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Um sonho virou realidade; o Projeto “Livros por Pão” circula na Achada de Santo António, cidade da Praia

“Eu tenho de dar vida aos livros como se fosse uma circulação sanguínea”

 Por Ana Gonçalves

 

Cesária Évora, cantora cabo-verdiana, ícone da morna na letra de uma das suas canções, Ausência, apregoava, “Ma so na pensamento/Um ta viaja sem medo. Ary Reis, poeta cabo-verdiano perante esta pandemia, despoletada pelo novo coronavírus, fez frente ao medo e às insónias, pegou num sonho antigo –  o de se dedicar de corpo e alma aos livros -, estabeleceu contactos, reuniu a família e aprontou cestas para distribuir em troca de livros.  Assim nasceu o projeto “Livros por Pão”,  a venda de livros foi a forma encontrada por Ary Reis para prestar auxílio às famílias mais necessitadas do bairro Brasil, na Achada de Santo António, mas este projecto não começou nem acaba aqui, com várias iniciativas já realizadas, o grande objetivo passa por construir uma Biblioteca Comunitária no Bairro Brasil.

 

 

Ary, como é que isto tudo começou, esta jornada pelo mundo da literatura?

Desde os 13 anos que eu escrevo poesia, que o meu mundo são os livros. Primeiro comecei por me apaixonar pelo estilo do soneto, a interessar-me muito por de Luís de Camões, Ary dos Santos, Florbela Espanca, até que comecei também a escrever sonetos.

 

As tuas maiores referências são poetas portugueses. Acabaste por sempre ler mais em português do que em crioulo de Cabo Verde?

Eu sempre me senti diferente dos meus colegas, enquanto eles andavam sempre a correr atrás de uma bola, eu aproximava-me mais dos adultos, gostava de os ouvir, de me introduzir nas suas conversas. Isso a pouco e pouco fez-me chegar perto dos livros e como também era muito tímido e reservado, a poesia funcionou como uma janela, um escape. Há um frase de Anne Frank que diz, “escreve por que o papel tem mais paciência do que as pessoas”, foi por isso que eu comecei a escrever, com mais ou menos 15 anos. Depois, na escola quando comecei a estudar poesia e renascimento, apaixonei-me pelo soneto, de facto, aqui em Cabo Verde, até agora, só encontrei poemas do Francisco Xavier da Cruz, que também eram sonetos. Quanto à língua, eu costumo dizer o seguinte, como poeta eu sou universal. Se  decidir escrever só em crioulo, fecho-me na ilha e quando escrevo em português, o mundo para mim é muito maior, posso chegar a cerca de 280 milhões de pessoas, por isso sinto-me mais à vontade a escrever em português. Muitas pessoas criticam-me por isso, mas eu sinto que o português é tanto a minha língua quanto o crioulo.

 

E ao mesmo tempo que foi escrevendo, também foi colecionando cada vez mais livros, tem ideia do espólio que possui actualmente? 

É difícil falar de um número, eu costumo dizer que eu tenho de dar vida aos livros, há sempre uma espécie de circulação sanguínea, os livros entram e eu tenho de lhes arranjar saída. Em novembro de 2018,  criei o projecto “Amigo dos Livros” e esse projecto consiste em receber livros, cuidar deles e oferecer livros, sem nunca vender os livros. Para mim, vender livros é fugir da minha filosofia de vida. Mas como se está a viver um momento tão excecional, optei por esse caminho como forma de conseguir angariar dinheiro para comprar as cestas básicas.

 

Como tem estado a correr até agora este projecto?

Está a correr muito bem! Depois da comunicação social ter enfatizado a ideia, as pessoas começaram a contactar-me, querendo oferecer, comprar livros, então esta dinâmica tem estado muito viva. Quando começou o decreto do estado de emergência, eu pensei, vou ter que inventar algo que torne as pessoas mais alegres e ocupadas, que as faça desligar um pouco do que estão a viver. Então, comecei por lançar no facebook uma campanha que era, “fique em casa, leia um livro”, mas depois pensei, “há pessoas que precisam mais de pão do que de livros” e foi desse pensamento que surgiu este projecto. Fiquei a noite inteira a pensar sobre isto, às 4 da manhã lancei o desafio no facebook, depois fui dormir, mas com medo, aquilo ia contra a minha filosofia de vida. Na manhã seguinte, quando vi a reacção das pessoas pensei, “wow!” Houve muita gente que  começou a interessar-se, a contactar-me e, até agora, já temos garantidas 30 cestas básicas.

