Entrevista à cidadã de origem ucraniana Miroslava Potyatynnyk: “As pessoas estão com medo de perder tudo”

A tensão entre os Estados Unidos da América e a Rússia continua na ordem do dia, envolvendo a Ucrânia no meio de duas grandes potências mundiais. 

Para ter uma perspectiva do ponto de vista de quem já sofreu na pele a situação da Ucrânia, o e-Global falou com a cidadã de origem ucraniana Miroslava Potyatynnyk, de 43 anos. Trabalha no Colégio Moderno, em Lisboa. 

e-Global: Como tem sido a vida dos ucranianos ao longo destes últimos anos? 

Miroslava Potyatynnyk: A vida dos ucranianos mudou quando acabou a União Soviética. Nunca mais tivemos descanso, nunca deixaram de nos envolver nesse problema. A Ucrânia é a Ucrânia, a Rússia é a Rússia, não é? Mas os russos nunca nos deixaram fazer coisas. 

“Quando a União Soviética acabou e os países se separaram, as pessoas não sabiam. Os políticos é que sabiam.” 

Quando a União Soviética acabou e os países se separaram, as pessoas não sabiam. Os políticos é que sabiam. Nós, cidadãos, não sabíamos que isso ia acontecer. Por exemplo, eu e o meu marido tínhamos naquela altura… eu tinha menos de 19 anos… nós já trabalhávamos, já tínhamos dinheiro na conta, porque trabalhávamos no verão. Tínhamos dinheiro na conta e ficámos sem dinheiro, sem nada. O dinheiro ficou congelado. Ainda hoje está na conta e está congelado. Desvalorizou, porque depois a moeda mudou. Nós tínhamos um dinheiro e depois a Ucrânia, quando ficou independente, ficou com outro tipo de dinheiro. 

Ficámos sem nada. As fábricas fecharam, porque não tinham como pagar o dinheiro dos ordenados. O meu marido é engenheiro de construção civil e foi trabalhar para Portugal, porque não tinha como ganhar dinheiro na Ucrânia. 

E essa situação do dinheiro congelado na conta nunca foi resolvida até hoje? 

Nada. Tudo na Ucrânia é feito por conta própria. Se nós não mandássemos dinheiro para os pais, para a família, nada aconteceria. Não conseguem levantar a Ucrânia do fundo daquele buraco. Não conseguem porque, mal a Ucrânia fica mais ou menos, lá está a Rússia a querer atacar. Lá vem o Putin outra vez… lembrou-se que precisa da Crimeia, lembrou-se daquilo, atacou muitas coisas, dá cabo de tudo. 

Este problema na Ucrânia agravou-se em 2014? Como se por essa altura já se estivesse numa Segunda Guerra Fria… 

Exatamente. Foi. O irmão da minha patroa, o Doutor João Soares [político e ex-ministro da Cultura do XXI Governo Constitucional de Portugal entre 2015 e 2016, filho do ex-Presidente da República de Portugal, Mário Soares]… que eu trabalho no Colégio Moderno [estabelecimento de ensino privado pertencente à família Soares]… e ele nessa altura foi para a Ucrânia. Que ele estava dentro da política e foi para a Ucrânia. Esteve lá e disse que aquilo que se está a passar lá é horrível. Não é admissível. 

É a mesma coisa que se agora Espanha dissesse “Queremos agora o Algarve porque isso está muito perto da nossa terra”. Está a ver o que está a acontecer? Agora os espanhóis lembravam-se e queriam tirar o Algarve e outros sítios de Portugal. Não pode ser… 

Diga-me, na prática, como é o dia a dia de um ucraniano. Como é nessa zona de conflito, quais são os problemas, para além do medo frequente de poderem ser atacados? 

As pessoas estão com medo de perder tudo. Construíram tudo do zero, foram trabalhar para fora, para Espanha, Itália, Portugal… A maioria das pessoas voltou para a terra. Com certa idade, começaram a ganhar a reforma, construíram a sua casa na Ucrânia. E agora vai acontecer aquilo que vai acontecer… As pessoas não sabem o que hão de esperar. E depois vão para onde? Com certa idade já não conseguem trabalhar, ir outra vez para fora e encontrar rapidamente um trabalho. Antes eram novas, pegaram na mala e foram para outro lado começar a trabalhar. 

[Os ucranianos] têm esperança de que o conflito ainda não vá acontecer, que sejam só ameaças, uma provocação.” 

