Entrevista: Evelise Veiga, as Raízes de Cabo Verde

Evelise Veiga, fará a sua estreia nos próximos Jogos Olímpicos, mas no seu currículo já conta com inúmeras participações em provas nacionais e internacionais, onde se tem vindo a destacar. Primeiro,  no salto em comprimento e, mais recentemente, no triplo salto, onde garantiu a qualificação para a sua primeira presença olímpica.

Evelise é uma atleta de excelência, com um optimismo e uma perseverança difíceis de abalar e tem sido assim desde que começou esta grande aventura no mundo do atletismo, quando tinha apenas 10 anos.

Portugal não foi o país que a viu nascer, mas é o país onde vive, onde desenvolveu a sua paixão pelo atletismo e onde tem mais perspetivas de almejar medalhas. Ter entrado no mundo do atletismo foi, nas suas palavras, “a melhor escola da vida” e garante que, não sendo fácil de conciliar a vida académica com a vida desportiva, não é uma tarefa impossível. 

 

Por Ana Gonçalves 

“Neste momento, nós os atletas também pensamos que a saúde está em primeiro lugar, não só a nossa, como a daqueles que nos acompanham, das pessoas que estão por perto. Se neste momento as autoridades entenderam que teriam de cancelar os Jogos, cabe-nos a nós percebermos e sermos compreensivos, porque, certamente, há pessoas com conhecimento de causa, que entendem que esta é a melhor forma de agir”.

 

 

Evelise, como está a correr este pós-confinamento? Já está de volta às competições?

Estou no meio de uma viagem, por acaso estou a fazer escala em Amesterdão, fui competir a Helsínquia, Finlândia.

 

Correu bem?

Por acaso, não foi das melhores provas que eu já tive mas, sozinha, sem treinadora, até que nem foi mau… (risos)

 

Isto tem sido uma aventura, não é? E como é que começou esta grande aventura no Desporto de Alta Competição?

Eu comecei no comprimento, mais tarde experimentei o triplo salto. Isto tudo começou quando eu tinha 10 anos por intermédio de uma amiga que já andava no atletismo e me convidou para ir com ela. No início, andava lá por andar, mais por causa dos amigos e das brincadeiras do que por outra coisa. Depois, aos poucos, fui ganhando gosto por aquilo, fui-me afeiçoando ao treinador e fui  ficando, ficando até que, mais tarde, já no meu primeiro ano como juvenil, o clube Juventude Vidigalense me convida e é lá que conheço a minha actual treinadora.

 

E a partir daí começa a entrar em provas internacionais, não é? Ainda se lembra da primeira prova internacional em que participou?

Ai sim… (risos) Eu tive algumas logo muito cedo como os jogos da CPLP e os jogos da Lusofonia. Mas aquela mesmo mais séria em que eu participei foi em 2013, no Mundial de Juvenis. Era uma competição muito restrita, Portugal não levava muitos atletas e eu, na altura, tinha conseguido os mínimos para os campeonatos. Contudo, cheguei lá e, sinceramente, a prova não correu lá muito bem… e foi aí, nesse momento, que, realmente, comecei a perceber o que é o mundo do atletismo, porque uma coisa é estar em Portugal, ir competindo, se não ganhasse, não ficava nos últimos lugares, ficaria sempre nos três, quatro primeiros…quando cheguei lá fora, aí sim, apercebi-me de que havia pessoas muito, muito melhores do que eu. Eu ia com o objectivo de conseguir a qualificação para a final, fiquei muito aquém disso… lembro-me que na altura saltei 5,23metros e já saltava 5,98metros… acabei por ficar fora da final, fiquei em 23º lugar…

 

Foi o pior resultado de sempre?

Sim, sem dúvida. Mas não vi isso como algo negativo, mas sim como algo que me ajudou muito, principalmente a perceber que nada é fácil e que tenho de trabalhar muito se quero estar entre os melhores.

