Entrevista | Exclusivo

Anicete Dologuele: Candidato “da agricultura e do setor privado”

Anicet Dologuele, candidato às eleições presidenciais de 14 de Fevereiro de 2016 na República Centro-Africana, falou com a e-Global na sua sede de campanha, em Bangui, para estabelecer como prioridades da sua candidatura as apostas na agricultura e no setor privado para o desenvolvimento do país.

Dologuele apresenta-se nestas eleições como presidente do URCA, um partido que afirma pertencer à área social democrata. Ex primeiro-ministro e ex-ministro das finanças, além de ex quadro do banco DEAC, Dologuele afirma que o seu partido começou a preparar estas eleições em 2013 e criou um programa de governo em que o setor agrícola será a mola do desenvolvimento do país.

O projeto político de Dologuele assenta em dois vectores essenciais: a paz, segurança e reconciliação social, por um lado, e o desenvolvimento  do sector privado, condição essencial para sair da crise, por outro. Para sair da pobreza é preciso desenvolver o sector privado.

“Temos muitas riquezas e é preciso atrair os investidores privados, vivemos sobre a riqueza do nosso país, enterramos os nossos pais na riqueza, é preciso explorá-la. É preciso atrair o sector privado mas para isso é preciso criar condições. E quais são essas condições? A segurança, a justiça,  uma administração organizada para o rápido tratamento dos dossiers, a energia – vivemos no escuro – é preciso energia para as fábricas e ainda que o sector privado seja qualificado. O problema é que o sistema educativo está em queda, não há pessoas com formação e por isso não há pessoas com formação ou especializadas para desempenhar funções. Por isso, as poucas empresas que vêm acabam por recrutar os seus empregados nos camarões, no Congo,  e não na RCA. Devemos por isso desenvolver a mão de obra qualificada, pois não tem sequer uma escola para dar qualificações ás pessoas. É preciso por isso reformular todo o sistema educativo da RCA, para criar estas condições.  Dos operários até a Universidade. Devemos também dinamizar o espírito empreendedor, para que os centro-africanos não fiquem à espera do Estado e possam eles mesmos desenvolver as suas empresas e tornarem-se pequenos ou grandes empresários, mas que tenham a força para a iniciativa privada. Depois os restantes sectores como a saúde, isso é responsabilidade do estado que deverá financiar estes sectores através dos impostos,  mas para isso é preciso que hajam mais empresas que paguem impostos e aumentem a receita fiscal. O Estado depende por isso do desenvolvimento do sector privado e dos impostos. Do ponto de vista da segurança é fundamental terminar com os bandos armados e formar um exercito nacional.  É preciso muito dinheiro para isso, mas contamos com os parceiros internacionais.  Estamos intelectualmente preparados para esta mudança”, disse.

 

E-Global – Quais as maiores diferenças entre o seu programa e o do seu adversário, Touadera?

Anicet Dologuele – Não conheço o programa de Taoudera. Ao nível político é preciso que o políticos parem de ter o povo como refém. A política não é uma distribuição de bolos. É preciso reunificar e reconciliar a  população,  é essa que é preciso reconciliar porque foi essa que se degladiou, se aniquilou, se matou.  Não foram os políticos.  Não é um problema de homens políticos. Não há dirigentes políticos que tenham sido mortos. É preciso que se reconcilie a população através de compromissos políticos.  É preciso que os políticos estejam na política pelo país e não pelo seu partido. É preciso  que os políticos sejam atores da reconciliação através de um novo dialogo político. Que os políticos estejam ao serviço do povo, é isso que desejamos fazer.

Qual o papel principal da RCA na geopolítica da região?

A  RCA é o elo mais fraco na região. Os outros ajudam-nos a resolver os nossos problemas e constituímos uma vulnerabilidade para os nossos vizinhos. Para uma melhor integração regional é preciso que a segurança seja reforçada no país e que possamos mostrar que o país está a caminho de criar um ambiente mais seguro ao nível interno e que isso seja um factor de confiança para os nossos vizinhos.