As pessoas estão muito assustadas, estão em pânico. Mas pronto, não deixam de ter aquela fé e confiança de que a Europa vai ajudar. Têm esperança de que o conflito ainda não vá acontecer, que sejam só ameaças, uma provocação. 

Sabe dizer-me se a maioria mantém mais essa esperança de que não vai acontecer nada, se está mais descansada ou com medo? 

Aqueles que moram perto das fronteiras, como já são seis anos a passar por aquilo que estão a passar, coitados, eles não confiam. Porque como já tiveram aqueles ataques… Porque o Putin nunca cumpriu nenhuma regra, nunca. Disseram para não atacar, fizeram certos limites, e ele não queria saber. Ele faz aquilo que tem que fazer. 

“Não podemos falar diretamente deste assunto porque depois bloqueiam os telefones, desaparece tudo.” 

O meu marido tem um irmão na Rússia. O irmão, desde que foi para a tropa para a Rússia, casou-se lá e vive lá e era militar lá. Agora já está reformado e nós costumamos falar com ele pelo Skype. Não podemos falar diretamente deste assunto porque depois bloqueiam os telefones, desaparece tudo. Ele depois tem de trocar cartões, tem de trocar o telemóvel, tem de trocar tudo. Se nós falarmos do tempo, dos filhos, dos netos, está tudo bem. Mal começamos a falar de outra coisa mais polémica, desaparece a voz, desaparece a imagem, e só um mês depois conseguimos contactar-nos, já através de outro número. Eles [o Governo russo] estão a escutar tudo. 

“Na Rússia dizem que somos nós que estamos a atacar, que nós é que criamos a guerra.” 

E a maioria dos ucranianos tem muita família na Rússia. Muita. Porque antigamente aquilo era a União Soviética, não é? Estávamos todos juntos, eramos irmãos, pronto. E o que acontece é que muita gente não se fala, zangou-se, porque tem outro ponto de vista. Nós cá em Portugal temos antena parabólica, temos os canais ucranianos e temos dois ou três canais russos. E nós vemos as notícias, acabamos de ver notícias da nossa terra, acabamos de ver da terra deles, e são narrativas totalmente diferentes. Na Rússia dizem que somos nós que estamos a atacar, que nós é que criamos a guerra. E eles não, são bons. Portanto o povo lá nunca sabe, de verdade, o que se está a passar. 

E na Rússia o Presidente Putin e o Governo tratam bem os ucranianos que moram lá? 

Não. Por exemplo, o irmão do meu marido já é russo e está lá há muitos anos. Tem 50 e tal anos, na tropa tinha 17… está esses anos todos na Rússia. Ele tem nacionalidade russa. Mas como é ucraniano está impedido de ligar à mãe [na Ucrânia]. Os pais dele fizeram 50 anos de casados e ele queria mandar dinheiro para a Ucrânia, para a mãe comprar uma televisão como prenda dele, e não conseguiu. Ele teve de mandar o dinheiro para nós, em Portugal, para depois mandarmos para a mãe dele e ela poder comprar a televisão. Ele que já é russo, já mora lá e trabalhou toda a vida lá… mas só por ser ucraniano e ter família na Ucrânia, está impedido. Não pode fazer coisas. 

Eles [os russos] querem cortar toda a relação entre Rússia e Ucrânia? 

Toda, exatamente. 

E como vê a NATO e o Presidente norte-americano Biden? Apoia e vê como uma esperança, ou tem igualmente algum receio? 

Lembra-se, no início, quando Putin queria as aldeias perto da Crimeia? Um Presidente ucraniano deu-lhe nessa altura as aldeias. Depois o Putin não ficou satisfeito. Quis aquilo e depois quis mais. Ele está a fazer o joguinho dele. “Ai eu agora só quero isto, não quero mais nada”… mentira. Basta ele chegar ao ponto onde está a chegar… quer atacar a Ucrânia. E não só a Ucrânia, também outros países que já foram da União Soviética, como a Geórgia. 

Mas então qual é a sua opinião sobre Biden, que é, atualmente, o grande rival de Putin? 

Eu nem sei o que dizer… Acho que a Ucrânia não devia dar ouvidos a ninguém e ser independente. Nós fomos independentes, mas depois os polacos atacavam… A Ucrânia vivia sempre assim, nunca ninguém nos deixou em paz. Estávamos sempre a trabalhar para alguém. Ou era Moscovo, ou eram os polacos, ou era a Eslovénia… Devíamos ser independentes, ter a nossa palavra e o nosso ponto de vista, e não devia haver ninguém que mandasse em nós. 