 

Este processo de economia circular que começou agora, pode estender-se pós-covid 19? Está nos seus projetos construir a livraria com que sempre sonhou?

Eu vou dizer claramente, desde pequeno que esse era o meu sonho. Até a minha filha de 6 anos me pergunta isso, “ pai, quando é que vais largar o teu trabalho aborrecido e montas uma livraria?” Não é só a minha filha que me diz isso, os meus amigos dizem-me o mesmo e perguntam-me até quando é que eu vou esperar. Essa é uma ambição antiga que vou alimentando a cada dia que passa, mas tenho a noção de que é um sonho muito caro…  Claro que podia emigrar e arranjar dinheiro, mas quando penso nessa possibilidade e naquilo que teria de sacrificar, como viver longe da minha família, desisto logo… por agora, aquilo que quero mesmo é fazer uma biblioteca comunitária no meu bairro.

 

Faz falta ao bairro este encontro mais profundo com as artes?

Quando tinha 16 anos perdi-me um pouco na vida, envolvi-me com o álcool, tornei-me alcoólatra. Aos 25 anos já tinha uma filha com um ano de idade, tinha perdido o emprego, separei-me da minha mulher, tudo isso por causa do álcool. Acabei por mudar-me da ilha de São Vicente, onde vivia, para a cidade da Praia, para encontrar uma nova vida em busca de uma nova identidade, mas, durante essa caminhada, os livros acompanharam-me sempre, estavam sempre lá ao meu lado. É por isso que agora me esforço tanto para fazer chegar os livros às pessoas, vejo-os como uma ferramenta para lutar contra vícios e delinquência juvenil que cresce na nossa cidade.

 

Como é que se faz esse contacto de proximidade? 

Faço todos os anos muitas palestras em várias organizações civis, centros de toxicodependência. Em 2019, o tema escolhido foi  “O livro e a escrita criativa como ferramentas para a reinserção social” e com essa iniciativa consegui arrecadar 1500 livros para três instituições; a cadeia central da Praia e dois centros de toxicodependência.

 

Perante esta pandemia como vê a reacção do governo e das pessoas em geral? Estão a ser dados os passos certos?

Em relação ao governo e a todos os nossos políticos, tenho de reconhecer que estão a agir bem. Sobre a doença mesmo em si, infelizmente, vejo pela frente um cenário preocupante, falando da cidade da Praia, em específico. Os casos aumentam todos os dias, mesmo aqui no meu bairro há muitos infetados e como é um bairro onde grande parte da população tem dificuldades, as pessoas procuram refúgios para a falta de emprego, falta de dinheiro, então criam-se aglomerações e começam a conversar a divertir-se,  muitas vezes há álcool no meio de tudo isto. Eu, às vezes, critico-os, mas infelizmente aquilo que já receberam da vida não lhes permite ter outro comportamento… A situação é muito complicada, do ponto de vista económico, eu também tenho o contrato suspenso e não sei o que irá acontecer daqui para a frente.

 

Nota que os artistas, cada um a seu modo, se estão a mobilizar em Cabo Verde? Têm sido resilientes?

Há vários movimentos e cada um deles faz algo diferente, cada um deles está na linha da frente. Muitos entretém as pessoas em casa, outros saem para o terreno. Eu vou ser sincero, às vezes tenho medo de infetar a minha família, até arranjei uma roupa especial. A minha filha de 6 anos fica muito preocupada, diz que lá fora está o coronavírus, mas eu digo-lhe que as pessoas precisam de nós, então toda a família ajuda. Ainda dentro deste projecto, há um jovem que também trabalhava na construção civil que agora também colabora connosco e por cada entrega que faz recebe 10 euros. Eu vejo que esta dinâmica vai criando oportunidades, o que é bom.

 

Este projecto já começou a ganhar projecção noutras ilhas?

No mês de  dezembro,  fui para a ilha do sal e de São Vicente, mas de repente ocorreu isto e todos os projetos ficaram parados. Mas, digo claramente, nós precisávamos de parar um pouco, é a primeira vez na minha vida, durante 21 anos, que estou tão dedicado à família e tem sido incrível. Isto tem-me ensinado muito e creio que quando isto tudo passar podemos ser humanos com mais conteúdo.

 

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