 

A partir daí vieram muitas competições, nacionais e internacionais e os Jogos Olímpicos. Qual a sensação de estar qualificada para os Jogos?

Seria a minha estreia este ano e, infelizmente, aconteceu isto tudo, a pandemia, os Jogos adiados… mas também não vi isso como algo negativo, que me deitasse abaixo ou me tirasse a motivação. Pelo contrário, vi o adiar dos Jogos como uma oportunidade de continuar a trabalhar para quando chegar a altura estar o mais bem preparada possível.

 

A Evelise nasceu em Cabo Verde, depois veio para Portugal, representa Portugal, como é que foi essa transição? 

Vim para Portugal com 9 anos, fiz 10 um mês depois de cá estar, por isso lembro-me muito bem de Cabo Verde. Tenho lá a minha avó e regresso de ano a ano ou de dois em dois anos. Por acaso, estive lá no mês de Janeiro. Nunca me esqueci do meu país e os meus pais também fazem questão de que nunca nos esqueçamos das nossas origens. Mas eu comecei a praticar desporto em Portugal, envolvi-me no atletismo aqui, por isso todo o meu percurso passou pelo país onde vivo agora. Houve uma altura, aquando da minha primeira participação dos jogos da CPLP, em que me foi dado a escolher se queria representar Cabo Verde ou Portugal, claro que aí pesou um pouco ter de escolher… mas tive de olhar a longo prazo, para o futuro e pensar no país que me podia oferecer melhores condições, que me poderia ajudar a chegar o mais longe possível, por exemplo, aos Jogos Olímpicos e onde pudesse lutar pelas medalhas e, sem dúvida, Portugal tinha toda a capacidade para me ajudar nesse percurso. Por outro lado, este também é o país onde eu resido, em que passo a maior parte do tempo e da minha vida.

 

E agora, Evelise, com a participação nos Jogos assegurada, quais os próximos objetivos?

Neste momento tenho ainda mais duas competições pela frente até dar por terminada esta época e espero conseguir saltar o mais longe possível nessas duas competições. Já este ano, com todas as dificuldades que tivemos, consegui um record pessoal, competi nos campeonatos de Portugal no triplo salto e também fiz boas marcas, já no salto em comprimento acho que estou bastante consistente desde há dois anos a esta parte, acho que me falta dar aquele “saltinho” acima dos 6,70metros , mas a partir do momento em que acontecer o primeiro salto, tenho a certeza será mais fácil a partir daí. Já aconteceu isso antes, primeiro para passar os 6m depois os 6,50metros, basicamente é isso, ganhar ritmo e a dificuldade passa por fazer o primeiro salto.

 

Nas provas que fazem ao longo da temporada, provavelmente acabam por se conhecer todas, como é que é o ambiente entre vocês? 

Dentro do nosso sector, nos saltos, penso que nos conhecemos bastante bem e damo-nos bem, mas isso também se proporciona devido aos estágios que realizamos em conjunto, ao facto de os treinadores criarem contactos entre si e os atletas puxarem uns pelos outros. Penso que o bom ambiente se deve muito a estes momentos que se proporcionam e que a seleção também nos proporciona. E, claro que ao estarmos a competir diariamente com os nossos colegas acabamos por criar uma relação de proximidade.

 

Começou pelo salto em comprimento, agora triplo salto, onde é que se sente mais à vontade?

Sem dúvida que me sinto mais à vontade no salto em comprimento, é tudo mais mecânico. No triplo salto ainda tem que ser tudo muito pensado, tenho que ter muita atenção aos impactos, que são muito diferentes, então isso requer de certa forma muito foco e muita concentração da minha parte. O facto de eu fazer comprimento há vários anos e já estar mais dentro da técnica leva-me a considera-lo mais fácil do que o triplo salto, mas é tudo uma questão de treino e é isso que estamos a fazer neste momento, a tentar conciliar as duas modalidades para que não haja tanta discrepância entre uma e outra.

