Entrevista ao Brigadeiro-General Lemos Pires: “Não me passou pela cabeça que em tão pouco tempo os talibãs pudessem tomar o poder”

O site e-Global contactou o Brigadeiro-General Nuno Lemos Pires, atualmente em missão em Moçambique, para obter o seu ponto de vista acerca do que se passa no Afeganistão, principalmente desde a tomada do poder pelos talibãs (a 15 de agosto de 2021).

e-Global: Pode começar, por favor, por fazer uma breve apresentação sua (mais focada no conhecimento sobre o terrorismo)? 

Brigadeiro-General Nuno Lemos Pires: Eu sou Brigadeiro-General do Exército. Além de ser de Infantaria sou também de Operações Especiais e estive em algumas missões onde se inclui, por exemplo, a passagem pelo Afeganistão no final de 2010. Nessa região do mundo tive também uma missão em 2005 no Paquistão e estou, neste momento, como Comandante da Missão da União Europeia em Moçambique. Esta missão atual tem por objetivo formar as forças armadas moçambicanas para proteção da população civil e para que aquelas atuem no restabelecimento da segurança na província de Cabo Delgado. 

O terrorismo é um assunto que eu já sigo há mais de 20 anos, quase 30. Foi um tema de estudo que eu sempre utilizei e tenho escrito muita coisa sobre isso, tenho acompanhado, e costumo participar em conferências sobre o tema. Escrevi o livro “Resposta ao Jiadismo Radical” e tenho vários artigos e capítulos de livros escritos sobre o tema. A maior parte deles está disponível online. 

Academicamente falando, sou doutorado em História, Defesa e Relações Internacionais e junto o doutoramento à experiência internacional adquirida em várias missões. 

Em relação ao Afeganistão, como é que estava a situação antes da tomada do poder pelos talibãs? Já se esperava que isso fosse acontecer? 

Numa breve resposta: não. Eu julgo que a maior parte das pessoas ficou muito surpreendida pela forma como o regime Talibã conseguiu dominar a situação e, nomeadamente, chegar à capital [Cabul] e tomá-la em tão pouco tempo. Basta ver através de uma pesquisa sobre artigos de opinião e outros escritos, nos últimos anos, não vi ninguém a antecipar o que aconteceu. 

Antes de isso acontecer havia uma situação aparente e havia uma situação real, da qual a comunidade internacional já estava muito alheada. 

Aliás, ouvimos o próprio Presidente norte-americano [Joe Biden] a dizer, baseado nas informações que tinha, que isso nunca iria acontecer. Portanto, a situação foi surpreendente. Para mim também foi, não me passou pela cabeça que em tão pouco tempo os talibãs pudessem tomar o poder assim no Afeganistão. 

Antes de isso acontecer havia uma situação aparente e havia uma situação real, da qual a comunidade internacional já estava muito alheada. Primeiro, porque não havia assim tanto uma presença da comunidade internacional como se possa pensar. Houve, de facto, um investimento grande feito durante muitos anos, mas nesta última fase já havia uma grande ausência institucional e mesmo militar. A missão que lá estava era uma missão muito mais pequena, que não tinha a ver com missões anteriores. 

No resto do Afeganistão, grande parte daquelas províncias eram já dominadas pelos talibãs. 

Portanto, nesta fase final havia se calhar muito pouca percepção sobre o que se estaria a passar. E uma coisa era estar em Cabul e outra coisa era estar no resto do Afeganistão. No resto do Afeganistão, grande parte daquelas províncias eram já dominadas pelos talibãs. 

Qual é a sua opinião em relação à decisão de Biden (Presidente dos Estados Unidos da América) sobre retirar as tropas do Afeganistão? Porque ele depois foi muito criticado, isso terá desencadeado esta situação… 

Não me compete falar sobre decisões políticas tomadas por líderes de países. O que lhe posso dizer é que a decisão do atual Presidente dos Estados Unidos veio de uma sucessão de decisões que têm sido tomadas nos últimos tempos e que acaba por ser o resultado de algumas coisas que nós hoje podemos constatar. Mas há quatro meses não tinha esta certeza… Hoje podemos dizer que tem a ver com uma sucessão de eventos que acabaram por não revelar tudo aquilo que estava a acontecer. 

