A RCA precisa de um líder multiétnico e multirreligioso, afirma Marie-Reine Hassen

A República Centro Africana (RCA) entrou numa espiral do caos em que o Estado não consegue responder aos apelos da população. Um país dividido entre religião, etnias e territórios controlados por grupos armados numa guerra multiforme, de avanços e recuos, contra as Forças Armadas Centro-Africanas (FACA), reféns do seu aliado russo e sob o comando oficioso do grupo militar privado Wagner.

Um caos alimentado por um mosaico clânico que sustenta políticas de clientelismo e a emergência de uma oligarquia política que gira na orbita do presidente Faustin-Archange Touadéra que se prepara para concorrer a um terceiro mandato, que foi fatal a alguns dos seus homólogos.

Entre os principais opositores a Faustin Touderá, bem como à omnipresença multifacetada da Rússia no país, destaca-se Marie-Reine Hassen, ex ministra e diplomata. Marie-Reine Hassen acredita que reúne as condições para refundar e reconstruir a RCA.

“Compreendi dentro do sistema, que o sistema estava podre”

“A RCA começou a desmantelar-se desde Há 30 anos”, explicou Marie-Reine Hassen à e-Global. “Apercebi-me de forma ainda mais pormenorizada e clara quando fui nomeada em 2009 ministra, aí vi que o país seguia rumo para uma catástrofe”.

Segundo Marie-Reine Hassen o seu projecto político “parte desta constatação e da percepção do que deve ser feito, mudar, e rever”.

“Compreendi que todo o sistema estava podre. Compreendi bem isso como ministra e quando estava inserida nesse mesmo sistema. Tomei consciência também que apenas estando à cabeça do sistema seria possível mudar o rumo do país e evitar a catástrofe”. Para Marie-Reine Hassen é necessário uma líder que “se sinta próxima de todos, e que tenha o vigor para neutralizar os vícios de todos outros lideres que apenas olharam para os seus próprios interesses, sua etnia, seu clã e a sua família”. Marie-Reine Hassen acredita que encarna essa figura.

Para Marie-Reine Hassen a RCA tem de “voltar a antigos princípios e valores básicos que privilegiavam o bem-estar das populações através do acesso gratuito à saúde, ensino mas também disporem de infra-estruturas dignas e fundamentais para o desenvolvimento de um país. Um país em que a etnia não pode ser a prioridade, mas parte de um todo que compõe nação”.

“Sou uma pessoa etnicamente plural”

Acusada de privilegiar as populações Fulas na RCA, Marie-Reine Hassen reagiu e acusou o “poder actual” de veicular essas informações. “Na realidade eu não sou mais Fula que Francesa, não sou mais Yakoma que Banderi, sou uma pessoa plural. Ninguém pode colar-me um só povo ou uma só etnia, tenho muitas origens hereditárias. Por exemplo, sou Banda porque nasci em Alindao, mas também sou de Lobaye devido a que fui esposa de Bokassa, e por isso sou filha dos Lobaye. Também sou Gbaya, devido a que a minha avó, que era Fula, trabalhava muito com os Gbaya, que em muito contribuíram na minha educação”.

“Não fiz parte do Movimento Siriri”

O nome de Marie-Reine Hassen foi igualmente associado ao movimento armado Siriri. Uma ligação que Marie-Reine Hassen rejeita. “O meu percurso académico e profissional não se enquadra num grupo armado”, vincou. “Havia um movimento denominado Siriri que era dirigido por um de dois irmãos que estavam na Seleka, Abakar Sabone e Moustapha Sabone. Foi Moustapha Sabone que criou esse grupo. Se eu quero contribuir na reconstrução da RCA, tenho as competências, os conhecimentos e a vontade de o fazer democraticamente. Nunca teria interesse em entrar num grupo armado”, sublinhou.

Todavia, fazendo alusão ao Movimento Siriri, Marie-Reine Hassen explicou que essa organização foi criada por Moustapha Sabone, mas “na realidade não era um grupo armado clássico, que necessitaria de chamar a atenção através dos seus ataques”.

