Entrevista: “A pandemia já tinha gerado todo este processo inflacionista”, diz a economista Sandra Ribeiro

A economia portuguesa já estava a atravessar um período delicado antes da pandemia da Covid-19. Quando esta surgiu em março de 2020 e foram realizadas quarentenas para travá-la, o processo inflacionista agravou. 

Agora, com a guerra na Ucrânia e tudo o que tal tem implicado, como as sanções adotadas tanto pela União Europeia – da qual Portugal faz parte – como pela Rússia, o cenário tende a piorar. 

Para obter mais esclarecimentos sobre o estado económico do país e do mundo, o e-Global conversou com a economista Sandra Ribeiro, doutorada em Economia pela Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), mestre em Economia Monetária e Financeira pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e licenciada em Economia pela UAL. 

Sandra Ribeiro tem diversos artigos científicos publicados em revistas científicas internacionais, livros e capítulos de livros, apresentações e publicações em congressos, conferencias e seminários. As suas áreas de investigação são Economia e Comércio Internacional, Economia e Macroeconomia. É membro da AEA (American Economic Association), da ASEPELT (Asociación Internacional de Economía Aplicada) e da AEDEM (European Academy of Management and Business Economics). 

e-Global: Gostaria que começasse por explicar como tem sido o impacto deste conflito Ucrânia-Rússia no comércio mundial e, consequentemente, no comércio português. 

Sandra Ribeiro: Primeiro, e a nota mais importante, é que, como nós todos já percebemos, uma guerra não atinge só os intervenientes que estão no campo de batalha. E além do campo político, que muitas vezes está inerente à própria guerra, o campo económico também. E é essa, a realidade económica, uma daquelas que mais sente os efeitos. 

Devo começar por salientar, uma vez que se está sempre a falar agora do impacto da guerra no comércio ou na economia como um todo, que, de uma forma mais abrangente, o impacto no seio da economia depende muito da duração e da abrangência do conflito. É uma variável muito importante a ser considerada, a expectativa que é gerada e aquela que se tem em relação a determinado acontecimento. 

“Uma certeza nós já temos: a guerra começou no final de fevereiro e já está neste momento a influenciar o comércio mundial.” 

Os mercados, que são compostos pelo lado do consumidor, a procura pelo lado do produtor das empresas, que representam a oferta… eles reagem não só ao que está a acontecer no mercado, mas também às expectativas que são geradas. E são essas variáveis que vão depois influenciar esses mercados. E neste caso foram também as transações a nível mundial. Uma certeza nós já temos: a guerra começou no final de fevereiro e já está neste momento a influenciar o comércio mundial. 

A própria Organização Mundial do Comércio (OMC) continua a prever um aumento do volume de trocas comerciais para o ano de 2022, por volta dos 3%, mas esta já é uma revisão que a OMC fez em baixa, face aos valores que previa no final de 2021 para o comércio mundial antes da guerra, que era por volta dos 4,7%. 

“(…) não podemos dissociar aqui o efeito da pandemia da Covid-19 ao nível do comércio internacional (…)” 

Se a base da troca comercial é a existência de produção, e depois também a distribuição, que é o processo que faz com que aquela produção chegue até ao consumidor final… E não podemos dissociar aqui o efeito da pandemia da Covid-19 ao nível do comércio internacional também, porque as cadeias de abastecimento já estavam perturbadas. 

Pois, deve ser relembrado que antes da guerra na Ucrânia houve a pandemia e um forte impacto económico no mundo derivado das medidas tomadas para travá-la… 

A pandemia já tinha provocado perturbação nas cadeias de abastecimento a nível mundial. 

E o conflito na Ucrânia veio agravar, não é? 

E o conflito veio agravar. Mas porquê? Não é que aqueles dois países [Ucrânia e Rússia] tenham uma grande importância a nível do comércio internacional. A parte russa e a parte ucraniana, no conjunto da produção e do comércio mundial, são muito pequenas. 

Afeta mais nos cereais? 

É isso. Eles são Estados importantes, fornecedores de produtos que são essenciais. Não é pela sua dimensão, é pela importância dos produtos que eles fornecem. Essencialmente os alimentares e os energéticos, com que eles fornecem não só a Europa, mas também todo o mundo. 

