Brasil | Entrevista | Exclusivo | Igor Lopes

Brasil: Eleições municipais. “O Rio de Janeiro hoje é o grande desafio do Brasil”, enfatiza Fernando Veloso, lusodescendente candidato a vice-prefeito na cidade maravilhosa.

O lusodescendente Fernando da Silva Veloso é candidato a vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Ele integra uma chapa liderada por Luís Lima, atualmente, um dos vice-líderes do governo brasileiro na Câmara Federal.

Com raízes na região do Minho, Fernando Veloso fez carreira como delegado, foi chefe de Polícia Civil do Estado do Rio e é formado em Direito. Este responsável, que nasceu em 1965, afirma estar convicto de que “está na hora de o Rio enfrentar a crise”, diz ser “leitor entusiasmado de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e José Saramago” e reitera que uma das saídas para recuperar o futuro da cidade é apostar nos jovens. Veloso defende ainda que a área da “segurança pública é fundamental tanto para a qualidade de vida como para a retomada económica” carioca.

Em entrevista à nossa reportagem, Fernando Veloso sublinhou o que pensa fazer, se eleito, pelo Rio na qualidade de vice-prefeito, ressaltou os desafios da cidade maravilhosa, comentou sobre como os gestores públicos devem olhar para a cidade e revelou os locais que mais lhe fazem recordar Portugal no Rio.

O que motivou a sua candidatura?

A necessidade de apresentar ao Rio de Janeiro uma candidatura de perfil conservador em contraposição à atual gestão da prefeitura. O governo municipal é um fracasso em todos os sentidos. A cidade vive uma situação de absoluto caos e abandono. O prefeito sofre sucessivos processos de afastamento contidos com “mão de ferro” no legislativo através da barganha política. A prova disso é a própria opinião pública. Um político que tem uma igreja, um canal de televisão e a máquina do governo e ostenta baixíssimos indicadores de intenção de voto. A nossa projeção é que ele sequer irá para a segunda volta das eleições. Existem muitos candidatos, mas a minha candidatura é a única que reúne integridade, capacidade de gestão, não está ligada a grupos que já governaram a cidade e foram mal sucedidos e subscreve uma matriz ideológica conservadora.

Que desafios a prefeitura do Rio terá numa época pós-pandemia?

Creio que os desafios são os mesmos para todas as grandes cidades de países em desenvolvimento: o sistema de saúde dar conta da enorme demanda reprimida de atendimentos não relacionados ao Covid-19, eis que muitas pessoas deixaram de buscar os serviços de saúde de natureza diversa durante a pandemia; a recuperação no setor da educação na medida em que teremos (na prática) dois anos letivos simultâneos; e a recuperação da economia colapsada pelo isolamento. No caso do Rio de Janeiro, a questão se agrava pelas incertezas de recuperação do setor do turismo que responde por significativa parcela do Produto Interno Bruto (PIB) do município.

Como o Covid-19 está a mudar o Rio?

A cidade viveu momentos de isolamento social mais intenso, intercalados por etapas de maior liberdade de convívio. Nas áreas de maior vulnerabilidade económica, o uso de máscaras chega a ser raro e as praias lotam em cada domingo ensolarado. No entanto, as pessoas estão mais atentas com hábitos de higiene, o comércio e o setor de serviços implantaram novas rotinas que parcialmente deverão permanecer o que poderá trazer resultado positivo quanto à transmissão de outras doenças que se utilizam da mesma via de transmissão.

É a primeira vez concorre?

Sim, nunca havia sentido necessidade de dar a minha contribuição para o meu país fora do meu campo profissional como servidor público, na área da segurança. É um desafio suficientemente complexo e grave para absorver a totalidade dos meus esforços e atitudes na dimensão da cidadania. Ocorre que percebi que a falta de vontade política e a incapacidade dos governantes interferem de maneira decisiva no sucesso de uma política de segurança pública, o que demanda uma participação maior no processo decisório.

Que planos tem, como vice-prefeito, para a cidade do Rio de Janeiro?

A minha prioridade, naturalmente, será a segurança pública, tendo em mente que esta política depende do sucesso de outras políticas de governo. Como o plano de governo foi construído pelos dois partidos de forma equânime, o meu compromisso, naturalmente, é com a implantação deste documento programático.

O que pretende fazer pela cidade?

O que está no nosso Plano de Governo é um documento extenso que traz o diagnóstico dos principais problemas e aponta soluções para enfrentá-los. O Rio tem hoje grandes problemas na área da saúde, que estão ainda mais evidenciados nesta época de pandemia.