Sim, e a NATO também tem o seu interesse em ‘anexar’ a Ucrânia… 

A Polónia, por exemplo, com esta situação toda está muito revoltada com a Ucrânia. Quem vai passar a fronteira da Ucrânia para a Polónia, para poder viajar de carro para Portugal, por exemplo, e eu sei porque o nosso primo acabou de chegar anteontem… ele disse que os polacos estão tão revoltados que tiram tudo. Tiram coisas das carrinhas, dos carros dos ucranianos, até comida. 

Quem tira? As autoridades polacas? 

Sim. Tiram tudo e dizem que por lei não se pode levar isto e isto. 

Porque é que os polacos estão revoltados? 

Porque têm a fronteira com a Ucrânia, e se acontecer alguma coisa eles ficam afetados. 

E em relação a Portugal, como é a sua vida cá? 

Portugal é o meu segundo país e agora até posso considerar como número um. Porque quando saí da Ucrânia tinha 20 anos. Atualmente, tenho 43, por isso é a minha terra. Na Ucrânia estudei, acabei o curso, e depois como não tínhamos nada viemos para Portugal trabalhar. É um país que dá valor às pessoas, honesto, ajudou imenso. 

O senhor Jorge Sampaio, estou muito grata a este senhor, porque foi o primeiro Presidente que disse “Temos que legalizar todos os estrangeiros que aqui estão. Eles têm o direito de pagar a Segurança Social, de ter títulos de residência, vistos de permanência”. Passámos por isso tudo, mas foi ele que o fez. Eramos 49 mil ucranianos em 2000. Eu cheguei em 1999. Assim ficaram legais, começaram a trabalhar, a pagar a Segurança Social, tinham todos os direitos, de pedir crédito, comprar casa… Portugal começou a legalizar, a dar oportunidades e a acreditar em nós. 

“Se há alguns anos tive a ideia de ‘Pronto, vou para Portugal, trabalho uns dois, três anos e vou para a Ucrânia’, agora não.” 

Eu, por exemplo, trabalho no Colégio Moderno há 21 anos. Estou efetiva e estou satisfeita ao longo destes anos todos, estou na minha casa. Estou feliz. Não quero voltar para a Ucrânia. Se há alguns anos tive a ideia de “Pronto, vou para Portugal, trabalho uns dois, três anos e vou para a Ucrânia”, agora não. Nesse tempo todo nada melhorou lá e nós mudamos. Mudamos totalmente o ponto de vista, a maneira de ser, a cultura. Já tenho nacionalidade portuguesa, a minha filha mais velha também e a mais nova já nasceu cá. 

Nós não temos dupla nacionalidade. Lutámos estes anos todos por isso, para não perdermos os nossos direitos lá, e não temos. Se eu for agora para a Ucrânia e quiser ficar lá mais do que 60 dias não posso. 

Porque proíbem isso? Quem o faz? 

É a lei ucraniana. É assim para os estrangeiros. Não sei como isto foi feito, não faço ideia como chegaram a esta decisão. Eu tenho casa na Ucrânia, por exemplo, não utilizo, mas tenho de pagar aqueles impostos de levarem o lixo, fazerem a limpeza à frente do prédio e assim. Paga-se um X por ano, umas moedas. Mas nós, como já não somos considerados ucranianos e sim portugueses, temos de pagar o triplo, porque somos considerados estrangeiros. É feio o que fazem, sentimo-nos expulsos. 

“Tenho muita família na Ucrânia, estão muito assustados com a situação atual e não sabem o que hão de esperar, não sabem o que hão de fazer.” 

Mas os ucranianos são um povo lutador. Sempre o foram e vão ser. Pessoas muito fortes. Conseguem levantar-se e ir à luta. Eles têm de se posicionar, dizer não e ponto final. Tenho muita família na Ucrânia, estão muito assustados com a situação atual e não sabem o que hão de esperar, não sabem o que hão de fazer. 

No fundo, acho que este conflito todo ainda vai levar a Rússia e os Estados Unidos da América a combaterem entre si. 

Terceira Guerra Mundial? 

Sim, vai. Eles vão lutar porque não vão entender-se.

Cátia Tocha

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