África Subsaariana | Entrevista | Exclusivo

Eleições presidenciais na Costa do Marfim. Sociedade civil debate futuro da democracia no país e na subregião.

Segunda parte da entrevista de Samba David, escritor, ator da sociedade civil costa-marfinense, coordenador nacional da Coligação das nações da Costa do Marfim e defensor dos Direitos do Homem, onde se avalia o futuro da democracia na Costa do Marfim e na subregiao.

P: No plano securitário, em que medida a situação de instabilidade na fronteira com o Mali pode exercer pressão naquela zona na costa do Marfim e a insegurança daí decorrente ter reflexos na realização tranquila da campanha eleitoral?

R: Curvo-me perante a memória de nossos ilustres soldados assassinados nesta fronteira. Infelizmente, não tenho conhecimento de um discurso de homenagem do próprio Presidente Alassane Dramane Ouattara.

É claro que a insegurança no nosso território constitui um perigo para nossas populações e isso deve ser uma preocupação na campanha presidencial, mas infelizmente a segurança das pessoas vem depois dos interesses do presidente.

P: Como interpreta o surgimento de Soro na cena política atual e que tipo de agenda considera estar por detrás desta sua entrada virtual no atual quadro político?

R: O Sr. Soro não está a entrar só agora na política. Ele está na política desde os seus tempos de estudante. Candidato mal sucedido às eleições legislativas de Port-Bouêt sob a bandeira do RDR. Ex-líder da rebelião, ex-primeiro-ministro de dois regimes diferentes e, finalmente, ex-presidente da Assembleia Nacional. Portanto, deste senhor não diremos que ele acabou de entrar na política.
Quanto à agenda virtual dele, como você disse, não posso responder, essa pergunta tem que ser feita ao próprio.

P: Que apoios internos tem Soro (militares e políticos) e que simpatia granjeia junto da população em geral?

R: Dadas as várias funções que Soro ocupou e o papel que desempenhou na tomada do poder pelo Sr. Alassane Dramane Ouattara, e sua condição de representante eleito do povo, não diremos que o Sr. Soro não tem apoio. Mas eu não poderei dizer mais do que isto.

P: No plano internacional Soro beneficia de algum tipo sustentação para proporcionar capacidade logística e financeira aos seus apoiantes na Costa do Marfim?

R: Esta pergunta só pode ser respondida pelo próprio interessado.

P: Quais as reais ambições de Soro?

R: Ele é o único que pode responder a essa pergunta. Infelizmente não sei.

P: Na sua opinião que personalidade política com prestigio internacional poderá suceder a Alassane Ouattara, num quadro de eleições democráticas?

R: O povo fará a escolha. E sabe, a minha opinião não conta, mas sim a do povo da Costa do Marfim que está acima de mim. Deixemos que as coisas decorram democraticamente, pois todos nós queremos a escolha do povo.

P: No caso de Ouattara ganhar estas eleições, como vê a reação da oposição num futuro próximo? Quais os problemas que Ouattara poderá enfrentar após ganhar as eleições de 31 outubro 2020?

R: Se Alassane Dramane Ouattara adiar as eleições, ele estará a limitar o sofrimento do povo e para nós será a vitória do povo.

Agora, para a oposição ela certamente terá sua reação, que eu não sei.

Que problemas Ouattara poderá ter que enfrentar caso venha a vencer as eleições de 31 de outubro de 2020? Não há problema, o povo instalará uma transição para debater todas as questões relacionadas com as eleições, sem ele é claro, e tentar estabelecer um clima de paz e reconstruir a reconciliação em torno dos valores da paz. Então, como eu já referi acima, cada um responderá por seus atos perante a justiça.

P: No contexto da importância da estabilidade na região, como vê a atual situação na Guiné Conacri e na sua opinião o que poderá acontecer se a situação política neste país entrar numa instabilidade profunda, ao mesmo tempo que a Costa do Marfim assiste a um crescente descontentamento popular manietado por uma oposição quer quer ver acelerado a saída do atual regime do poder?

R: A situação na Guiné Conacri é quase semelhante à nossa. Se a da Guiné se degenerar, a Costa do Marfim tomará nota da determinação do povo irmão da Guiné e assumirá as suas responsabilidades para que a vontade do povo seja respeitada. Especialmente os povos africanos de língua francesa viverão a primavera este ano. Não permitiremos mais presidências vitalícias ou adulteração dos seus textos que deliberadamente nos são apresentados para permanecer no poder.

P: Ainda no contexto de estabilidade política e social, poderá haver a tentação de tirar proveito político das tão faladas guerras étnicas no país?

R: A guerra étnica não pode ocorrer na Costa do Marfim por vários motivos. Talvez o regime diga que quer concorrer a um terceiro mandato para proteger muçulmanos e nordistas, e ver aí uma brecha para angariar apoio. Mas a manipulação já não ganha adeptos.

Os partidos da oposição que se levantaram contra ele são formados por cidadãos de todas as regiões, inclusive do norte.

Vejamos os factos:

Os professores Mamadou Mamadou Coulibaly, Bamba Moriferé e o Sr. Soro Guillaume são todos do Norte.

E existem muçulmanos em ambos os lados.

Além disso, os nacionais do Norte não se opõem aos outros e nem todos os nortistas são ativistas do RHDP.

É antes o regime de Abidjan que escolta assassinos que, infelizmente, estão em certas cidades e aldeias. E esses devem a sua salvação às forças da ordem que os sustentam e que infelizmente os protegem.

P: E finalmente que mensagem quer transmitir ao povo marfinense e à Comunidade internacional?
R: Ao povo da Costa do Marfim, digo que é muito importante não estar abandonado à vontade única da classe política. Somos, portanto, chamados a enfrentar este grande desafio de quebrar o monopólio político dos debates públicos, trabalhando para promover uma sociedade civil forte e independente. Que os povos participem dos debates públicos, especialmente nos órgãos de decisão sobre o seu futuro e a sua sobrevivência.

Para a classe política, como outros povos do mundo, os povos da Côte d’Ivoire aspiram a uma mudança política pacífica. À distribuição equitativa dos recursos e ao Estado de Direito, onde o homem está no centro de todos os debates. Portanto, os povos querem ter à frente pessoas ao seu serviço e não quem as use. Infelizmente, descobrimos que os mais ricos são os líderes, as suas famílias e os seus entes queridos. Que acabemos com este ciclo porque vamos para a política para nos colocarmos a serviço do seu povo, não para sermos ricos, porque a política não é um negócio, mas sim existe em função do seu povo e para o seu povo.

Exigimos da comunidade internacional o respeito pelos princípios democráticos cujos princípios são por eles estabelecidos.

Aqui, os princípios da democracia são espezinhados pelo atual líder. A liberdade de expressão está presa, a vida humana é profanada e o diálogo tornou-se uma mercadoria muito rara. Diante de tudo isto, a comunidade internacional, a gendarmaria de todos estes valores, permanece em silêncio sob o regime de Abidjan. Mas antes ela estava mais ativa. Exortamo-vos a garantir que o princípio universal da democracia e a Declaração de Direitos sejam respeitados de maneira equitativa.

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