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio, a Rússia e a Ucrânia representavam em conjunto, em 2019, 45% do fornecimento de girassol para todo o mundo. É quase metade de todo o girassol que fornece o mundo. Além de 25% do milho mundial e 15% da cevada. 

E a Rússia a nível de gás, fertilizantes… 

E a energia também. Portanto, aqui a nível mundial e também, em particular, europeu. E os efeitos fazem-se sentir também para Portugal ao nível das trocas. A Ucrânia é o celeiro da Europa. A Rússia é um dos maiores exportadores também de cereais, mas mais de fertilizantes, combustíveis e energia, e a segunda maior exportadora de petróleo e grande produtora de gás natural. 

São ambos grandes exportadores agrícolas, ambos com um peso a nível de alguns produtos que são essenciais ou como matéria-prima para produzir outros. 

Como é que nós, portugueses, vamos sofrer economicamente? Onde se vai traduzir no nosso dia a dia, mais especificamente? 

Aqui deixe-me fazer um enquadramento, porque a resposta não vai ser curta para se conseguir perceber efetivamente aquilo que vamos sofrer. E o enquadramento tem de ser feito no contexto que já vivíamos no início do conflito. Nós vínhamos do ano 2020 e 2021. Em Portugal… e noutros países da Europa e até do mundo, até nos Estados Unidos da América… criou-se artificialmente valor. Ou seja, muito do rendimento que foi gerado não derivou da produção. 

Por causa das quarentenas? 

A quarentena impediu a produção. Pelo menos nos primeiros três meses a produção quebrou mesmo, as empresas estiveram fechadas, ficámos mesmo fechados. Mas, durante todo o período, não foi constante a geração de produção. E o principal indicador que mede a produção de um país é o PIB [Produto Interno Bruto], e o PIB diminuiu. 

No entanto, era gerado rendimento. Nos Estados Unidos, por exemplo, deram cheques de mil dólares, salvo erro, a cada família. Em Portugal também houve muito apoio, e é óbvio que esse apoio tem de ser dado. Mas esta emissão de dívida, esta geração de valor que não tem por base a produção, faz com que exista muita moeda a circular. Há procura e não há oferta, gera aumento dos preços. Gera inflação. 

“(…) a pandemia já tinha gerado todo este processo inflacionista.” 

A taxa de inflação de Portugal em setembro de 2021 era de 1,3%. E em fevereiro de 2022, que foi no final do mês em que a guerra começou, já estava nos 4,4%. Portanto, a pandemia já tinha gerado todo este processo inflacionista. E outra nota muito importante: a pandemia já tinha aumentado os preços da energia, das matérias-primas e dos alimentos para valores de níveis históricos. Foi com esta realidade que começou em 2022, por muito que muitos não se tenham apercebido, e depois no final de fevereiro a guerra iniciou-se e acentuou todo este processo. 

O mesmo se passava na Europa e nós, enquanto Estado-membro da zona euro, também sentimos. A inflação na zona euro também já tinha atingido níveis históricos em janeiro deste ano. Já estava a 5,1% em comparação com janeiro do ano anterior. A inflação tinha já subido exatamente pelas mesmas causas, principalmente aquilo que referi ainda há pouco, da quebra das cadeias logísticas causada pela pandemia, e também pela subida dos preços da energia. 

Enquanto economista, e depois de me ter falado que o problema económico já vinha antes da guerra, com a pandemia, como analisa a informação que chega aos cidadãos? Os políticos e comentadores têm conseguido explicar isso à população, ou parece que colocam muito a “culpa” da crise económica na guerra da Ucrânia? 

Os dados que o INE [Instituto Nacional de Estatística] publica podem ser consultados por todos. A maior parte dos agentes económicos pode é não ter interesse ou até desconhecer o impacto que todas estas situações têm. 

“(…) a inflação gerada pelo lado da oferta ou por excesso de moeda em circulação é que pode ser mais preocupante.” 