É preciso apoio internacional para que possamos ter segurança . Relativamente à integração económica poderemos ser o celeiro de África. Temos 6 000 000 de hectares de pastagens, podemos fornecer carne de qualidade, fornecer cereais a toda África. Muitos países produzem petróleo, outros madeira, mas é preciso que encontremos o nosso lugar na economia regional, o nosso nicho de mercado que nos possa fazer desenvolver os sectores que possuímos com maiores potencialidades, nomeadamente o agrícola. A exploração de petróleo e de outros recursos terá que ser feita numa segunda fase, pois primeiro é preciso criar bases sólidas e recorrer ao que temos. Neste momento não há dinheiro, é preciso produzir primeiro para haver dinheiro depois.

Relativamente ao investimento estrangeiro e do ponto de vista dos procedimentos legais para a abertura de empresas estrangeiras, é preciso que agilizem formas céleres de  criar empresas. Depois nós temos bons restaurantes, temos belezas naturais e isso atrai os homens de negócios.

No plano securitário qual o papel da RCA na sub-região?

Neste momento, o papel da RCA é o de inquietar os outros. Não temos exército, temos bandos armados que ameaçam os nossos vizinhos. Por isso é preciso desarmar, criar um exército e eliminar  os problemas internos – grupos armados – garantindo a segurança das fronteiras. Mas isso exige muita cooperação com os nossos países vizinhos. Cooperação na vigilância das fronteiras, nomeadamente com a criação de patrulhas mistas, formação dos quadros de segurança e militares das RCA, cooperação ao nível dos Serviços de Informações, enfim cooperação em todos os domínios da segurança para que haja estabilidade.

A RCA está na fronteira entre o mundo muçulmano e o mundo Cristão, do Sahel à África da Savana, a RCA está no centro dessa decisão.

Qual o futuro da missões militares e policiais estrangeiras na RCA?

A presença estrangeira das forças Sangaris e das NU é fundamental e reduziu as ameaças nas fronteiras e isso permite criar condições para a formação de um exército nacional também com o seu apoio na formação. Em segundo lugar contribuiu para controlar as forças negativas , nomeadamente Anti-Balaka, ex-Seleka, etc. Se há um novo ambiente de segurança, deve-se a essas forças internacionais, são eles que nos permitem viver em paz. Mas elas não são eternas e são caras, por isso urge formar as nossas próprias forças de segurança.

Quais as primeiras medidas a tomar para o desenvolvimento económico do pais após as eleições? 

A prioridade é garantir a continuidade dos projetos empresariais que estão em marcha. É fundamental que as empresas que já estão na RCA possam continuar a laborar em paz. Isto implica a securização do eixo vital Bangui-Douala. Esta é uma zona de frequentes assaltos e as empresas reduziram as suas atividades porque as mercadorias desaparecem fruto dos assaltos dos grupos armados. E ao decrescer a atividade empresarial desce a receita fiscal. Por isso é fundamental que este eixo seja seguro para que as empresas voltem à sua atividade normal.  Depois de estabilizado este eixo outras medidas poderão ser implementadas.

Qual o papel dos empresários estrangeiros na exploração dos recursos naturais?

A nossa principal riqueza é a agricultura e o que é preciso é dimensionar a agricultura a uma grande escala. E esta agricultura a grande escala permitirá aos agricultores ter uma vida melhor, ter melhores condições de vida, e isso vai mudar a sua forma de vida.  É fundamental que as empresas tenham também um projeto social.

Os jovens têm que ser formados em termos empresariais, em torno do conceito agro-bussiness, ou seja, além de agricultores têm que ser também empresários. Mesmo que seja uma empresa pequena, uma pequena exploração agrícola deverá ser gerida como um empresa. É preciso que os centro-africanos se interessem pela terra. Depois temos os diamantes e o ouro que neste momento são explorados de forma meramente artesanal. É preciso que esta exploração se transforme de artesanal em semi-industrial e depois em industrial. Depois as explorações florestais  – em que a transformação assume um papel principal para que possamos entrar logo na cadeia de valor mundial, criando produtos de qualidade – tornando a madeira numa imagem de marca da RCA. A carne é outros dos produtos que nos pode dar um valor acrescentado. A criação de produtos de marca de qualidade é vital para a nossa economia. Não podemos pensar no petróleo e no urânio já, porque para isso é preciso que nos organizemos. Primeiro organizamo-nos e a seguir, 6 ou 7 anos depois, podemos então pensar no petróleo.

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