Entrevista a Luís Faro Ramos, novo embaixador de Portugal no Brasil

“Brasília é a minha cara!”, revela Luís Faro Ramos, novo embaixador de Portugal no Brasil

 

Luís Faro Ramos é o atual embaixador de Portugal no Brasil. Iniciou funções no dia 10 de dezembro de 2020, Dia Internacional dos Direitos Humanos, e apresentou as suas Cartas Credenciais ao presidente da República brasileiro, Jair Bolsonaro, no último dia 7 de janeiro. Sobre o seu trabalho no Brasil, garante que será realizado com “empenho, seriedade, ambição e realismo”. Antes de atuar na embaixada portuguesa em Brasília, Faro Ramos foi presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P, com sede em Lisboa.

 

A nossa reportagem fez uma extensa entrevista a este diplomata, que não fugiu às perguntas. Em pauta temas como os seus objetivos no país, o papel da diplomacia portuguesa, a função das casas portuguesas no Brasil, a aproximação com entidades luso-brasileiras, o trabalho de conexão comercial bilateral, as características da comunidade portuguesa local, o trabalho dos postos consulares, o acordo entre Mercosul e União Europeia, a afirmação e solidificação das relações entre Brasil e Portugal, entre muitos outros pontos que movimentam as conversações entre os dois países e ditam o futuro da comunidade luso-brasileira e lusodescendente.

 

Diante de tamanha informação, a entrevista foi dividida em duas partes. Esta primeira, que o leitor pode acompanhar em seguida, apresenta o novo embaixador, aborda a sua opinião sobre o Brasil e sobre a comunidade ali radicada, mostra como será trabalhada a aproximação da Embaixada com os diversos setores e autoridades no Brasil e em Portugal e demonstra que Faro Ramos já começou a vivenciar todas as experiências que esse país sul-americano pode oferecer.

 

Como estão a ser os primeiros dias como Embaixador português no país?

Intensos, como seria de esperar. Já efetuei uma visita de trabalho a São Paulo, e em Brasília várias visitas a membros do Governo brasileiro. Nos dias 11 e 12 de fevereiro, estarei em visita de trabalho ao Rio de Janeiro. Tenho sido, sem exceção, muito bem recebido.

 

Como enxerga o Brasil?

Já o disse antes noutras funções, e repito com gosto. O Brasil é o país almirante da Língua Portuguesa, um país formidável, continental, que amplia ao espelho a imagem de Portugal, aqui revejo muito do meu país, mas com um toque extra, de criatividade, musicalidade.

 

O que está a achar da vida em Brasília?

Muito fácil e agradável. Sou adepto de desporto e gosto muito de ar livre, estou como em casa. E desloco-me de um lado para o outro com muita facilidade. Brasília é a minha cara!

 

O Brasil estava na lista dos seus “destinos” profissionais?

O Brasil era o destino que eu queria! Agradeço muito às autoridades do meu país por terem considerado que eu poderia desempenhar estas muito relevantes funções de forma adequada.

 

Quem é Luís Faro Ramos?

Um diplomata português que tem tido a felicidade de adorar cada trabalho que lhe atribuíram, sem exceção. Uma vida profissional muito rica e diversa. Levei sempre qualquer coisa importante dos lugares por onde passei, e para o Brasil está certamente reservada uma parte muito significativa!

 

Qual é a sua opinião sobre a comunidade lusodescendente no Brasil?

Essa fantástica e muito numerosa Comunidade não me era desconhecida quando assumi funções, pois tive o privilégio de visitar diversas cidades do Brasil noutras funções profissionais. Só posso dizer que conto muito com todos para que o nosso país continue a ser visto aqui do modo que é. A comunidade lusodescendente no Brasil é muito numerosa, mas não deixarei de visitar os nossos compatriotas de norte a sul, de este a oeste. Juntos somos certamente mais fortes.

 

Que diferenças vê hoje no trabalho que desenvolvia no Instituto Camões e agora na Embaixada?

A motivação é a mesma. Dito isto, há sempre diferenças, aqui as equipas são menores, embora a qualidade seja idêntica. O trabalho no Camões era mais circunscrito a questões de cooperação, cultura e língua, e a função de embaixador no Brasil exige uma visão sobre todos os assuntos que interessam à política externa de Portugal. É uma função mais abrangente, esta que estou a ocupar agora.

 

Como pensa estruturar as suas ações no país?

Não ficar atrás da secretária (mesa de trabalho). Ir ao terreno, visitar as pessoas e ouvir delas em discurso direto as preocupações – e também os elogios! – que querem transmitir.

 

Que temas acredita serem centrais nas relações diplomáticas entre Brasil e Portugal neste momento?

