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Associação de mulheres santomenses em Portugal – Mé Non. Objetivo crescer.

Olho para o meu país com preocupação, pois a educação e a saúde tem de ser reforçadas, são questões primárias e sem essas estruturas fortes nenhuma sociedade vai adiante.

 

 

A Associação de mulheres santomenses em Portugal – Mé non, associação que congrega as mulheres de S. Tomé e Príncipe a residir e/ou trabalhar em Portugal comemorou recentemente o 10º aniversário. A presidente atual, Ilidiacolina Vera Cruz, em conversa telefónica com o e-global.pt, garantiu que a situação das mulheres migrantes tem mudado ao longo dos anos, havendo agora um maior apoio à diáspora, mas o caminho tem sido duro e para que a situação das mulheres migrantes santomenses melhore também é imperativo que São Tomé e Princípe faça esforços no desenvolvimento da educação e saúde, para que o país não continue a depender tanto do exterior.

 

Antes de mais, qual o significado de Mé non, por que razão foi criada e pensada esta Associação?

 

A Mé Non significa no nosso crioulo forro “a nossa mãe” e surgiu tendo em conta o contexto migratório de São Tomé, pois as mulheres são aquelas que passam por maiores dificuldades quando emigram. Depois também se pensou nas mulheres santomenses que vêm para Portugal doentes ou com filhos doentes, como acompanhantes e quando chegavam a Portugal revelavam imensas dificuldades de integração. A Associação representa esta filosofia para toda a comunidade migrante em geral, não só em relação às mulheres, em relação a todos os que nos procuram e pedem ajuda.

 

 

Ao longo destes dez anos que diferenças existem no processo migratório? O que é que mudou?

 

Eu acredito que ao nível de obtenção de documentos e integração, ao nível da aceitação da pessoa como imigrante, profissional e até no que diz respeito às condições de habitação, a situação melhorou imenso, também porque o próprio país de acolhimento começou a trabalhar mais na integração da comunidade, desde logo com um processo de legalização mais célere e isso tem facilitado todo o processo. Mas, por outro lado, a empregabilidade não mudou, continua muito precária e com esta situação de pandemia a situação piorou ainda mais.

 

Esta situação pandémica veio agudizar ainda mais estes problemas? Tem-se vindo a notar mais pedidos de ajuda?

 

Sim, principalmente aqueles que viviam da economia informal. De qualquer forma eu queria enaltecer o papel das mulheres migrantes que na maior parte das vezes nunca pararam de trabalhar, estiveram sempre na linha da frente, mesmo sendo precárias. São elas que estão sempre nas casas, nos escritórios e também nos hospitais e nas escolas, como médicas, professoras, enfermeiras, Elas conseguiram estar na linha da frente, mesmo falando de professoras, médicas, enfermeiras, que também as há, ao longo destes 10 anos tem havido imensos progressos ao nível profissional…

 

Mas sente que, de alguma forma, ainda falta esse reconhecimento profissional?

 

Sim, essa é a parte que acredito que tem de ser trabalhada a par com a discriminação racial, que hoje em dia ainda existe. É algo que ainda vai levar o seu tempo.

 

E há quanto tempo é que já está em Portugal?

 

Há 25 anos que vim para Portugal, na condição de estudante e fui ficando, até agora.

 

E visita São Tomé com regularidade?

 

Sim, sempre que posso visito São Tome, ainda no ano passado lá estive. Existe um cordão umbilical muito grande com a minha terra.

 

E que mudanças observa no país?

 

Para dizer a verdade não gosto de falar de São Tomé a nível político, visto que a Mé Non é uma associação apartidária. Olho para o meu país com preocupação, pois a educação e a saúde tem de ser reforçadas, são questões primárias e sem essas estruturas fortes nenhuma sociedade vai adiante. Até hoje ainda continuamos a enviar pessoas para Portugal para serem tratadas e esse é um desafio enorme que o governo actual tem nas mãos, mas eu sou muito esperançosa e como o país é todo verde, eu fico com esperança que o meu país resolva estas lacunas que ainda subsistem… Ao nível da educação é necessário agarrar os jovens e que se possa dar estrutura à camada jovem ao nível dos valores, que sintam que podem vir a dar no futuro muito de si.

 

Falámos muitos dos doentes que continuam a necessitar de cuidados de saúde em Portugal, mas com a pandemia como está esse processo?

 

Ainda se continua a fazer, mas com maior dificuldade, com todo este processo ao nível de documentos e testes, mas eu acredito que para aqueles que estão numa situação muito complicada tenta sempre garantir-se assistência. Mas o país tem de pensar nisto, não se pode continuar a exportar doentes.

 

E quando se vem para Portugal nessa situação, as condições já melhoraram? Como é que a Associação entra nesse processo?

 

A  Associação entra aí como intermediária, mas a situação no geral não mudou. A maior parte das pessoas se  não tiverem boas condições financeiras ou familiares que as possam ajudar, acabam por passar por imensas dificuldades. A Associação tem feito alguns contactos ao nível de alojamento e trabalhamos em parceria com a embaixada, mas ainda não há uma melhoria significativa, muitas vezes não conseguimos. Essa é uma preocupação nossa.

 

É também necessário um maior apoio do Estado Português?

 

A parte financeira é a parte mais complicada. A Associação vive das próprias atividades e associados que doam valores, géneros alimentícios, roupas… agora se houvesse um maior financiamento, poder-se-ia fazer muito mais. Muitas das vezes a Associação não pode canalizar todo o seu financiamento para este tipo de ajuda.

 

A 22 de Setembro comemoraram-se 10 anos. Como se tem feito esta regeneração da associação?

 

Estamos cada vez com mais associados, mas, infelizmente, a juventude ainda se mantém um pouco distante. Mas, como trabalhamos em rede contactamos com muitos grupos de jovens trabalhamos sempre em parceria, mas é sempre uma faixa etária mais velha, a partir dos 35 para a frente.

Além disso, nós somos membros da plataforma portuguesa para os direitos das mulheres, que é uma plataforma que nos aporta para outras abordagens, para a própria estrutura do feminismo, onde desenvolvemos áreas de capacitação em várias vertentes. Fazemos parte também da rede europeia de mulheres migrantes, que é um caminho que também tem de ser desenvolvido e que irá abrir portas para que a Mé Non cresça a nível internacional. O nosso único senão é que todas trabalhamos por conta de outrem e agora já se torna necessário ter uma outra estrutura.

A pandemia surgiu numa altura em que a organização estava a dar um salto qualificativo, mas apesar disso não parámos, as nossas atividades continuam e o nosso grande objectivo é crescer!

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