aqui em Moçambique três grandes festivais ao nível da literatura. Temos o festival LITERATAS, que é organizado pela revista Literatas, temos o festival que antes era um colóquio, que é RESILIÊNCIA que o ano passado contou com a presença de vários escritores internacionais vindos de Angola, Brasil, Portugal e ainda a feira do livro de Maputo, que é organizada pelo Conselho Municipal da Cidade de Maputo. Estes são os três principais eventos que acontecem aqui na capital.

 

E fora do país, os convites também vão crescendo ou as dificuldades burocráticas ao nível de emissão de vistos pode, por exemplo, complicar essas presenças internacionais?

É um número que vai progressivamente aumentando, há jovens da minha geração literária que participam com regularidade em eventos literários internacionais, como Pedro Pereira Lopes. De forma progressiva, há um movimento que vai acontecendo, porque hoje mais do que nunca, a literatura em Moçambique não está centralizada numa casa, não depende só de uma instituição, as pessoas podem fazer a sua carreira quase de forma independente se entenderem que isso é o melhor para si.

 

Melio, há pouco tocou numa questão importante, que são os amigos. Num país à escala de Moçambique como é que se trava esse conhecimento, como se vão delineando projectos, como é que vão encontrando?

Nós temos a sorte de termos as redes sociais e penso que o maior movimento literário que acontece, neste momento, é através destas plataformas. Um exemplo claro disso é o livro Contos e Crónicas para ler em casa, que nós publicámos I e II volume, totalmente digital, que conta com 32 autores no seu conjunto e são pessoas que nem sempre conhecemos pessoalmente, mas vamos seguindo o seu trabalho literário e vamos interagindo. As redes sociais flexibilizam o nosso trabalho e criam essas pontes que antes eram complicadas e não havendo agora possibilidade de nos encontrarmos presencialmente, claramente, que a nível digital, a literatura também se vai estabelecendo e criando o seu lugar aqui e não só. O digital vai criando essas fontes e facilitando, de alguma forma, a nossa vida mas também atrapalha um pouco, às vezes.

 

O livro, enquanto suporte físico sobreviverá ao digital? Como é que é esta relação com o digital?

Eu tenho uma relação razoavelmente boa com o digital, mas tenho um espírito velho e eu, que ainda não tenho 30 anos, continuo a preferir ler livros em papel,  há ali uma coisa escondida, estranha, no meio das folhas, que eu gosto de descobrir, posso estar enganado, mas ainda prefiro o papel, o livro nas mãos. Talvez, também, por influência do meu trabalho como designer de comunicação e, ultimamente, tenho estado a trabalhar como designer de livros, a relação papel, letra tipografia faz todo o sentido no seu conjunto quando está impresso. Tento estabelecer um equilíbrio entre as duas vertentes, quer dizer há aí um conflito muito profundo entre a ideia de salvar a natureza, mas negando o prazer do papel ou de tudo o que nos escapa no ecrã, é um conflito que eu às vezes receio partilhar.

 

Mélio, também é designer, tem essa dita “segunda profissão” e como leitor como é que percepciona o mercado livreiro em Moçambique. Actualmente, pode dizer-se está em franca progressão?

Eu vou ser sincero, não sei se é um mercado realmente em progressão. Em 1983 há um livro que foi publicado de Albino Malagaia, que teve 20 mil exemplares, o que nos leva a fazer crer que na época o livro vendia. Hoje, apenas autores aclamados fazem uma impressão de 1000, 2000 exemplares, o normal é que as pequenas editoras que têm estado a fazer um trabalho interessante, mas não se arriscam a fazer esses números, ficando-se pelos 500, 600. Então, isso leva-me a pensar se agora há realmente progressão. São questões muito profundas, que requerem maior  investigação.

 

Também passa muito pela capacidade de gerar novos públicos para a cultura. E agora, que está tudo parado, como é que se tem contornado esta situação de confinamento?

O que temos estado a fazer é a reinventar-nos, porque não podemos passar os dias a lamentar-nos, em vez de fazermos coisas realmente úteis. O que tem estado a acontecer com frequência é a realização de eventos online, como o lançamento do livro Contos e Crónicas para Ler em Casa, que foi online através da página do Camões, aqui em Maputo, a fundação Fernando Leite Couto também tem estado a fazer eventos online. Tentamos fazer o que é possível, mas, a Arte, na minha opinião, vive do calor humano, é totalmente diferente quando tudo acontece à distância. No entanto, vamos alimentando a esperança de que isto vai passar e a minha esperança é que depois desta fase haverá uma explosão em termos de produção artística.

 

O facto de consumirmos cultura com regularidade pode fazer-nos sentir mais seguros, confiantes, especialmente numa situação de crise como esta?

Eu não sei se isso nos dá mais segurança. Parece que a realidade se tornou mais ficcional do que o próprio livro e todos os dias quando nos levantamos, perguntamo-nos se de facto isto está a acontecer, se sonhamos ou estamos a ler uma história.  Porque quando lemos um livro nós sabemos que a história é fictícia, mas quando vivemos uma realidade tão dura e estranha como esta.

 

Mélio, é possível conseguir viver da arte, é de todo arriscado ou há margem para seguir este caminho?

O que eu diria em primeiro lugar, se a pessoa estivesse à minha frente, seria: seja teimoso! Ao principio ninguém vai compreender, as outras pessoas olham-nos como seres estranhos, mas quando somos teimosos, é possível. Falo de uma teimosia controlada, saber para onde vamos, depois também é preciso ter um plano de carreira, pensar de forma muito racional e seguir, seguir com planos concretos. Acima de tudo é preciso ser resistente, conhecer outras pessoas que façam a mesma coisa que nós, não é possível fazer tudo sozinho, apesar da profissão de escritor exigir esse confinamento, mas para mim o texto literário só faz sentido se chegar a alguém, ao leitor, é isso que de facto é a literatura.

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