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Eleições presidenciais na Costa do Marfim. Sociedade civil alerta para tensão vivida.

Perante o atual cenário político e securitário da Costa do Marfim a E-Global tentou identificar individualidades de facções independentes. Para tal entrevistámos Samba David, escritor, ator da sociedade civil costa-marfinense, coordenador nacional da Coligação das nações da Costa do Marfim e defensor dos Direitos do Homem.

 

P: Como vê o desenrolar da situação política e securitária durante a próxima semana, tendo em conta que as eleições se realizam no dia 31 Outubro de 2020?

R: A próxima semana, que será a menos de cinco dias da eleição presidencial, será o momento mais quente tanto politicamente como securitariamente, no caso de o presidente cessante, Sr. Alassane Dramane Ouattara, não mude de ideias. Os acontecimentos da próxima semana dependem dele. O que se passa já anuncia a tensão a alguns dias do 31 de Outubro de 2020.

P: Na sua opinião, qual a solução que este regime deve apresentar de forma sustentada à oposição para que as eleições se realizem democraticamente e sem ações de violência? Que propostas poderá o regime fazer aos partidos da Oposição?

R: É verdade que é a oposição que está na linha de mira desta luta, o que se passa hoje está além de um acordo político. É mais o povo da Costa do Marfim pela voz dos políticos e da sociedade civil que exigem de Alassane Dramane Ouattara o respeito da Constituição, a alma do nosso país.

Então, para que as eleições decorram democraticamente e sem violência, como sublinha, é necessário:

O adiamento das eleições presidenciais;
A sua retirada da corrida às eleições presidenciais;
O regresso à Costa do Marfim dos exilados políticos, à sua cabeça o ex presidente Laurent Gbagbo, o ex ministro Charles Blé Goudé, o ex presidente da Assembleia Nacional Soro Guillaume e o ex presidente da Comuna do Plateau;
A reforma da CEI e do Conselho Constitucional, instituições que estão na base do conflito político atual.

Eu penso que para o desenrolar democrático das eleições presidenciais, devemos ignorar outros acordos com os partidos políticos por respeito a tudo o que acabo de enumerar. Mas se estiver a fazer alusão ao presidente cessante e aquilo que se vai passar a seguir, então é o povo que vai decidir pela voz de um tribunal verdadeiramente independente, porque cada um terá que responder pelos seus actos doente dele.

P: Considerando a escalada de violência nas ruas, e havendo acusações contra certos partidos da oposição de estarem a inflamar os ânimos para impedir o escrutínio eleitoral, e as consequência graves que esbarram na integridade física dos cidadãos marfinenses, como olha para esta situação no quadro da defesa dos Direitos Humanos, que está fortemente a ser posto em causa pelos instigadores de ações com recurso a armas brancas que têm ocorrido nos últimos dias, como o recente ataque ao campus universitário em Cocody?

R: A questão dos direitos do Homem é sempre um ponto de vista e muito teórico. Da minha parte, penso que para falar de direitos do homem é necessário estar num Estado de Direito. A Costa do Marfim sob este regime edificou-se num Estado de não direito. O que se passa hoje neste período eleitoral é o que as populações marfinenses sempre viveram. É talvez graças às eleições presidenciais que o mundo inteiro está com os olhos postos no nosso país e percebe como os povos da Costa do Marfim são maltratados, mortos, presos e privados de espaços cívicos desde o governo de Alassane Dramane Ouattara.

