Cultura

Os desafios da arquitetura na Coreia do Norte trazem Oliver Wainwright ao Centro Cultural de Belém

Oliver Wainwright, crítico de aquitetura e design do jornal The Guardian, 34 anos, passou 10 dias na Coreia do Norte, tirou mais de 2000 fotografias e  dessa experiência nasceu um livro que nos oferece um roteiro arquitetónico pelo país mais fechado do Mundo.

“A ideia deste projeto surgiu em 2014, durante a Bienal de Arquitetura de Veneza, onde arquitetos norte-coreanos mostravam como projetavam os edifícios do futuro. Eles estavam a mostrar o tipo de edifícios que iriam construir, muito futuristas, que me levou imediatamente a pensar naquela série de desenhos animados dos anos 70, os Jetsons, pela forma como tudo estava idealizado. Então, nessa mesma altura estavam a organizar um tour arquitetónico até Pyongyang e eu decidi ir. Era uma oportunidade única de ver um tipo de arquitetura que eu nunca tinha visto antes.”

Oliver foi para a Coreia sem qualquer tipo de apoio do jornal The Guardian, como turista, mas considera que isso foi o melhor que lhe podia ter acontecido. “Por incrível que pareça tive liberdade de movimentos, pude fotografar muito. Lemos nos jornais aquelas histórias de que é tudo demasiado controlado, mas tive muito mais liberdade do que estava à espera, apesar de estar sempre a ser vigiado.”

Aquilo que surpreendeu mais o autor foi a variedade de cores das fachadas dos edifícios de estrutura soviética, que aproximam a capital de uma cidade encantada,

Já as referências ao grande líder estão por todo o lado. As principais cidades são desenhadas à volta de grandes estátuas estrategicamente colocadas, que sublinham a grandeza do país “É impressionante que todos os pontos confluem naquela direção (das estátuas). O espaço público acaba por ser um complemento dos espaços interiores que devem ter nas paredes retratos dos líderes bem acima da altura que qualquer ser-humano.”

Nas cidades, nos edifícios públicos, nas estações de metro está sempre presente uma narrativa de contos de fada que vai de encontro à grandiosidade da história norte-coreana, ao papel do Grande líder como o pai fundador e nenhum detalhe falha. O jornalista conta ao e-Global que “as referências ao governo estão por toda à parte, mesmo quando não há a figura do líder há pequenos detalhes como desenhos das Rosas de Sharon, flores celestiais da Coreia, gravuras representativas da revolução, especialmente nas estações de metro ou as colunas octogonais ancestrais que fazem parte dos edifícios públicos.”

Apesar de tudo, Pyongyang assemelha-se muito a qualquer outra cidade de qualquer país do mundo; a mesma folia às horas de ponta e os mesmos momentos de descontração das famílias a fazerem piqueniques nos jardins. Oliver sentiu, influenciado pelas avenidas largas e a magnificência dos edifícios, que era como se estivesse em Berlim no Inverno.

Em relação à hipótese de voltar à Coreia no futuro, o autor assegura que nada o deixaria mais feliz, mas considera isso difícil, uma vez que no seu livro é muito crítico em relação a alguns aspetos; “A segregação dos espaços circundantes à capital, que não têm o mínimo de condições, estando bem longe do desenvolvimento que se verifica em Pyongyang, a falta de infra-estruturas em quase todo o território e a utilização que é feita da arquitetura, que é usada como uma ferramenta para infantilizar a população,” admite.

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