(…) desde o princípio que houve equívocos que nós hoje podemos verificar, analisando com alguma atenção. 

Ou seja, desde o princípio que houve equívocos que nós hoje podemos verificar, analisando com alguma atenção. Um foi o facto de haver uma resposta aos ataques do 11 de Setembro, considerando que era preciso eliminar a ameaça dos talibãs… a ameaça não era propriamente dos talibãs. A ameaça era da Al-Qaeda. E essa ameaça, de alguma forma, ficou resolvida. E ficou sempre uma grande ambiguidade sobre a determinação dos Estados Unidos e da comunidade internacional, em geral, sobre se queriam ou não queriam fazer “nation-building” [construção de nação]. 

E querendo fazer “nation-building”, ou “state-building” [construção do estado], se queriam ou não queriam fazer com os recursos necessários para poderem prolongar esta missão no tempo e no espaço, e se o estavam a fazer da melhor maneira. Ou seja, se estavam a fazer de acordo com aquilo que a população local queria fazer. E hoje nós vemos coisas que já se pressentiam há muito tempo, que são, por exemplo, o facto de durante muito tempo não haver qualquer diálogo com os talibãs, sendo eles uma presença muito importante. Eles foram derrotados, mas não se renderam. Eles não apareceram de braços levantados e foram para as prisões afegãs. Em 2001 eles simplesmente retiraram-se. 

Quando, em 2009, o Presidente Obama anunciou que ia aumentar pela primeira vez e de forma significativa o esforço no Afeganistão, ele também anunciou que ia sair. 

E, portanto, ao não haver um diálogo, ao não haver um encontro, ao não haver tentativas de perceber e ao não haver a tentativa de olhar de forma holística para aquilo que eram as várias dimensões do problema, não se conseguiu perceber que o Estado, o desenvolvimento e a economia tinham que andar passo a passo com a defesa de segurança. E isso fez com que houvesse aqui algumas flutuações. 

Quando, em 2009, o Presidente Obama anunciou que ia aumentar pela primeira vez e de forma significativa o esforço no Afeganistão, ele também anunciou que ia sair. Nós não podemos esquecer que ele em 2009 disse “Eu vou fazer um aumento das forças, mas em 2014 vamos retirar-nos”. Anunciou uma data para sair. E, portanto, anunciou uma data de saída em cima de uma ação que era muito baseada na parte militar, e essa aí incompleta. 

Hoje nós podemos dizer… mas é hoje, não diria isto há um ano e quem me dera ter sabido dizer isto há um ano… hoje podemos ver que há uma sucessão de passos que depois levam a uma decisão, e depois há uma série de unilateralismos. Nós sabemos que o Presidente Trump iniciou negociações com os talibãs sem envolver completamente o Governo afegão e sem envolver completamente a comunidade internacional, como os aliados da NATO e outros países. 

(…) aquilo que acaba por ser a decisão do Presidente Biden, criticável ou não, acaba por ser uma consequência de vários passos que já estavam a ser dados. 

Conversas bilaterais com poucos atores internacionais e com a ausência prolongada do próprio povo afegão, obviamente levam depois a soluções incompletas… aquilo que acaba por ser a decisão do Presidente Biden, criticável ou não, acaba por ser uma consequência de vários passos que já estavam a ser dados. 

Não é possível tirar os talibãs do poder (tendo os Estados Unidos uma forte capacidade militar que se pode unir a outras, como da União Europeia, por exemplo)? 

Este tema já tem a ver com relações internacionais, ou seja, um país ou uma aliança de países não vão tirar um determinado partido ou grupo do poder apenas porque acham que o devem fazer. Chama-se a isso ingerência. Mesmo que a tomada de poder possa ser ilegítima, ilegal e não reconhecida, tem que haver, obviamente, um respeito pelas instituições locais. 

(…) nós só temos uma organização internacional que de facto zela e vela pela aplicação do direito internacional, que são as Nações Unidas. 