Deixe-me fazer aqui outro parêntesis para chegar, efetivamente, à resposta final. Os tipos de inflação e as consequências do aumento dos preços não são idênticos. A própria inflação que acabei de falar tem duas origens. A inflação pode ser causada pelo lado da procura. Neste caso até o aumento da procura na fase da pandemia se deveu também ao aumento da poupança dos portugueses em 2020, que andava perto dos 13% e nos anos anteriores a nossa taxa de poupança era sempre à volta dos 2%. Portanto, se houve poupança, em determinado consegue-se consumir mais e, se se consegue consumir mais, os preços aumentam. É inflação, mas não é nada preocupante. Já a inflação gerada pelo lado da oferta ou por excesso de moeda em circulação é que pode ser mais preocupante. 

Agora, se foi tentada esconder ou não… Nunca foi tentado esconder que existiam políticas para ajudar o agente económico família e o agente económico empresa, apesar de não ser gerado rendimento. É óbvio que depois o agente económico pode é não ter a capacidade para ligar estas duas variáveis. O rendimento iria aumentar a quantidade de moeda não gerada pela produção, porque o rendimento do país tem de ser gerado pela produção, e isso iria implicar o aumento dos preços. 

“(…) a guerra é causadora da continuidade do processo inflacionista.” 

Aqui também estamos a verificar, e aí sim, que a guerra é causadora da continuidade do processo inflacionista. A pandemia também tinha sido responsável por um pouco da justificação desta inflação pelo lado da oferta, por causa dos preços da energia e dos preços das matérias-primas por causa da interrupção do abastecimento, e, portanto, das cadeias de abastecimento. 

“Mas a inflação não aconteceu só por causa da guerra e da pandemia.” 

No entanto, agora vem agravado com isso, com o facto de estarmos a falar de aumento de preços de bens que são essenciais, que são matéria-prima, como os cereais. Que, transformados, são eles próprios alimentos, que vão para o pão, vão para os próprios cereais transformados… e depois energia e petróleo enquanto matérias subsidiárias. Aquelas que, não incorporando a produção, ajudam à produção e ao transporte de mercadorias. E, se isso acontece, o preço final tem de ser acrescido. O que acabei de referir é o mercado de bens e serviços. Os países mais pobres, as famílias mais pobres, estão mais ameaçados pela guerra do que as famílias e os países de maior rendimento. Mas a inflação não aconteceu só por causa da guerra e da pandemia. 

Já vinha detrás… 

Não nos podemos esquecer que a inflação pós-pandemia também foi criada via mercado monetário, devido à emissão de moeda, como expliquei anteriormente. Mas isso não aconteceu só por causa da pandemia, já vinha do controlo dos bancos centrais nas taxas de juro, na taxa de inflação. Já há muito tempo. 

Chegou a um momento em que, devido ao aumento da taxa de inflação, os bancos centrais não vão ter capacidade nem justificação para controlar as taxas de juro. Vamos ter aí ao nível das famílias portuguesas, que a maior parte tem pelo menos um empréstimo à habitação, uma outra variável que temos de considerar, que é o aumento das taxas de juro. 

E a toda esta situação complicada acrescem as sanções contra a Rússia e da Rússia contra nós, o Ocidente, que tendem a agravar. Consegue fazer já um balanço sobre o resultado económico das sanções ocorridas até ao momento na população? 

Portugal, diretamente, não tem grande exposição à Rússia. Nem em termos de investimento, nem em termos de comércio. As exportações russas representam 1% para o nosso país e as importações 1,8%. O investimento direto estrangeiro também não chega a 1%. 

No entanto, primeiro é tudo aquilo que já falámos da especificidade dos produtos que estão aqui inerentes, e esses efeitos também já falámos. Por outro lado, há também o facto de pertencermos à União Europeia e todas as sanções que a mesma põe, Portugal também está a por. Fazemos parte dos países que estão a sancionar. 

A maior interligação que existe entre os países faz com que os efeitos se sintam mais acentuadamente e mais rapidamente. Um pormenor é o dos produtos fertilizantes. A Rússia continua a produzi-los, mas já não consegue é receber todo o dinheiro dos fertilizantes por causa das sanções a nível financeiro. Já se sente a falta dos fertilizantes em determinadas áreas agrícolas por causa dessa sanção. Já se vai sentindo no aumento dos preços, e, pontualmente, num produto ou outro. 