Alassane Dramane Ouattara é o instigador da violência no nosso país. Para ele, tudo se resume a músculos, para ele o diálogo é uma fraqueza. Portanto, o que está a acontecer, como a violência, é o Sr. Alassane Dramane Ouattara e os seus subordinados que estão a mandar bandos armados para diferentes cidades e bairros, para evitar que as pessoas se expressem e se manifestem. Perante esta violência, renovada por parte dos homens de Alassane Dramane, os povos que militam pelo respeito à Constituição e à oposição estão em legítima defesa.
As quebras e destruição de equipamento que ocorrem em Abidjan são orquestrações do poder para acusar injustamente os manifestantes do NÃO ao terceiro mandato de Alassane Dramane Ouattara. Caso contrário, como entender que o poder esteja a prender os pobres manifestantes com as próprias mãos e não se digne a procurar e prender quem mata e incendeia os bens dos adversários e da população. É perceber isto e ver nisto alguma coisa.

P: Ainda no quadro dos Direitos Humanos, quer explicar como foram os seus três anos de detenção e como explica o recente ataque contra si, bem como as ameaças que lhe foram dirigidas?

R: Obrigado mais uma vez por me dar a oportunidade de comentar sobre os três anos sombrios da minha vida e que aproveitei em meu benefício, mantendo coisas positivas que aumentaram minha determinação em defender os direitos humanos e entender o quanto o meu país precisa de mais coesão e de uma sociedade civil forte, para solidificar a nossa sociedade por meio do respeito aos direitos humanos e da responsabilidade na gestão dos assuntos públicos.

No entanto, olho para trás e para os meus três anos de privação dos meus direitos fundamentais. Na sequência de uma crítica e denúncia da constituição pelo atual Conselho Constitucional, fui sequestrado em 13 de setembro de 2015 por volta das 15h00 de minha casa em Abidjan /Yopougon, por oito encapuzados, numa missão de repressão do regime de Abidjan.

Depois de ser espancado e de ter a minha casa minuciosamente revistada fui puxado para o porta-malas de um carro, com as mãos algemadas nas costas e com uma das saias da minha noiva a cobrir o meu rosto.
Fui levado ao quartel da polícia, ainda no porta-malas de um carro. Tratado como animal por quatro dias nesta sede policial, no dia 17 de setembro de 2015 fui depositado no DST (direção de Vigilância Territorial) que é na verdade um local de tortura do regime.

As condições eram todas desumanas, mas ainda mais cruéis para os cidadãos anónimos que por ali passavam simplesmente por terem denunciado os militantes do regime como inimigos do regime.

Passei três meses neste suplício, de 17 de setembro a 15 de dezembro de 2015, fui depositado na MACA (prisão e centro de correção de Abidjan), uma prisão construída para 1.500 pessoas, estávamos lá entre 6.500 e 7.000 em período de 15 de dezembro de 2015 a 16 de março de 2018, e às 4h, data em que fui deportado para o MACKO (Centro de Detenção e Correção de Korhogo), onde fiquei de 16 de março de 2018 a 11 de julho 2018, em condições mais terríveis.

Durante toda a minha estada, o meu direito à saúde foi-me privado. As más condições de detenção são a causa da insuficiência cardíaca de que sofro atualmente e pela qual fui evacuado com urgência para Abidjan em 11 de julho de 2018. Saí desta detenção com a saúde muito precária, segundo o médico. Estou com o coração e o fígado danificados, o que me obriga a tomar comprimidos indefinidamente até ter condições financeiras para viajar para a Europa para tratamento intensivo.

P: Como coordenador da CICI que tem a dizer à população e que propostas coloca em cima da mesa para um diálogo profícuo entre a oposição e o atual regime?
No plano securitário, em que medida a situação de instabilidade na fronteira com o Mali pode exercer pressão naquela zona na costa do Marfim e a insegurança daí decorrente ter reflexos na realização tranquila da campanha eleitoral?

R: Na minha qualidade de actor da sociedade civil nós, juntamente com amigos, pedimos muito cedo um diálogo pré eleitoral para evitar uma enésima crise ligada aos conflitos políticos.

Nos próximos dias nós, antes da eleição presidencial, vamos apelar a uma marcha branca pela paz e pelo diálogo. O povo vai então obrigar os nossos atores políticos a sentarem-se a uma mesa de discussão.

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