E tem que haver um mandato internacional. Eu acho que isto é uma das partes muito importantes. E nós só temos uma organização internacional que de facto zela e vela pela aplicação do direito internacional, que são as Nações Unidas. Se houvesse um mandato das Nações Unidas para tirar os talibãs do poder, poder-se-ia perguntar a vários aliados, entre os quaise inclui os Estados Unidos, se estariam dispostos a fazê-lo. Ora, isso não aconteceu. E nem isso está em cima da mesa. E porque é que haveria de ser os Estados Unidos e não haveria de ser a China agora? Porque é que haveria de ser a União Europeia e não haveria de ser a Rússia? 

Se calhar, nós não soubemos lidar bem com as populações locais para que elas pudessem manifestar-se. 

Enquanto defensores dos valores ocidentais, temos de manter sempre os princípios de respeito intransigente por regras do direito internacional, por leis, liberdades e garantias das populações. E mesmo que nós vejamos em tantos pontos do mundo o atropelamento dos direitos humanos, isso não legitima um determinado acto de entrar pelo país dentro. Aliás, essa é uma das lições que nós podemos tirar do que aconteceu no Afeganistão. Se calhar, nós não soubemos lidar bem com as populações locais para que elas pudessem manifestar-se. 

Ao contrário do que fizemos, por exemplo, agora no Iraque e na Síria. Enquanto comunidade internacional, legitimados por uma resolução das Nações Unidas, fizemos uma operação que se chamava “Operation Inherent Resolve”. Quase 80 países do mundo inteiro participaram nessa operação, que foi uma operação de apoio às forças locais. Foram as forças iraquianas e foram as forças sírias que expulsaram e derrotaram o Daesh [Estado Islâmico]. Nós hoje já sabemos e vivemos com alguma tranquilidade por sabermos que há outras formas de fazer as coisas, por nos basearmos em lições aprendidas de outras más soluções. 

Nós também nos lembramos da saída apressada do Iraque em 2011 e que levou depois ao aparecimento do Daesh. E para não repetir esse erro, a estratégia política foi muito diferente naquela operação, a partir de 2017, no Iraque e na Síria, que levou a que houvesse uma operação muito diferente, de apoio ao Governo legalmente constituído, deixando-nos ir na frente e fazer exatamente esse tipo de combate de libertação e de conseguir, no fundo, erradicar o Daesh. 

Então o que se pode fazer? O que podem fazer os países que estão de fora em relação à situação no Afeganistão, para tentarem ajudar o povo? 

A comunidade internacional como entidade una e coesa não existe, é bom nós termos esta noção. Não existe um dono disto tudo, não existe um poder universal. O que nós temos é a vontade de alguns países, de vez em quando, se aliarem para resolverem determinados problemas supostamente e desejavelmente de acordo com mandatos das Nações Unidas. Isto é o mundo ideal e é o possível, não há mais do que isto. 

Portanto, a comunidade internacional não tem vontade própria. Tem a vontade dos países que a compõem e resoluções internacionais que o mundo conseguir fazer. Isto é muito complicado. Quem vai fazer alguma coisa? Os vizinhos do Afeganistão? Os parceiros regionais que estão mais próximos é que vão ajudar, como o Paquistão? É a Índia? É a Rússia? É a China? É o Irão? São os países que estão à volta do Afeganistão ou são os países mais afastados, como os Estados Unidos, a União Europeia, a Austrália, etecetera [etc.]? 

Como cidadãos podemos, junto dos nossos governos, mostrar obviamente a nossa insatisfação pelo não respeito por direitos humanos fundamentais. 

O problema está aqui, porque é que uns têm de resolver os problemas dos outros e alguns não. Tem que haver aqui um bocadinho de resolução. O que quero dizer com isto é que nós todos podemos fazer algo, como pessoas, de forma individual. Como cidadãos podemos, junto dos nossos governos, mostrar obviamente a nossa insatisfação pelo não respeito por direitos humanos fundamentais. E isso sim, nós podemos fazer valer a nossa voz e fazer com que haja vários projetos de auxílio, de apoio humanitário, de ajuda ao desenvolvimento… E que não haja forma de dar sem pedir garantias em troca. 

No fundo é isso. Garantir que os direitos das mulheres são respeitados, que as crianças possam ir à escola, que as mulheres possam ir trabalhar, que exista igualdade de direitos e não haja abuso de direitos… Isto é um exercício extremamente complicado. Mas numa comunidade internacional, como não há uma gestão diretiva, pode ser feito de várias maneiras. 