Se for eleito, e tendo em vista a possível existência de uma vacina contra o Covid-19 já em 2021, como pensa a estratégia de imunização da população do Rio?

Vamos seguir as orientações da Organização Mundial de Saúde.

Como enxerga todos os problemas atuais de casos de corrupção no Rio?

Precisamos acabar com essa história de dinheiro na cueca, todo o dia é um que vai preso. Acontece que troca o ladrão, mas não acaba com o roubo. Tem de prender o vagabundo, no caso um agente público, enquanto está roubando e não esperar ele ficar rico e contratar advogado de gente rica para se dar bem. Precisa investigar o governo durante o governo, e não depois que acaba. Fiscalizar ao mesmo tempo em que as ações de governo acontecem e não depois de acontecerem. Precisa atuar de forma preventiva ao desvio, de forma antecipada ao roubo do dinheiro do governo. Viu evidência de corrupção? Então, abre investigação e prende em flagrante. Vamos atuar em parceria com o Ministério Público Federal e Estadual, em ação conjunta. Fortalecer o Tribunal de Contas do Município, seguindo as orientações que hoje são tantas vezes ignoradas. Não é possível fazer pouco caso diante de denúncias e alertas sobre o mau uso do dinheiro do povo. Importante relembrar o escândalo da Prefeitura que pagava os fornecedores fora da ordem? “Furando a fila”, mandando pagar uns na frente dos outros, um absurdo contra a lei, que já tinha sido visto pelo Tribunal de Contas, que mandou parar com isso, mas ninguém do governo levou à sério e deu no que deu.

A segurança pública é um dos temas que mais preocupa os cariocas. Como pode trabalhar esse assunto?

A questão da segurança só vai funcionar se acontecerem duas coisas: primeiro, o prefeito parar de se fazer de besta e ficar empurrando o problema com a barriga, dizendo que segurança não é assunto de prefeito. É responsabilidade da prefeitura sim, e precisamos encarar o problema. A gente precisa de mais polícia, de polícia municipal, aumentar o efetivo da guarda chamando os concursados, criar o grupamento especial armado e, o mais importante, precisa fazer os sistemas trabalharem juntos. Os governos federal, estadual e municipal precisam trocar informações, atuarem de maneira articulada juntarem forças para melhor enfrentar a criminalidade. As Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs) não funcionaram pela razão que todo mundo sabia! Policiamento não pode ser isolado, sem o apoio, sem a retaguarda da assistência social, sem oferecer oportunidade de emprego. E o que é muito importante: é a educação profissional que essa juventude precisa para se qualificar e, aí sim, arrumar emprego bom. Emprego com contrato para ir crescendo conforme for passando o tempo, ganhando mais e fazendo a vida com educação, dedicação e honestidade.

Que planos têm para as áreas de educação e cultura?

Toda a política social da prefeitura, os CRAS, a saúde da família, a geração de oportunidades de emprego, no auxílio, na inclusão, no desporto e na cultura precisa vir da escola. Não é de hoje a certeza de que é necessário atender o aluno no contexto da família, a criança no mundo em que ela vive. Educação Integral, mas atendimento integral das pessoas que vivem juntas. Será que resolve cuidar de uma mãe que sofre de depressão ou está em situação de risco sem ter um emprego para oferecer, para mudar a vida da pessoa? Sem indicar a oportunidade de estudar enquanto estiver trabalhando para progredir na vida, no currículo, aprendendo coisas importantes para progredir no emprego? Conforme a pessoa vai se qualificando no trabalho, vai melhorando de vida e isso atinge a família toda. Os estudantes estão nas escolas todos os dias e é por isso que a nossa referência precisa ser os jovens. É a partir deles que o atendimento precisa ser feito. O aluno da escola da prefeitura ou do estado vai ter um número onde se regista um conjunto de necessidades, que passam pela assistência, pelo auxílio, pelas oportunidades e principalmente pelo médico atendendo todos que moram com ela ou com ele. Curando e prevenindo através da orientação. Nós precisamos prevenir os problemas, as doenças, as crises e as perdas que desmancham tantas famílias. E o caminho é fortalecer a escola e parar de jogar dinheiro no lixo com esses governos onde cada partido só enxerga o que é seu. Onde cada um só quer saber de fortalecer a política e esquecem do povo. Cada escola vai comandar a política social do governo, cada diretora vai ser fortalecida e só assim vamos conseguir fazer as secretarias trabalharem juntas, chega de bagunça, de bater cabeça cada um puxando a corda para um lado e não chegando a lugar algum.

Fazem parte da meta da sua chapa a recuperação económica do Rio e a criação de empregos?