“A nossa dependência face ao combustível russo não é tão grande como outros países apresentam.” 

A nossa dependência face ao combustível russo não é tão grande como outros países apresentam. Em 2020 é verdade que Portugal mais do que quintuplicou as importações de gás natural proveniente da Rússia. E em 2021 a Rússia passou a ser o terceiro fornecedor de gás natural de Portugal. Mas só representava perto de 10%. A Nigéria representava quase 50% e os Estados Unidos 33%. Nós quintuplicámos em determinado momento, aumentámos as importações de gás provenientes da Rússia, mas com um peso reduzido. 

Temos a vantagem da proximidade ao Norte de África, onde estão muitos dos produtores de gás natural, e também a vantagem do porto de Sines, que nos poderá dar acesso a gás dos Estados Unidos. Teremos assegurada a substituição no caso de ser preciso fazê-la. 

Pode contextualizar e explicar a uma pessoa que seja mais leiga em economia, ou desatenta, este processo de globalização? O efeito dominó deste conflito na Ucrânia… há pessoas que não compreendem logo que podem ser afetadas. Temos o caso do Brasil: alguns brasileiros por estarem geograficamente longe do conflito pensam que não são afetados de forma alguma, mas o Brasil é visto por muitos países como uma fazenda, exporta muito alimento para fora, e isso aumenta os preços dos bens alimentares dos brasileiros. 

Começando pelo conceito da globalização em si e indo buscar alguns dos exemplos que já falámos, a globalização é mesmo isso. É o processo de aproximação entre os países a nível mundial. Há uma integração maior dos países no mundo inteiro, em todos os âmbitos: económico, político, cultural, social. Ou seja, a interdependência entre os países e a interdependência de economias entre os países são notórias. 

“Para o caso de Portugal é porque temos a integração económica, somos um Estado-membro da União Europeia, e isso acentua mais este efeito dominó.” 

Por isso é que a capacidade como um fenómeno que ocorre num determinado país acaba por rapidamente e facilmente tornar-se muito mais abrangente. Para o caso de Portugal é porque temos a integração económica, somos um Estado-membro da União Europeia, e isso acentua mais este efeito dominó. Mas o efeito dominó passa continentes. Se algum país utiliza um banco que está restrito ao pagamento, ao recebimento da transação, esse país não pode comprar. A Rússia não quer vender se não receber, portanto é por aí, sem dúvida, que o efeito dominó se faz. 

“Mas este efeito dominó causado em alguns países pode ser benéfico para outros.” 

E depois é aquilo que temos estado a falar. Se determinados produtos são necessários para produzir outros bens, se eles falham, então todo o mundo fica com falta desse produto. Mas este efeito dominó causado em alguns países pode ser benéfico para outros. O facto de os Estados Unidos, por exemplo, terem capacidade para abastecer numa maior quantidade a Europa com gás natural liquefeito, e que até pode vir a ser benéfico para o porto de Sines, torna o efeito dominó positivo para alguns países. 

Já que estamos a falar de globalização, parece que também poderá haver um efeito dominó em relação ao que se está a passar na China. A cidade de Xangai, maior do país e um núcleo financeiro global, está em ‘lockdown’ [quarentena] há mais de um mês devido à Covid-19. Baixou a produção, parece que muitas mercadorias estão paradas, e Pequim [capital chinesa] está a começar também a sofrer algumas restrições. Mas como isto é na China muitas pessoas tendem a pensar que não interessa. Já quem estuda economia pode ver um cenário potencialmente mais grave a nível económico e de mercadorias. O que me pode dizer sobre isso? 

É tal e qual assim. Não é porque se passa na China que não terá efeito em todo o mundo. Aliás, é porque se passa na China que decerto terá efeito em todo o mundo. E aí o efeito dominó é muito rápido. A China é a responsável por um quarto do valor acrescentado da produção industrial global. Um quarto. Portanto, há 25% da produção industrial de todo o mundo que vem dali. 

“Isto leva à tal interrupção das cadeias de valor global, cadeias de abastecimento.” 