 

E já pensou também em experimentar outras modalidades como a velocidade, ou estamos a falar de modalidades completamente diferentes, que já requerem outras metodologias de treino?

Costuma-se dizer que os grandes saltadores têm de ser rápidos, mas os atletas estão divididos em vários setores e mostramos mais aptidão para uma atividade do que para outra. A minha aptidão neste momento virou-se mais para os saltos, mas existem muitos atletas que conseguem conciliar, assim como eu fiz em relação ao salto em comprimento e ao triplo salto. Às vezes, no inicio da época de competição, vamos fazendo provas de 60 ou 100 m, quando é pista coberta, mas também não nos dispomos muito a isso porque a velocidade tem a componente dos blocos, das partidas, é algo muito explosivo…

 

Como é que um atleta de elite, que se prepara ao pormenor para todas as competições, se defronta com um ano tão atípico como este com cancelamentos, provas adiadas? 

Neste momento, nós os atletas também pensamos que a saúde está em primeiro lugar, não só a nossa, como a daqueles que nos acompanham, das pessoas que estão por perto. Se neste momento as autoridades entenderam que teriam de cancelar os Jogos, cabe-nos a nós percebermos e sermos compreensivos, porque, certamente, há pessoas com conhecimento de causa, que entendem que esta é a melhor forma de agir. Claro que esta incerteza gera alguma ansiedade, mas é aí que entram os psicólogos, os treinadores, a equipa que nos acompanha diariamente e que nos ajuda, até porque o nosso foco está sempre em treinar bem e competir bem, o resto há-de resolver-se.

 

Evelise, qual é o conselho que deixa a quem queira seguir uma carreira no mundo do atletismo de alta competição? E em que medida é que esta experiência no atletismo tem sido tão importante?

Falando na minha própria experiência, esta é uma das melhores escolas da vida que podemos ter. Nós aprendemos a ser disciplinados, porque os nossos dias começam muito cedo e acabam tarde, depois há várias fases; enquanto somos mais novos temos de conciliar os treinos com as aulas, os amigos, o estudo. À medida que vamos crescendo, começamos a estabelecer prioridades, a distinguir o que é importante e o que não é, aquilo a que devemos dedicar mais tempo… até que se dá a entrada na faculdade e é nesse período que existem mais desistências, talvez pela dificuldade em conciliar tudo ou por alguns se apercebem que talvez não tenham o talento necessário para continuar, ou outros, que têm talento e tudo o mais para chegarem longe, simplesmente apercebem-se que não conseguem dar conta do recado e é nesta fase que cada um vai começando a fazer as suas escolhas, que cada um começa a pensar no que será melhor para si, naquele momento.

Essas decisões, de continuar ou não com a carreira desportiva, nunca devem ser tomadas por outras pessoas, mas sim pelos atletas. Por isso, aos mais jovens eu digo: divirtam-se, não levem tudo demasiado a sério na altura, aprendam a perder, porque nessa fase não se tem assim tantas responsabilidades nem consequências, aproveitem para crescerem. Aos mais velhos, o meu conselho é que sejam disciplinados e que tenham em mente onde querem chegar e trabalhem muito para o conseguirem.

 

E no seu caso, Evelise, tem sido difícil conciliar os estudos universitários com a carreira desportiva?

Neste momento estou a estudar Gestão e não digo que é fácil, mas também não digo que é algo de outro mundo. Eu penso assim, se já houve tantos atletas que conseguiram eu também lá hei-de chegar, nem que seja um bocadinho mais devagar.  Temos que ter paciência e conseguir conjugar tudo. Claro, que, neste momento, a minha prioridade é o atletismo, até porque não posso fazer isso para sempre, mas isto não quer dizer que vá adiar os meus estudos por muitos anos, até porque nessa altura já terei outros objetivos de vida. Penso que neste momento é a melhor altura para ser estudante, porque exige um esforço mais psicológico, não é algo físico que vá hipotecar os meus treinos e as minhas competições e é possível de conjugar.

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