Apoiando a ideia de, ao invés de ser empregado, ser patrão. Montar o seu negócio, chamando os seus amigos e vizinhos com dinheiro emprestado com juros super baratos e prazo de carência para começar a pagar. Um prazo até que se acabe de pagar o investimento do negócio e começar a ganhar dinheiro. Outro caminho é o das cooperativas, onde as pessoas se juntam para montar uma empresa, cada um faz a sua parte e juntando o trabalho de todo mundo dá para competir no mercado. Vamos imaginar 50 costureiras, nem todas tem máquinas de costura modernas, outras precisam de máquinas para acabamentos diferentes, por exemplo. A prefeitura ajuda a organizar, financia todo o equipamento, cada participante da cooperativa faz uma parte de uma bolsa, outras se juntam para determinadas peças de roupa e a união desse trabalho dá para vender para grandes lojas ou abrir o seu próprio comércio. Tem tanta loja fechada por causa da crise, está na hora de o Rio enfrentar a crise. Uma incubadora, uma fábrica de cooperativas em cada um dos 26 bairros da região e outras em lugares onde é necessário oferecer renda, trabalho, sustento para as famílias. Na cooperativa, as pessoas se unem para produzir e vender produtos e serviços, e cada um é dono do seu nariz, fornece e recebe conforme. Você trabalha pelo sucesso do negócio, mas não tem chefe, é um sistema moderno, que funciona bem e vai dar certo.

De que forma o seu passado profissional como delegado pode ajudar o Rio de Janeiro?

Creio que a questão da segurança pública é fundamental tanto para a qualidade de vida como para a retomada económica. A minha experiência nesta área é vasta. A segurança pública está cada dia mais claro, depende fundamentalmente de integração operacional e de inteligência com as demais esferas de governo. Com a minha formação técnica na área, aliada a envergadura do cargo de vice-prefeito, essa articulação será mais fácil, rápida, produtiva e eficiente.

Como está formatada a sua equipa de governo? Quem é o candidato a Prefeito pelo seu partido?

O partido ao qual sou integrante decidiu democraticamente, em convenção municipal, a aliança com o Partido Social Liberal (PSL), formando a chapa com o Luís Lima, que é, atualmente, um dos vice-líderes do governo na Câmara Federal. Luís Lima é uma pessoa extremamente determinada, disciplinada e que já demonstrou capacidade administrativa, tendo feito uma gestão bastante reconhecida, inclusive pelos órgãos de controlo da despesa pública, à frente da Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento. Atleta olímpico consagrado internacionalmente, Luís Lima tem um passado limpo e está, assim como eu, descomprometido das forças políticas que governaram o Rio no passado e levaram a cidade à situação de calamidade na qual se encontra hoje.

Como deve ser o relacionamento do governo do Rio com o governo federal?

Deve ser de total integração. Num primeiro momento, será imprescindível tirar a cidade da situação de quase falência, na qual a irresponsabilidade do atual prefeito a colocou. Passada esta etapa, vamos procurar toda a articulação possível com o Governo Federal, como também com o governo do estado do Rio de Janeiro. A relação do Luís Lima com o presidente Jair Bolsonaro será, não tenho dúvida, um facilitador deste processo. Fora isto, o Partido Social Democrático (PSD) integra a base do governo da União.

Que recordações tem da época de delegado?

A minha trajetória de vida é de empreendedorismo desde muito cedo. Tive de ser emancipado para montar o meu primeiro negócio. E, durante anos, desenvolvi diversas atividades no ramo privado. Alguns amigos me convidaram para integrar um grupo de estudos para prestar concurso público. Fui oficial de justiça e passei no concurso para delegado. Foi nesta atividade que descobri a minha verdadeira vocação: proteger as pessoas, defender a vida e servir ao meu país. Como chefe da polícia do estado do Rio, desenvolvi muitos projetos voltados para humanização e desburocratização do atendimento das pessoas pela polícia. Outra experiência muito positiva que pretendo carregar para a prefeitura é a minha capacidade de ouvir os dirigentes dos órgãos de governo e não apenas o alto escalão. Quando fui chefe de polícia realizava uma oitiva toda a quarta-feira e, com isso, surgiram soluções e eu tomei conhecimento de problemas que não surgiriam pela via dos modelos tradicionais de gestão. Na minha gestão, quebrei um paradigma. Ainda no campo da gestão cidadã, criei um organismo com gestão de policiais de alto nível, onde o cidadão tinha acesso a um canal de comunicação eficiente e valorizado. A polícia tradicionalmente se organiza em grupos. Eu nunca me alinhei com grupo algum e consegui produzir uma gestão transversal, uma administração baseada em competência, mérito e resultados, que trouxe dentre outros benefícios uma significativa integração no seio da corporação.

