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Abel Balenguele, Secretário-geral do Movimento Patriótico da República Centro Africana

Entrevista com Abel Balenguele, Secretário-geral do Movimento Patriótico da República Centro-Africana, sobre um projeto de reconciliação para restabelecer a paz e ajudar o país a sair da miséria.

E-Global – Fale-nos um pouco sobre si e como chegou aos ex-Seleka?

Abel Balenguele – Fui funcionário das Nações Unidas na MISAB (força conjunta africana que precedeu a missão da ONU, MINURCA) e professor de Filosofia, também fui Secretário-geral no Ministério da Educação e reformei-me em setembro de 2009.

Cheguei aos ex-Seleka, apesar de ser cristão-católico, através de uma discussão com eles. Disse-lhes que só queria a paz e nada mais e convidaram-me a juntar-me a eles para os ajudar a refletir sobre a situação. Estive em Nairobi nas negociações, no ano passado, entre Anti-Balaka (AB) e os Ex-Selekas onde também esteve Nourredine Adam (ex líder Seleka).

Assim que voltei fui nomeado diretor geral das comunicações. Quando participei no Fórum de Bangui onde assinamos o acordo de DDR (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração) os Seleka afastaram-me. Entretanto, o general Abdel encontrou-se comigo, pediu-me ajuda e desculpa. Todos da Seleka, mesmo os de Kaga Bandoro, que estão armados, confiaram em mim. Trabalho com cerca de 2000 homens. Considero que é fundamental abandonar a luta armada e trabalhar no plano político.

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A sua posição é de intermediário entre os AB e ex-Seleka?

Não temos muitos problemas entre os AB e ex-Selekas. O que é fundamental é negociar com as autoridades e com a Comunidade internacional (CI) sobre o DDR, para que quando for posto em prática não se esquecerem de nós. Sobretudo daqueles que estão no Campo Beal. Quando os nossos homens chegaram ao Campo Beal havia milhares de munições que envelheceram e estavam prestes a explodir. Se estas munições tivessem explodido, tinham destruído Bangui. Mas como na altura os Selekas não tinham um braço político, usavam esta situação para pressionar o poder político.

Saíam para a rua e exigiam dinheiro. O governo cedia, mas não chegava. Quando tomei conta do movimento fiz-lhes ver que não se pode viver da chantagem permanente, e que isso não funcionava. O governo desconfiava de mim e eles também. Mas quis mostrar à CI e ao Governo as condições miseráveis das populações aqui. Foi a partir deste momento que a CI nos prestou atenção e prometeu que nos iriam dar três fornecimentos de alimentos por semana. Mas não foi assim. Fornecem-nos um abastecimento semanal de 6 toneladas de arroz para 2000 famílias mas não há qualquer fornecimento de água. Também não há dinheiro.

O meu papel é ajudar os Seleka politicamente. Preparamos encontros com os candidatos presidenciais, Touadera e Dologuele, para lhes expor os nossos problemas.

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Os Seleka têm um braço armado e politico?

Sim, podemos mesmo nos qualificar de político-militares. Depois do DDR, o braço armado será desmantelado e restará o braço político. A luta armada deixa de ter sentido e não podem ser as armas a negociar para melhorar a situação. Essa é a missão da política. Depois do DDR, será necessário e fundamental que a política seja o único braço da Seleka. A Seleka no futuro será um partido político e deseja participar na vida política do país e dos seus destinos.

Porquê a criação da Frente Popular e a criação do Estado islâmico?

A FPRC (Frente Popular para o Renascimento Centro-africano) normalmente era a ala política dos Ex-Selekas na altura que era uma coligação de partidos. Depois de perderem o poder dividiram-se em fações. Mas em vez de ficarem nas fações habituais voltaram-se a dividir como a FPRC, e a UPC (Unité pour la Centrafrique) em Bambari. As pessoas perceberam que os dirigentes não satisfaziam os seus interesses e dividiram-se mais, de acordo com os seus interesses. Contudo estas super divisão acabou por ser benéfica porque clarificou a situação.

Sobre a FPRC e a partição da RCA num estado islâmico ou fações islamistas, o problema estava já em gestação. Os do norte estimam que há mais de 50 anos que ninguém lhes presta atenção, o Estado abandonou-os completamente. Na estação das Chuvas ficavam isolados, não há hospitais, escolas, tribunais…acabaram por se sentirem que não faziam parte deste país.

O abandono é a génese deste problema e desta vontade de fundar outro estado que possa responder às suas necessidades. Tudo isto é escandaloso e inadmissível. Temos tudo, subsolo rico em ouro, petróleo, urânio e diamantes e vivemos com menos de 1 dólar por dia desde há 50 anos.

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Quais são as principais diferenças entre Touadera e Dologuele. E qual será melhor para a RCA?

Na minha opinião, Dologuele quando esteve com Patasse não se pagavam os salários. É isto que as pessoas pensam e repetem. Mas com Touadera com Bozize, os salários foram sempre pagos.

Instaurou o pagamento dos salários por transferência bancária em vez de serem pagos por funcionários – os billeuteurs – que levavam o dinheiro em envelopes. Muitas vezes estes funcionários ficavam com o dinheiro e depois forçavam os seus verdadeiros destinatários a contrair empréstimos pessoais. Instaurou-se a extorsão.

Touadera acabou com isto e todos os salários passaram a ser pagos por transferência bancária. Isto credibilizou as instituições e deu confiança e dignidade aos funcionários públicos. Por outro lado, Dologuele está ligado a uma época de assassinatos e corrupção.

Touadera disse que se Bozizé se apresentasse, ele não se apresentaria e isso deu-lhe a imagem de homem de confiança e credível. Mesmo assim, ao apresentar-se foi expulso do partido e isso foi forçado a apresentar-se como independente o que o credibilizou ainda mais. Além disso, Touadera é protestante e tem o apoio de todos os protestantes assim como dos cristãos-católicos.

Dologuele acusa-o também de não ser neutral, porque se protege com as forças internacionais e a gendarmerie, exatamente ao contrário de Touadera que não tem proteção nenhuma, nem a quer ter. Neste momento Touadera tem o apoio de 20 candidatos que não passaram à segunda volta.

Dologuele é neste momento apoiado por Ziguele – apoiado por Patasse – e este tem o apoio da França. Ziguele acabou por trair Patasse e a população sabe isso e acusa-o de ser um “parricida”. Ziguele e Dologuele, que são da mesma localidade, estão sob o mesmo prisma analítico – de não estarem próximos do povo e de serem homens de regimes. Touadera é o homem do povo.

Correram rumores de que Touadera iria ser afastado nas eleições e que seria Ziguele a passar a uma segunda volta, mas tal não aconteceu, o que provocou o contentamento das populações. Touadera tem o apoio do 4º bairro, de Bimbo, do 8 – Combattants, do 5 e PK 12, aqui estão a esmagadora maioria dos votantes de Bangui.

Qual a sua opinião sobre a anulação das legislativas?

Esta anulação pode ser estratégica. Primeiro deixa-se o Presidente eleito e depois que este faça a nomeação do governo. Se for Dologuele, vão ser escolhidos os do partido, se for Touadera serão muitos independentes. A situação acabou por ficar algo confusa, mas quem for realmente pela reunificação, será sempre bem-vindo.

Pode deixar uma mensagem ao povo da RCA?

Desejo que o povo da RCA, que já sofreu muito, eleja quem lhe é próximo, que os reconcilie, que os entenda e entenda os seus problemas para que faça sair o país da miséria.

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