As relações entre os dois países são muito completas e, portanto, é natural que diversos temas ocupem em permanência o lugar central nessas relações. Só para dar alguns exemplos, sem ser exaustivo, posso mencionar as áreas da cultura e da língua, das trocas económicas e investimento, da ciência e tecnologia, da defesa ou do ensino superior. Mas estou a pecar, nesta lista, certamente por defeito.

 

A pandemia torna esse trabalho diplomático mais difícil de alguma forma?

Sem dúvida, porque a atividade diplomática vive muito de contatos, de relacionamento pessoal. No entanto, com o passar do tempo, fomo-nos habituando à novas formas de relacionamento, a ponto de hoje considerarmos normal aquilo que há um ano era apenas um recurso de última necessidade. Seja como for, a atividade diplomática não parou, e os contatos continuam a vários níveis e em vários formatos.

 

Como é possível evoluir nas relações bilaterais entre Brasil e Portugal?

Estando no terreno, estando sempre muito atento às oportunidades que vão surgindo, criando laços de confiança, e acreditando na força do trabalho em equipa. As equipas são muito boas, tanto a da embaixada como as dos diversos Postos Consulares. Mas atenção: nunca deixando de ser, ao mesmo tempo, ambicioso e realista.

 

Como será a sua relação com a política brasileira?

Normal, institucional. Há sempre muito a falar, e como disse atrás tenho sido extremamente bem recebido. Sigo a política brasileira com o interesse que corresponde à importância que ela tem, que é muita.

 

Como será o seu relacionamento com os deputados eleitos pelo círculo fora da Europa?

O mais aberto possível, sempre disponível para os escutar e transmitir as mensagens que entendam passar.

 

Na sua opinião, o Conselho das Comunidades Portuguesas deve ser ouvido no sentido de promover melhorias na relação entre o governo português a sua diáspora no Brasil?

Claramente sim. Ouvir, sempre, para melhor decidir, creio que todos concordaremos com isso.

 

Nas últimas eleições municipais no Brasil, muitos lusodescendentes e portugueses foram eleitos ou reeleitos para cargos políticos. Acredita que esse grupo pode auxiliar na criação de políticas públicas destinadas aos cidadãos e associações e entidades luso-brasileiras? Afirmativo.

 

As eleições presidenciais portuguesas no Brasil ocorreram da forma como esperava?

As eleições correram até melhor do que se esperava tendo em conta a situação sanitária. Em diversas jurisdições, o número de votantes subiu significativamente, chegando a triplicar nalguns postos consulares, e nas poucas áreas onde os números diminuíram esse decréscimo foi, quase sempre, residual e compreensível face aos tempos difíceis de saúde pública em que vivemos. Em termos globais da votação no estrangeiro, que duplicou, no geral, o Brasil foi o segundo país onde o aumento foi maior, depois da Suíça. Quero neste particular salientar o estado do Amazonas, onde a pandemia se faz sentir com particular virulência, sendo de assinalar que, dadas as condições sanitárias em Manaus, a mera abertura da mesa de voto no Consulado Honorário naquela cidade constituiu demonstração notável de serviço público.

 

Acompanhe a partir de quarta-feira, dia 10, a segunda e última parte da entrevista com Faro Ramos, na qual o diplomata fala sobre o trabalho das Câmaras Portuguesas, as relações comerciais, o papel dos consulados, as problemáticas trazidas pela pandemia, a importância das Casas Portuguesas, o estado da cultura e do turismo, as oportunidades para os brasileiros no ensino superior português e o acordo Mercosul-União Europeia. Faro Ramos deixou também uma mensagem para a comunidade luso-brasileira.

 

Ígor Lopes

4 Comments

  1. Eva Vider

    Muito prazer em conhecer, o Senhor Embsixador de Portugal Luís Faro Ramos. Sejam muito bem vindos, o senhor e sua família.

  2. Idílio Silva

    Boa tarde! Solicito apoio da Embaixada no cumprimento do despacho em vigor, relativamente às restrições do SarCov2, em virtude de estar presentemente retido no Brasil, assim como outros Portugueses. Deste modo, pedia ao Exmo. Dr. Luís Ramos, Licenciado em Direito, conhecedor da legislação, para que atue no repatriamento dos Portugueses, numa ação humanitária. Atentamente, Mestre Idílio Silva, militar do Exército Português.

  3. […] pertence originalmente ao Ega, mas aplica-se perfeitamente a Faro Ramos, o diplomata que fugiu para o Brasil, sem a pompa de D. João VI. A língua portuguesa, essa, continua a servir de pretexto para […]

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