Cabo Verde | Entrevista

“A educação não é garantia de sucesso, mas é um dos pilares fundamentais para o sucesso” Érico Pinheiro

érico pinheiro, CV

O jovem cabo-verdiano, Érico Pinheiro, 31 anos, professor na Universidade de Cabo Verde, desenvolveu um projeto inovador, através da construção de drones para apoiar os sectores agrícola e florestal. Este projecto nasceu em 2015, quando estudava na Bridgewater State University, nos E.U.A e se preparava para acabar o mestrado. A experiência nos E.U.A foi marcante, pelas pessoas que conheceu, que o inspiraram a nunca desistir.  Numa altura marcada pela crise pandémica e inevitável falta de recursos, Érico deixa uma mensagem de esperança, “não somos fruto das circunstâncias”.

 

Érico, o surgimento desta pandemia pode vir a dar um empurrão à aposta que Cabo Verde tem feito na ciência e desenvolvimento tecnológico? Acha que a partir de más notícias podem surgir bom desenvolvimentos?

Com certeza! Eu penso que há sempre algo bom que podemos tirar de todas as situações, mesmo que aparentemente sejam más. Neste momento, Cabo Verde precisa de encontrar solução governativas para aumentar a empregabilidade e para que a vida das pessoas possa ser a melhor possível. Quanto a mim, esta pandemia fez com que tivesse um pouco mais de tempo para me dedicar aos meus projectos, embora esteja a trabalhar numa plataforma de ensino à distância. Um dia, por acaso, vi na televisão que a proteção civil se preparava para fazer a pulverização na ilha e pensei, espera aí, eu tenho um dos meus drones, do projecto lançado para a minha tese de mestrado, em 2015, e podia utilizá-lo para esse fim.

 

E surgiu a ideia de voltar a pegar num projecto antigo?

Sim. Em 2015 eu fiz um protótipo para o mestrado que acabei em maio de 2016. Depois fiquei nos estados Unidos durante 1 ano a trabalhar, só que durante esse ano para me conseguir manter ali, fiquei praticamente sem tempo nenhum para desenvolver a minha pesquisa. Em 2017 voltei para Cabo Verde e com economias e ajuda de alguns amigos norte-americanos, fui comprando alguns materiais e reativei o projeto a pouco e pouco.

 

Foi importante para si, sair de cabo Verde e ir estudar para fora?

Posso dizer que foi a melhor coisa que me podia ter acontecido, claro que é uma oportunidade inimaginável, especialmente para nós que trabalhamos na área da tecnologia. Havia um programa de mestrado, que é uma parecia entre a Universidade de Cabo verde e Massachusetts, à qual me candidatei e, graças a Deus, fui seleccionado. Depois comecei a trabalhar como assistente de pesquisa no Instituto Pedro Pires para Estudos Cabo-Verdianos e tive o privilégio de poder manter-me em contacto com pessoas de origem cabo-verdiana, sendo que uma dessas pessoas, o Senhor Miguel Gomes,  me marcou bastante… eu costumava interrogar-me, como é que um pessoa que nasceu nos Estados Unidos tem uma paixão tão grande por Cabo Verde! E quando nós lhe agradecíamos tudo o que ele fazia por nós, ele respondia-nos sempre da mesma forma, “não me agradeças, faz alguma coisa pelo teu país”. Na hora de terminar o mestrado, surgiu-me esta  vontade de ter um drone e não sei se foi por acaso ou o destino, um dia passei pela porta de um gabinete do edifício e vi lá um drone. O criador desse drone acabou por ser meu professor e ajudou-me, deu-me todas as directrizes necessárias para conseguir acabar o projecto. Mas o que esteve na base de tudo isto, foi o meu background agrícola, ter visto o meu avô a trabalhar na terra, eu também queria fazer algo útil para que o meu mestrado fosse realmente importante.

 

E agora Érico é a sua vez de ser professor, como está a correr essa experiência?

É interessante, por acaso eu nunca tinha pensado em ser professor, mas sempre gostei de partilhar o meu conhecimento sobre as matérias, se bem que nos Estados Unidos já me diziam isso, que eu tinha jeito. É bastante desafiador e foi excelente para mim, ajudou-me a melhorar a parte de interação com o público. Procurei levar alguns dos robôs pequeninos que eu tenho aqui, dou as bases de programação, criação de jogos e os alunos gostam muito. É bastante gratificante ter esta profissão.

 

Um curso de informática requer bases muitos importantes, como é que se pode ter cada vez mais estudantes em sectores tão essenciais para o país?

Como somos um país constituído por ilhas, há muita desigualdade. Por exemplo, comparando Santo Antão com São Vicente, a diferença é muito grande, por vezes recebo alunos no primeiro ano de faculdade, que ainda nunca tocaram num computador… é preciso arranjar um chão comum a todos, é preciso sem dúvida mais investimento, porque as crianças hoje em dia são muito intuitivas, tem muita vontade de aprender, por isso é que eu estou a lançar um projeto, utilizando impressão 3D para conseguir cativar os mais novos e dessa forma também fazer face à falta de recursos. Embora o governo esteja empenhado em desenvolver a área da robótica no país.

 

Neste momento assiste-se a uma mudança nos paradigmas do trabalho, cada vez mais articulado às novas tecnologias, como é que se pode fazer essa mudança sem deixar para trás os mais velhos?

É um tanto complicado, mas há sempre uma forma de conseguir avançar, não podemos é esperar que os outros nos tragam soluções. Nós próprios sabemos quais as soluções para os nossos problemas, por vezes pedir ajuda a um amigo ou conhecido, se tivermos interesse em avançarmos encontraremos um meio, nós temos de ser movidos pela nossa vontade.

 

E no seu caso, Érico como nasceu esta vontade e amor à tecnologia?

Já veio desde que eu era pequenino, sempre tive motores em casa, brinquedos e desde pequeno eu tinha vontade de saber como é que as coisas funcionavam, depois comecei a ter vontade de criar o meu próprio brinquedo. Também fui bastante inspirado pelos meus tios que já trabalhavam na área de electrónica, então quando abriu a escola técnica em Santo Antão, quis logo ir para lá, quando chegou a hora de ir para a universidade, havia electrónica e informática e optei pela informática e acho que foi o casamento perfeito. Foram pequenas coisas que culminaram no que sou hoje e já me dá uma certa bagagem para iniciar alguma coisa. Eu tenho muita vontade, muitas ideias…

 

É esse o conselho que deixa aos mais jovens, é possível avançar havendo vontade?

Eu nasci num concelho muito pobre, mas tenho uma família que sempre me estimulou. A educação não é garantia de sucesso, mas é um dos pilares fundamentais para o sucesso. Nós não devemos ficar limitados aos nossos recursos.. Um ex-chefe meu nos Estados Unidos disse-me, nós vamos ter sempre problemas, mas quase sempre há uma solução, não podemos é esmorecer. A partir do momento que eu comecei a ver que eu não tinha que viver refém das circunstâncias e como se diz aqui em São Vicente, o caminho é para a frente, comecei a sentir que avançava cada vez mais.

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