E depois isto é um processo que envolve muitos agentes económicos. Se não houver produção, o comércio vai abrandar. E, por exemplo, o transporte marítimo, que é o mais utilizado a nível de comércio internacional… os navios assim não mandam contentores. O navio sai carregado, descarrega e volta carregado. E foi isto que aconteceu nos outros ‘lockdowns’ da China, que foi os navios não terem nada para transportar devido ao ‘lockdown’. E quando há em circuito contrário, em fluxo contrário, não compensa às empresas. Não compensa fazer um percurso a nível de comércio internacional com metade do percurso onde o navio está vazio. Isto leva à tal interrupção das cadeias de valor global, cadeias de abastecimento. 

“Ainda hoje temos défice de automóveis novos para venda devido a estes ‘lockdowns’ que aconteceram em 2020 por causa da produção dos chips.” 

Vamos aguardar as notícias em relação aos ‘lockdowns’. Alguns já estão a abrir aos poucos ao comércio, já vão abrindo a produção… Porque um nível de ‘lockdowns’ igual ao que tivemos em 2020, a juntar a todo este cenário que acabei de descrever, provocará outra vez toda a interrupção de abastecimento, toda a interrupção a nível de produção de alguns produtos que são precisos para produzir outros a nível mundial. 

Ainda hoje temos défice de automóveis novos para venda devido a estes ‘lockdowns’ que aconteceram em 2020 por causa da produção dos chips. Já passaram dois anos e ainda agora se sente. Se com este panorama todo ainda verificássemos outra vez situação semelhante e com o conflito na Ucrânia a durar, seria um pouco… não quero alarmar com “catastrófico”, mas não antevia aqui grandes capacidades num curto prazo para resolver alguns problemas que possam surgir. 

Há empresas que têm estado a fechar temporariamente em Portugal porque necessitam de material que não está a chegar cá. Sabe mais pormenores sobre isso? 

A maior parte das empresas que não teve capacidade para retomar a sua atividade pós-pandemia, mesmo com as ajudas do Governo, não retomou. Agora não se sente tanto esse efeito ainda derivado dessas interrupções. É óbvio que, dependendo da matéria-prima que estivermos a falar, nem todas as empresas têm capacidade para adquiri-las já e a bom preço ou para constituírem grandes ‘stocks’. 

“Não nos podemos esquecer que o nosso tecido empresarial é constituído por 99,9% de pequenas e médias empresas.” 

Não nos podemos esquecer que o nosso tecido empresarial é constituído por 99,9% de pequenas e médias empresas. E mesmo destes 99,9% a realidade é muito díspar. A capacidade que têm em antever a compra da matéria-prima ou de realizar ‘stocks’ é diferente de empresa para empresa. Qualquer uma destas levará, num médio prazo, ao aumento dos preços. Porque lá está, se a empresa incorre em custos adicionais, então vai ter que repercutir no preço final. 

As empresas até podem, em determinado momento, incorporar parte desse aumento do custo. Muitas empresas têm feito isso, têm preferido, para já, não ter tanta margem, para conseguirem fomentar a sua procura. Mas chega a um determinado momento, com todas estas possibilidades que estamos a enunciar, que não passam de possibilidades… e, como disse, se o conflito [na Ucrânia] acabar para a semana e se a China tiver zero casos de Covid, tudo o que acabámos de ver não se verifica, porque são as premissas para toda esta análise que estou a fazer… mas o cenário será esse certamente. 

E agora, para terminarmos, que dicas de preparação pode sugerir aos portugueses, tendo em conta o cenário económico atual? Devem poupar, investir já em alguns bens alimentares porque poderão encarecer mais nas próximas semanas,…? 

Depende muito… Primeiro depende da informação que o consumidor tem, que o agente económico tem. E, tal como eu disse no início, o possível agravamento de toda esta situação depende sem dúvida da duração e intensidade do conflito. Se o conflito acabar na próxima semana, este cenário de maior gravidade que se poderá colocar não acontece no futuro. 