Disse que a ONU (Organização das Nações Unidas) não tem então em cima da mesa qualquer projeto de intervenção… 

A ONU tem um Conselho de Segurança. Logo no Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes e, como já reparou, eles não estão sempre de acordo. Primeiro tem que haver uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas com os cinco de acordo sobre o que é que poderiam fazer no Afeganistão. E não basta estarem de acordo sobre o que poderiam fazer. Tem de haver vontade de fazer. 

Eu acho que ficou muito claro que os Estados Unidos não tinham vontade de continuar. De tal maneira que disseram que tinham de sair. Portanto, neste momento, além de saber o que se pode fazer, é preciso saber se alguém tem vontade de gastar recursos, tempo, dinheiro e pessoas para tal. Mesmo que as Nações Unidas consigam juntar vontades para uma determinada deliberação, não quer dizer automaticamente que consigam juntar vontades para depois prosseguirem com essa determinação, como tantas vezes e em tantas regiões do mundo isso acontece. 

(…) uma coisa é aquilo que as pessoas querem, outra coisa é aquilo que se pode fazer e aquilo que a vontade determina. 

Nós sabemos que há fome, neste momento, no Sudão do Sul, e também sabemos que não há recursos para resolver o problema, porque a comunidade internacional está toda de acordo que é preciso ajudar, mas depois não dá os recursos necessários para que isso aconteça. A isso chama-se “realpolitik” [política realística]: uma coisa é aquilo que as pessoas querem, outra coisa é aquilo que se pode fazer e aquilo que a vontade determina. E estas coisas não andam sempre ligadas. 

Parece existir uma vontade por parte dos talibãs de terem uma boa relação com outros países. Há pouco tempo pediram para se retomar os voos internacionais, querem ser aceites… Existe essa possibilidade por parte dos países, de quererem algumas negociações? 

Ninguém sabe bem o que trará esta nova realidade, o que é que representam os líderes dos talibãs. Nós sabemos que estão lá membros deste governo que até há pouco tempo estavam, e ainda estão, na lista dos terroristas internacionais. Por exemplo, o Sirajuddin Haqqani, que é, neste momento, ministro do Interior e era o antigo líder de uma rede terrorista. 

(…) o histórico mostra-nos que, em 2001, os talibãs não respeitavam os direitos humanos como nós os entendemos, não respeitavam a separação do Estado e da religião como nós entendemos. 

Portanto, nós temos neste momento muita indefinição sobre o que é isto dos talibãs, porque não sabemos se o porta-voz dos talibãs está mesmo a representar aquilo que é a intenção política dos talibãs, e porque também ainda não tivemos tempo para verificar se pode haver confiança naquilo que dizem e naquilo que fazem. Porque o que nós sabemos é o histórico, e o histórico mostra-nos que, em 2001, os talibãs não respeitavam os direitos humanos como nós os entendemos, não respeitavam a separação do Estado e da religião como nós entendemos, e tinham um Estado quase medieval, isolado de tudo e de todos. 

Racionalmente, nós podemos sempre dizer assim: “Olha, eles têm todo o interesse em colaborar porque precisam de dinheiro, precisam de apoio, precisam da economia”. Mas o racional que nós estamos aqui a pôr pode não estar dentro do emocional e de outro tipo de raciocínio de quem lá está neste momento a liderar. É muito difícil de especular sobre as verdadeiras intenções e sobre o verdadeiro poder que alguns dos que falam têm. Uma coisa é o que nós ouvimos e outra coisa é ver o que verdadeiramente se está a passar no Afeganistão. 

Que previsões existem para o futuro do Afeganistão? 

Acho que ainda está tudo em aberto, os cenários estão todos em aberto neste momento. Ainda é muito cedo para sabermos o que é que vai dar esta situação, até porque existe uma crise humanitária, uma crise económica, uma crise política, uma crise securitária. Está tudo a acontecer ao mesmo tempo no Afeganistão e é muito difícil saber para que lado é que o país vai pender. 

One Comment

  1. Maria Almeida

    Artigo muito completo e muito esclarecedor. Bem hajam por isso

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