Dessa experiência, o que pode ser implementado na cidade do Rio?

Creio que o gestor público que tem experiência na iniciativa privada leva vantagem. Quem é político profissional, nunca se levantou cedo para trabalhar, jamais viu o quanto é difícil tocar um negócio, gerar emprego, pagar impostos não está apto a governar. Eu sei o quanto de suor é necessário para arcar com a alta carga tributária do Brasil e o quanto o governo pode atrapalhar a atividade económica, em especial do pequeno e médio empresário. Esta é uma das principais razões que alimentam a minha indignação com a corrupção.

Vai concorrer por qual partido? Qual é a orientação política do partido?

O PSD, Partido Social Democrático, é um partido de centro, de cunho conservador.

Quais são as suas ligações a Portugal?

Sou filho de portugueses tanto por parte de mãe como de pai, fui o primeiro membro da família a nascer em solo brasileiro, a minha família é de agricultores, cultivadores de terras inclinadas. O meu pai é de Braga e a minha mãe é da região do Minho. Sou apaixonado por Portugal, já visitei a minha família e o país inúmeras vezes. Inclusive, percorri milhares de quilómetros de moto para conhecer as diversas culturas e regiões. A comida portuguesa faz parte da minha vida, mas, principalmente, a cultura e a história.

Quais locais prefere em Portugal?

Escola de Sagres e o Monumento aos Grandes Navegadores, acho que este espírito empreendedor de encarar desafios está no meu sangue português. Outra questão muito marcante foi quando visitei Fátima com o meu pai, a minha mãe e o meu irmão, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Fomos pagar uma promessa e até hoje me emociona pensar naquele local sagrado e na nossa experiência.

Tem alguma interação com a comunidade ou cultura de Portugal no Brasil, no Rio?

Sim, tenho muitos amigos da comunidade portuguesa e nos reunimos com frequência.

Que locais de influência portuguesa gosta de frequentar no Rio?

Sempre que posso visito o Real Gabinete Português de Leitura, adoro almoçar no Adegão Português, o Outeiro da Glória faz parte da minha biografia. Além disso, sou um leitor entusiasmado de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e José Saramago.

Que mensagem deixa para os cariocas? Ainda é possível ter esperança na recuperação do Rio?

Desde a promulgação da Constituição de 1988, que promoveu o restabelecimento do regime democrático no nosso país, o povo foi às urnas cerca de 20 vezes para eleger os seus representantes e governantes. E, ao longo desses mais de 30 anos, o que podemos verificar é que a cidadania brasileira foi mergulhando numa grande frustração, construindo uma justa desconfiança e, sem medo de estar exagerando, o que se percebe na maioria dos corações dos eleitores é um sentimento de desprezo para com os políticos e a política, de forma generalizada. (…) A sociedade percebeu que é capaz de mudar o político, no entanto é incapaz de mudar a política; que os seus interesses dificilmente se colocam em primeiro plano; que votar no que se mostra como o menos ruim é a regra. (…) O Rio de Janeiro hoje é o grande desafio do Brasil. Recuperar a nossa cidade da quase falência é tarefa difícil que exigirá um governo competente e criativo, que valorize a cidadania e invista prioritariamente no oferecimento de oportunidades para a nossa população. Governar com recursos sobrando é fácil. As grandes obras saem do papel na medida em que o dinheiro é repassado para a Prefeitura. Hoje, a realidade é completamente diferente. Administrar a cidade colocando o poder público à serviço dos interesses de alguns, abandonando a maioria e priorizando os aliados em detrimento de quem realmente necessita é muito triste. É marginalizar quem já se encontra à margem da sociedade, é virar as costas para a inclusão, é apostar numa sociedade de castas. Ver milhares de pessoas vivendo sob o domínio do medo, do silencioso ranger de dentes, da incerteza diante do futuro e da certeza do sofrimento, num dia a dia, onde a sensação de derrota se renova todas as manhãs, é absolutamente inaceitável. Quem acha que a indiferença é o único sentimento que nos resta, perdeu a humanidade que adquiriu desde o nascimento. (…) Ninguém suporta mais os governos que se revezam, mas não transformam, as gentes que adquirem valor somente em época de eleição, as prioridades esquecidas, e largadas ao lado do cinismo das promessas falsas. (…) Não somos obrigados a aceitar a realidade que parece nos ser imposta e imutável, tal qual uma maldição.

Ígor Lopes

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