Conseguimos identificar períodos de crise originados pelo quê na economia? Pelo aumento dos preços do petróleo, por crises petrolíferas ou energéticas e por guerras. E nós agora temos as duas. Portanto, não é preciso ser grande entendedor de economia para saber que períodos de crise vêm associados a crises de petróleo, energéticas ou guerras. E agora temos uma guerra que nos cria uma crise energética e petrolífera. 

E a desvalorização do euro também, não é? 

É isso. Também. Mas, a nível de consumidor final, famílias, o efeito não se sente logo. Agora, é óbvio que tudo o que eu referi em termos de consequências para os agentes económicos é mau para a economia. No entanto, o cenário de inflação, por si só, ainda não seria o pior. Se associarmos a inflação… independentemente da razão da mesma, porque pode ser tanto o ‘lockdown’ da China, como a Rússia decidir, de um dia para o outro, interromper os abastecimentos… e aí não se consegue, de um dia para o outro, substituir. E aí poderíamos ter a produção a estagnar ou até a diminuir. 

“[a estagflação] pode levar à verdadeira diminuição do poder de compra, a preços muito mais altos (…)” 

Para a economia como um todo, quando a produção estagna ou diminui, associado a um período inflacionista que nós já temos, é designado por estagflação. E isto sim é que pode levar à verdadeira diminuição do poder de compra, a preços muito mais altos, ao dinheiro que se recebe não servir exatamente para comprar o mesmo. 

“Aqui o equilíbrio orçamental familiar tem de estar sempre presente.” 

Quanto a dicas, que era essa a pergunta… As famílias mais informadas já estavam há alguns anos à espera do momento em que a taxa de juro iria aumentar e, com o início da guerra, sempre preparadas para que isso pudesse acontecer. As que só agora se aperceberam que este é um cenário muito próximo, deverão ir gradualmente reorganizando a sua estrutura de consumo. Se todos os agentes económicos tomarem decisões racionais… e isso significa ter sempre presente na maior parte dos casos que o dinheiro é escasso e temos de usá-lo da melhor maneira… Aqui o equilíbrio orçamental familiar tem de estar sempre presente. 

“A taxa inflação tem vindo a aumentar ainda antes do conflito [na Ucrânia]” 

É contar com o aumento da taxa de juro, que leva a uma reorganização da estrutura de consumo, contando com uma maior parcela para a despesa com a habitação. E se as famílias tiverem capacidade para poupar, enquanto efetivamente a taxa de juro não aumenta, podem aqui durante um período fazer uma pequena poupança para fazer face a consumo que, no futuro, lhes sairá mais caro, até por causa da inflação. A taxa inflação tem vindo a aumentar ainda antes do conflito [na Ucrânia], tem tendência crescente até este mês [de maio]. E há o chamado efeito substituição, que é as famílias tenderem a substituir os bens cujo preço aumento por outros. E depois vão sentir o efeito rendimento, ou seja, o rendimento que recebem no final do mês não é suficiente para manter o nível de vida. O seu poder de compra diminui. 

“É reorganizar ou ir adaptando a estrutura de consumo, a parcela do seu rendimento que fica ligada a cada consumo, e até uma parte poderá ser para poupança (…)” 

Antecipar a compra para prevenir o aumento do preço não será a solução. Porque se todos corrermos ao supermercado à procura de um determinado bem, é esse aumento da procura que faz aumentar o próprio preço. No fim das contas feitas poderá não compensar. E depois depende muito dos hábitos de cada família. É reorganizar ou ir adaptando a estrutura de consumo, a parcela do seu rendimento que fica ligada a cada consumo, e até uma parte poderá ser para poupança, para fazer face a todo o cenário que já se está a viver. Já estamos a viver o processo inflacionista desde o final do ano passado, e agora agravado. 

Quanto aos agentes económicos empresas, muitos já estão neste momento a constituir ‘stocks’, não só por causa do aumento dos preços, mas principalmente devido à inexistência, ou à possível quebra de abastecimento das matérias primas, para não interromperem o seu abastecimento, a sua produção. Porque aqui há também um efeito dominó. Se as empresas interromperem a sua produção, despedem, porque não precisam de tantos trabalhadores. Se despedem não há tanto rendimento para as famílias poderem consumir.

Cátia Tocha

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