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Entrevista com Moulay Ag Adidi – Tuaregues líbios organizam-se para combaterem exclusão das autoridades

Moulay Ag Adidi

Eleito a 27 de Agosto de 2018 em Oubari, sul da Líbia, para a liderança do Conselho Supremo e Social Tuaregue, Moulay Ag Adidi, 66 anos, herdou uma das situações mais complexas face aos conflitos de interesses com os Toubous.

Em Tunis, capital da Tunísia, Moulay Ag Adidi, falou com a e-Global e abordou a questão da instabilidade na Líbia e particularmente do sul do país quando diferentes potências disputam pela hegemonia neste complexo país da África do Norte.

e-Global: Pode explicar sucintamente a situação que envolveu a criação deste Conselho unificado, que tem como missão o acompanhamento das questões sociais em coordenação com outros organismos na Líbia.

Moulay Ag Didi : Antes de mais gostaria de agradecer à e-Global a oportunidade de transmitirmos a nossa posição, a de um povo que não consegue se situar, devido a várias problemáticas e que faz face continuamente a problemas que remontam a um período anterior à revolução de 2011, que levou à queda do regime de Muammar Kadhafi. Sobre a implementação deste organismo, surge com a incapacidade dos organismos oficiais de assumirem as suas responsabilidades e os deveres lhes que lhes foram confiados, particularmente de garantirem a segurança e determinados serviços que permitissem o desenvolvimento da região. Assim foi decidido agrupar todos os órgãos representativos dos tuaregues, o conselho social, conselho supremo e o conselho consultivo. A fusão destas três entidades em uma só aconteceu nas melhores condições, num processo que foi marcado pela confiança e com a garantia de elevar a causa do nosso povo, ao qual agradecemos a confiança que nos depositou.

O estabelecimento deste Conselho aconteceu poucos meses após violentos confrontos entre Tuaregues e Toubous que causaram importantes danos colaterais.

É importante salientar um facto com alguma importância. A relação entre tuaregues e Toubous remonta há cerca de 150 anos. Esta relação foi desde sempre marcada por tumultos assentes em diversos motivos, mas acabou por ser decidido pelas duas partes enterrar o machado de guerra através de um pacto denominado “amidi-amidi”, que significa em tuaregue “amigo-amigo”. Desde a assinatura deste acordo nenhum problema veio perturbar a serenidade entre as duas comunidades, e a coabitação decorreu de forma pacífica. Mas em 2014 a retoma das hostilidades apanhou de surpresa toda a gente quando as duas partes, altivamente e irracionalmente, decidiram pegar nas armas. As consequências foram catastróficas para ambas populações, tendo originado o êxodo de milhares de pessoas. Perante estes factos, fomos forçados a reconhecer que era necessário encontrar uma saída para poupar vidas. Assim, houve um encontro na capital qatariana, Doha, após um ano e meio de hostilidades, e os dois beligerantes reconheceram que a paz era única solução.

Foram perceptíveis no terreno, particularmente na região de Oubari, os resultados dos acordos de Doha?

Sim, graças a Deus, os acordos de Doha foram conclusivos e os seus resultados são perceptíveis com a retoma de um quotidiano normal e o regresso das famílias que tinham partido. No entanto muitos pontos destes acordos ainda não nutriram efeito, tal como relativamente à indemnização dos prejuízos sofridos. Mas também é importante sublinhar que várias famílias ainda não puderam regressar a Oubari devido à destruição total das suas casas que os obriga a permanecerem nos locais onde se refugiaram.

Aparentemente essa realidade não preocupa os vários actores políticos líbios que estiveram presentes na cimeira de Paris. Como avalia esta Cimeira em que algumas partes não foram convidadas a participar, quando a solução passa pela realização de eleições, eventualmente no fim deste ano?

A crise líbia foi criada pela Comunidade Internacional com a sua ingerência nos assuntos internos da Líbia, utilizando o argumento da protecção dos civis. Depois de ter atingido o seu objectivo principal com a queda do regime de Kadhafi, os países que participaram deixaram o país e abandonaram o povo líbio. Entre esses países existem alguns que apoiam certas organizações armadas e incitam às lutas de líbios contra líbios fomentando a discórdia e deixando o país a ferro e fogo. Nós responsabilizamos a Comunidade Internacional, tanto no plano moral, político e histórico, pelos prejuízos causados ao nosso país que vive no caos.

Na Líbia, dois governos, que são também são duas forças, disputam a hegemonia no país. De um lado está o marechal Khalifa Haftar e do outro o governo de Fayez Saraj. Em que campo se posiciona a sua organização?

Devido às lutas políticas hegemónicas entre os governos de Leste e do Oeste, o sofrimento em que estamos mergulhados é imperceptível nas linhas que os dois antagonistas traçaram. Esta situação levou-nos a concentrar apenas onde estamos com o objectivo de tirar a nossa região e a sua população do marasmo.

Pode resumir as condições em vive a população que o elegeu?

O primeiro problema que a população tuaregue faz face é de ordem humanitária.  O êxodo das populações abalou fortemente a ordem socioafectiva de muitas famílias que estão hoje totalmente despedaçadas. A localidade de Awal, entre Derdj e Ghadames, por exemplo, é o palco deste sofrimento. Não há electricidade, nem água, não há vida. Aqueles que fugiram de Ghadames desde 2011 não podem, de forma alguma, regressar devido a que os seus bens foram totalmente destruídos. As suas casas, as suas terras, tudo. Na realidade eles não sabem onde regressar. Outros tentaram regressar mas devido ao lastimável ambiente social, decidiram partir para outros locais.

Vivendo nestas condições, dificilmente esta comunidade poderá ter um espaço no xadrez político do país ou conseguir representatividade num dos órgãos do poder.

Precisamente, os tuaregues não são representativos nos órgãos de poder líbios, nem qualquer função de responsabilidade foi atribuída aos nossos homens que, no entanto, têm todos os requisitos para assumirem qualquer função no seio das instituições do nosso país. Mas há pior. Há pessoas que não conseguem obter documentos oficias, nem bilhetes de identidades que atestem que são líbios. Eles ainda não são reconhecidos pelas autoridades do seu país e vivem no país dos seus ancestrais como se fossem clandestinos.

Também os nossos filhos não beneficiam de bolsas de estudo no estrangeiro, tal como outros da sociedade líbia que beneficiam. Há também o problema das fronteiras que desde 2011 estão completamente porosas e permitem a infiltração, até mesmo a chegada massiva, de combatentes da oposição chadiana, de sudaneses e também de traficantes de múltiplas origens. Há pouco tempo duas famílias tuaregues foram raptadas por redes de raptores que exigem às suas vítimas o pagamento de resgate de cerca de 2 milhões de dinares líbios, uma soma impossível de obter pelos familiares das vítimas. Por estes motivos nós temos também como missão mobilizar os nossos cidadãos e permanecermos vigilantes e solidários perante a situação que se vive na Líbia desde há vários anos.

KR/RN

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