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Alianças insólitas na Líbia e a balcanização do Mali

A queda do regime líbio em outubro de 2011 abriu espaço a um indescritível caos que começa a contagiar os países da sub-região. Uma situação previsível tendo em conta a ausência quase total de instituições estatais e de uma administração incapaz de dar seguimento às políticas governamentais. A contribuir para a formação deste expectável caos está também a herança do clã Kaddafi, que incumbira a um xadrez de milícias garantirem a segurança.

Neste mosaico securitário líbio, idealizado por Kaddafi, estavam também tropas compostas essencialmente por tuaregues malianos, descendentes daqueles que se refugiaram na Líbia para escaparem às secas que assolaram o Sahel na década de 70, e que pertenciam às temíveis brigadas dos “corajosos”. Estes, em 1980 e particularmente a partir de 1990, foram naturalizados líbios por ordem de Kaddafi. Tal foi o caso de Mohamed Ag Najim, de origem maliana que aos 20 anos integrara as forças armadas líbias, combateu no Líbano e posteriormente no Chade na década de 80, um curriculum que lhe permitiu assumir a chefia das forças armadas do Movimento Nacional de Libertação da Azawad (MNLA) no Mali.

Um estado de graça que terminou em 2011 quando mercenários «negro africanos» e tuaregues, que Kaddafi contava para conservar o poder, acabaram por serem responsabilizados por uma ditadura que nunca tinha sido a deles. Assim, logo após a morte do Guia da Revolução Líbia, os tuaregues foram alvo de violentas purgas. Várias centenas morreram nas mãos da fúria de jovens combatentes sedentos de limpezas étnicas em conformidade com os seus códigos tribais.

Perante o massacre mais de 4 mil tuaregues retomaram o caminho inverso e regressaram à sua “pátria” no norte do Mali. Mas não regressaram sós, regressaram munidos de lança-mísseis, baterias antiaéreas e todo tipo de armamento proveniente dos stocks líbios que hoje ainda estão nas mãos de mercenários tuaregues.

Neste novo cenário os tuaregues assumiram uma nova missão: Elaborar os fundamentos de um estado azawadiano no Mali com valores inspirados nos preceitos do Alcorão.

Ciente da ameaça o presidente maliano tudo tentou para impedir reestruturação pretendida pelos tuaregues, tendo começado por encarregar o coronel Ag Gamou de integrar estes combatentes nas forças armadas malianas a fim de evitar que se aliassem aos grupos rebeldes já presentes na região. Mas o coronel não foi bem-sucedido na sua missão, porque muitos destes combatentes acabaram por integrar vários grupos e contribuir na formação do MNLA.

Na realidade o peso dos grupos jihadistas armados que já estavam instalados na região desde há vários anos, e aí marcaram o seu terreno a partir 2000, exerceram um peso significativo na tomada de decisão destes determinados combatentes. Uma influência que ainda hoje prevalece.

Cinco anos antes do retorno dos tuaregues perseguidos na Líbia pós Kaddafi, o mais notório dos jihadistas argelinos, Mokhtar Belmokhtar, casado com uma árabe lebrabiche, já circulava na cidade de Gao, no norte do Mali, e encontrava, quase todas as noites, perto da mesquita Kankou Moussa, um imame de origem mauritana. Argelinos, entre os quais Rachidal Batni, estavam de facto a preparar discretamente o terreno para o domínio islamista no norte do Mali. Um domínio que na realidade não alterou o ambiente local dado que uma parte significativa da população nestes territórios já tinha aderido aos ideais islamistas. A chegada das forças tuaregues da Líbia apenas veio reforçar as estruturas jihadistas já existentes.

A intervenção militar francesa, lançada em Janeiro de 2013, no quadro da Operação Serval, com a missão de desalojar os islamistas do norte do Mali, forçou os principais atores políticos locais a adotarem uma nova indumentária política, um destes casos foi com o Alto Conselho Unificado da Azawad (HCUA) que reunia o MNLA, Movimento Islâmico da Azawad (MIA) e o Movimento Árabe Azawad (MAA), um Alto Conselho que na realidade seria o grupo Ansar Dine. Porém esta intenção de unificação do mosaico político no norte do Mali não travou a evolução das crónicas fricções entre o MNLA e o HCUA.

Esta reorganização imposta estimulou todavia que os chefes tradicionais reforçassem os seus poderes através da nova ordem político-religiosa das tribos locais, mas também do lucrativo tráfico de droga. Um negócio que está a causar o desmoronamento da sociedade tradicional em benefício de interesses pessoais e que se traduziu no aparecimento de uma sólida burguesia especulativa.

Enquanto todos ainda aguardam por um regresso à paz, a cocaína continua a inundar a região e tornou-se num fator determinante nos relacionamentos entre todos os grupos terroristas, milícias governamentais ou de autodefesa que aqui coabitam. Neste sistema, onde os tuaregues são parte ativa, são fomentadas cooperações entre grupos rivais que operam no Sahel e no Magrebe, deste modo a evolução das alianças na Líbia, podem vir a criar cenários até agora considerados insólitos.

Os tuaregues na Líbia estão federados em torno do Madjlis Idjtimayi liqabail Tawareq (Conselho Social das tribos tuaregues), presidido por Kochein al Kouni. Em Oubari está baseado o um conselho militar tuaregue designado Itihad Saraya thouwar madinat Oubari (União dos grupos de combatentes de Oubari) cujos membros trabalham diretamente com Tripoli, dado que o governo presente na capital líbia ainda garante os salários aos militares tuaregues.

Isoladamente os tuaregues não representam uma força de peso face aos beligerantes de Tripoli e Benghazi. No entanto, juntamente com os berberes (Mozabitas) de Djebel Nefoussa formam uma ponte estratégica entre a Líbia e o Mali, assim como com a Argélia, a sul de Ghardaia, um conjunto de laços e poderosas conexões que se estendem até ao Sultanato de Omã.

Apesar dos tuaregues não terem relações diretas e compatibilidades doutrinárias com a organização terrorista Estado Islâmico na Líbia, têm afinidades estratégicas com o movimento Fajr Libya que defende a união de várias forças contra os toughat (tiranos) numa alusão direta a Khalifa Haftar, o qual designou os islamistas líbios como principais alvos das suas ações.

Com base na existência de um inimigo comum, encarnado por Khalifa Haftar e na sua esfera de aliados, e perante a probabilidade de uma ofensiva Ocidental na Líbia, credibiliza a possibilidade de uma aliança ocasional entre as várias correntes islamistas na Líbia juntando Fajr Líbia ao incompatível Estado Islâmico e este à sua rival AQMI com todo o seu arquipélago de grupúsculos terroristas, compondo uma legião islâmica onde os tuaregues terão como papel elementar na manutenção das pontes de ligação e comunicação entre as diversas forças na região. “Uma aliança insólita mas inevitável” prognosticou fonte tuaregue na Líbia.

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