Moçambique: Ativistas comunitários excluídos da vacina contra a covid-19

O Centro de Saúde de Mavalane, em Maputo, recusa-se a testar activistas comunitários com sintomas de Covid-19, numa altura em que o país acaba de receber mais 302.400 vacinas da farmacêutica Johnson & Johnson.

Esta atitude contraria o princípio determinado pelo Ministério da Saúde (MISAU), depois do Observatório Cidadão para Saúde (OCS) ter apelado à inclusão dos activistas na testagem, vacinação e, inclusive, na distribuição de equipamento de protecção.

A denúncia foi avançada ao Observatório do Cidadão para Saúde, por um grupo de activistas na condição de anonimato, por temer represálias. A queixa deste grupo surge numa altura em que o país regista diariamente a morte de no mínimo 20 pessoas por Covid-19 e a infecção de 2.460 pessoas nas últimas 24 horas.  

“Alguns activistas que trabalham nesta unidade sanitária não foram testados contra a Covid-19 mesmo tendo marcado a consulta. Os profissionais tratam mal os agentes das Organizações Comunitárias de Base (OCB)”, afirma a fonte.

De acordo com a mesma fonte, o pessoal do Centro de Saúde de Mavalane recusa-se a testar os activistas por uma questão de vingança, visto que os activistas têm denunciado e criticado o mau atendimento e vigiado os provedores envolvidos a esquemas de corrupção com maior enfoque para cobranças ilícitas ao utente.

“Quando os activistas se apresentam para a testagem, os profissionais dizem que não há material para testar, mesmo em casos em que os activistas marcam a data para serem assistidos. Sabemos que se trata de um acto de vingança, uma vez que os activistas têm vigiado atenciosamente os trabalhos dos provedores”, afirma indignado outro activista, lamentando o facto da maior parte dos seus colegas não ter sido testada.

Outro problema que os activistas denunciam deve-se à insuficiência de profissionais que lidam directamente com a Covid-19.

“Olha só como pode se ver”, activista apontando uma senhora que manuseia um estetoscópio, acrescentando “somente aquela senhora está ali para assistir pessoas com problemas ligados à Covid-19. Como é que uma pessoa será capaz de atender tantas pessoas em simultâneo?” questionou.

Como pode se notar na unidade sanitária o sistema de lavagem das mãos à entrada não se encontra operacional. Este facto acontece diante do olhar impávido dos profissionais de saúde.

“É sempre a assim nesta unidade sanitária. As filas sempre longa. O pessoal que trabalha na testagem não é suficiente, devia haver muitos profissionais a auxiliarem-se na testagem”, afirma Manuel Pedro, um dos supervisores de uma Organizacao Comunitária de Base (OCB).

“O pior de tudo é saber que os pacientes nem têm casa de banho. Arranjam-se para fazer as necessidades fisiológicas. Onde já se viu uma casa sem casa de banho?”, questiona o supervisor, que só conseguiu fazer o teste da Covi-19 depois de várias insistências teimosas.

Vendo-se sem saída, muitos activistas recorreram a unidades sanitárias desvinculadas à actividade que exercem. Nestas unidades alternativas, acabam sendo testados por serem desconhecidos pelos profissionais de saúde.

“Muitos acabam recorrendo ao Centro de Saúde de Albazine. Lá são atendidos porque ninguém os conhece”, afirma um dos activistas excluído, adiantando que “negou-se testar alguns activistas que tinham sintomas fortes de Covid-19. Muitos destes já tinham mantido contacto com outras pessoas, familiares, amigos e colegas do serviço, não sei até aonde se pretende chegar com tudo isto”, lamenta o activista.

Aurélio Sambo

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