Marie-Reine Hassen reconheceu que Moustapha Sabone a convidara para ser a porta-voz do movimento. Nessa ocasião o líder da organização explicara que o Movimento Siriri “nasceu com o objectivo de estabelecer um equilíbrio na relação de forças, e assim acalmar as tensões abrindo espaço à mediação. Na sua forma de operar, por exemplo, onde estavam presentes muitos anti-balakas ou grupos criminosos que atacavam violentamente as populações fulas, o movimento Siriri agrupava outros fulas que neutralizavam sem violência os atacantes. Infelizmente esse movimento nunca foi considerado pela MINUSCA ou pelas Nações Unidas”, lamentou Marie-Reine Hassen insistindo que nunca pertenceu ao Movimento Siriri e como líder de um partido político centro-africano seria “incoerente aceitar ser porta-voz de outro movimento”.

Potencial mediadora e intermediária dos grupos armados

Apontada como uma potencial mediadora e intermediária dos grupos armados, com uma predominância Fula, Marie-Reine Hassen destacou que a sua mais-valia é que teve uma avó que lhe incutiu a cultura Fula. “Respirei e impregnei-me do Pulaaku, apesar de eu ser um mosaico de várias etnias, falo fluentemente fulfulde da mesma forma que falo francês, inglês, italiano ou sango”.

“O meu mosaico de origens na RCA, e o meu apego ao país, facilitou o desenvolvimento de um ambiente de confiança reciproca com todos os grupos, mesmo os armados”, explicou Marie-Reine Hassen. “Viram em mim uma pessoa neutra e sensível às suas preocupações. Afinal são seres humanos que se batem. Quando mergulhamos nas raízes profundas do problema compreendemos que a origem das crises na RCA é a pobreza, a miséria e a exclusão. São pessoas que foram espoliadas de tudo. A piorar a situação temos também a má qualidade das pessoas que governam”.

“Os fulas na RCA, num momento de desespero chegaram a ponderar deixar o país, mas compreenderam que há uma pessoa que os poderia ajudar, isto começou antes de Cartum. Assistimos que, em antigos acordos de desarmamento, alguns grupos acreditaram ingenuamente nas boas intenções governamentais, mas assim que entregaram as armas foram abatidos. Foi nesta ocasião que vieram ter comigo e informaram-me que estavam dispostos a deixar a RCA. Endereçaram-se a mim como personalidade política e pediram-me conselhos. Respondi directamente, na língua deles, e disse que a RCA é o país deles e que deviam permanecer no país. Empenhei-me a esclarecer a razão por que o diálogo que tivera sido imposto não funcionaria, nem mesmo o desarmamento. Expliquei que a polícia, as forças armadas ou mesmo a MINUSCA nunca os iriam proteger, mas que eles tinham de se proteger a eles mesmos, por isso deveriam permanecer armados. Infelizmente o Estado não protege os seus cidadãos, os cidadãos não têm outra opção que protegerem-se”, defendeu Marie-Reine Hassen.

Risco de levantamento popular

O risco de a RCA assistir a um levantamento popular apoiado por uma ala dos militares, é um cenário “muito provável” segundo Marie-Reine Hassen. Um risco que assenta na “auto desconstrução” do Estado e na degradação voluntária das forças armadas e de segurança.

“Hoje não existe um verdadeiro exército organizado e disciplinado. Tivemos um verdadeiro exército, que chegou a ajudar países vizinhos. Era um exército respeitado, profissional e que cumpria a sua missão. Hoje o exército está minado de delinquentes sem formação. Mas, mesmo assim, existem militares com boa formação que permanecem silenciosos mas estão atentos. Os verdadeiros militares foram afastados ou marginalizados. O actual poder está a criar todas as condições para o desencadeamento de um levantamento popular apoiado por uma ala de verdadeiros militares. Neste cenário os militares em torno do poder vão baixar as armas porque na realidade não são verdadeiros militares”, disse Marie-Reine Hassen.

Para evitar o pior dos cenários “a minha estratégia assenta na reconstrução da unidade, e estou disposta a agir activamente tendo em conta que sou a figura que está em melhores condições para juntar os grupos armados e ser a mediadora entre os grupos armados, o Poder e as organizações internacionais que trabalham na RCA. Isto é possível, mas não com o actual poder controlado pelo Grupo Wagner e pelos russos. Por este motivo, também, quero assumir, pela via democrática, a liderança da RCA”, vincou Marie-Reine Hassen acrescentando que a RCA “precisa neste momento de um líder multiétnico e multirreligioso, sendo nesta multiplicidade que encontramos a neutralidade” que Marie-Reine Hassen afirma encarnar.

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