Vida

Lilian Thuram reabre o diálogo sobre racismo: “o racismo é muito mais do que a cor de pele”

Lilian Thuram

O auditório da Gulbenkian, em Lisboa, foi pequeno para ouvir Lilian Thuram, campeão mundial pela França em 1998 e o jogador mais internacional de sempre dos “bleus”. Lilian contrariando os apelos feitos pela sua família tornou-se Presidente da Fundação Lilian Thuran – Educação Contra o Racismo, que argumenta que “o racismo é uma construção intelectual, política e económica”. Em parceria com o grupo MEMOIRS, que investiga as heranças coloniais na Europa contemporânea e a convite do Grupo de Estudos da Universidade de Coimbra, o antigo jogador estará em Portugal até dia 28 de novembro numa série de encontros e palestras com os mais jovens e a sociedade civil em geral, tendo como pano de fundo a educação contra o Racismo.

Esta quarta-feira na conferência promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, que apoiou a edição do seu livro “As minhas Estrelas Negras – De Lucy a Barack Obama”, publicado em Portugal pela Editora Tinta da China, Thuram respondeu às perguntas da audiência, pondo sempre em destaque que o racismo é uma construção e que vai muito além da cor de pele, “é uma forma de domínio”, argumenta. Indo de encontro ao seu passado como atleta de alta competição, relembra que um atleta só conseguirá singrar naquele meio “se tiver bastante autoestima, se se convencer todos os dias que é muito melhor do que aquilo que os outros pensam, o mesmo se passa com a colagem de estigmas, há que ir mais além”. Numerosas vozes na audiência contestaram que o debate sobre o racismo em Portugal está bastante atrasado, ao que a antiga estrela dos relvados contestou que tem sido assim por todo lado e que ainda hoje em França se sentem essas mesmas dificuldades, mas é preciso insistir na discussão, especialmente com “aqueles que propagam ideias racistas”, pois aquilo “que dizem e que fazem revela um desconhecimento profundo da realidade. “As pessoas propagam o que ouvem e acreditam que essa é a realidade, e muitas vezes não compreendem que o racismo é traumatizante, de uma violência total e se as vítimas não tiverem uma rede de segurança forte que as ajude a suplantar isso, podem não recuperar”.

Thurman admite que tem sido muito difícil ao longo dos anos falar da questão do racismo pela carga sentimental que agrega, mas refere que o diálogo é sempre a melhor resposta. “Não se pode desistir de falar com as pessoas por que acredito que há muita gente boa que não sabe rigorosamente nada, pois foram educados assim. “Amílcar Cabral, ativista guineense, alertava para o suicídio de classes e é bom que as pessoas pensem nesta dinâmica para o suicídio de raças, as pessoas brancas, negras, homens, mulheres, não vivem da mesma forma e não têm as mesmas experiências. Não há outra hipótese senão apostar na educação”.

Para o ativista é muito difícil dizer que o mundo atualmente é mais racista, pois o racismo envolve várias variantes. Por outro lado, os políticos à falta de “conteúdo nas suas políticas” vem “reforçando as questões identitárias e há regimes que só vivem se explorarem estas diferenças entre as pessoas nas sociedades”.

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