Entrevista

Associação criada para garantir os direitos das comunidades portuguesas no mundo

José Governo

Com o objetivo de trabalhar para a “divulgação da vivência, lusofonia e cultura portuguesa”, nasceu, no final de 2019, em solo português, a Associação Internacional dos Lusodescendentes (AILD), que garante que “não será apenas mais uma associação” e que pretende ser “uma referência no movimento associativo das comunidades portuguesas, pelo seu interesse coletivo, das comunidades portuguesas, dos lusodescendentes e de Portugal”.

Para conhecer as linhas de ação, as atividades propostas, as motivações e o papel da comunidade lusodescendente, conversamos com José Governo, um dos membros fundadores dessa Associação, e que mantém uma vida política ligada às comunidades portuguesas.

 

Quais são os objetivos da Associação Internacional dos Lusodescendentes?

Esta associação pretende trabalhar para a divulgação da vivência, lusofonia e cultura portuguesa, identificação, união e representação de todos os lusodescendentes, representação e defesa dos legítimos interesses e direitos dos mesmos, desenvolvimento de um espírito de solidariedade e apoio recíproco entre os seus membros e associados, realização de ações, estudos e publicações que visem promover soluções coletivas em questões de interesse geral ou de interesse setorial, estruturação de serviços executivos e serviços de apoio, com capacidade de assessoria e de dinamização de assuntos de natureza de integração económica, tecnológica, formativa e informativa, qualificativa, associativa e de aconselhamento aos associados e instituições públicas. Acrescenta-se, ainda, o objetivo de envolver os portugueses de cá e de lá, aproximando-os, criando empatia, laços e redes de contacto. Consideramos que se torna cada vez mais importante promover ações e planos estratégicos, políticas, práticas e iniciativas, potenciadoras da proximidade às nossas comunidades portuguesas, permitindo e estimulando a construção de uma cadeia de valor. A AILD quer ser um veículo aglutinador, promotor de parcerias e aberto a todos os que se queiram associar.

Que atividades desenvolvem?

A nossa primeira iniciativa pública teve lugar no dia 21 de janeiro, com uma presença no programa “Palavra aos Diretores” da RTP internacional, onde tive oportunidade de apresentar a AILD. Esta ação teve também a grande virtude de, nos dias que se seguiram, sermos solicitados e contactados por imensas pessoas, desde lusodescendentes a quererem aderir e saber mais sobre esta nova associação, órgãos de comunicação social a solicitar a nossa presença, parceiros a quererem associarem-se a nós, lusodescendentes a quererem associarem-se. No dia seguinte, a AILD e a revista Observa Magazine levaram a cabo a abertura de uma exposição de pintura intitulada “Obras de Capa”, de Carlos Farinha, que decorreu na sede do Instituto Camões, I. P. Depois dessa data, esta exposição viajou pelo mundo, tendo como destino locais como Paris, Bruxelas, New York, Berlim, Londres, São Paulo, Luanda, Barcelona, Macau e outros lugares e espaços dentro e fora de Portugal. Esta exposição pretende ser uma descoberta da pintura do Mestre Carlos Farinha, retratada por 12 Obras, onde exprime o espírito e a alma de ser português no Mundo, dos ícones do nosso País e da nossa resiliência perante as adversidades e valentia nos desafios. Para além destas atividades, temos já outras em fase de preparação e agendamento, como o colóquio temático “Os Emigrantes. Uma nova imagem de marca”, a criação do Portal da AILD, a realização da Gala dos Jovens Lusodescendentes, a realização de ações de formação e encontros formativos nas comunidades, entre outras iniciativas.

Como será o trabalho da Associação?

A AILD não será apenas mais uma associação, pois, ambicionamos que seja uma referência no movimento associativo das comunidades portuguesas, pelo seu carácter e objetivos de se abrir aos outros, mas, também, porque este núcleo de pessoas, os fundadores, são todos como o presidente da Associação, Philippe Fernandes, pessoas jovens, com a sua vida, o seu percurso, em áreas diferenciadas, com conhecimentos práticos e teóricos dos lusodescendentes e das nossas comunidades portuguesas, gente que respeita a pluralidade das ideias e opiniões, pessoas com coração, com enorme sentido de solidariedade, amizade, cooperação e respeito.

Qual é o vosso raio de ação?

O raio de ação da Associação não tem limite, ou seja, o limite será até onde existir um lusodescendente espalhado pelo mundo. Pretendemos criar núcleos da AILD em diversos países, onde seja possível concentrar grupos organizados de lusodescendentes, facilitando os contactos e as relações de proximidade. Além disso, queremos abrir a AILD a outras associações, aos lusodescendentes e à população em geral. Queremos celebrar diversos protocolos de cooperação, colaboração e parceria com diversas associações e instituições. Não queremos que seja mais uma associação fechada em si mesma, mas que promova a partilha, as relações e a cooperação. Estamos já a preparar protocolos com o Observatório da Emigração, com uma associação em França, a Cap Magellan, com a Federação das Associações da Diáspora, e com a Confraria dos Saberes e Sabores da Beira Grão Vasco.

E o que a Associação poderá fazer pelos seus pares?

A AILD ambiciona e almeja palmilhar e desbravar caminhos, dificuldades, desafios, alcançar objetivos e metas, em prol do interesse coletivo, das comunidades portuguesas, dos lusodescendentes e de Portugal. E o que esta associação poderá fazer materializa-se num conjunto de ações e iniciativas que temos previstas, planeadas e agendadas para este primeiro ano de existência e de atividade, com a certeza que dará frutos. Queremos também dar o nosso contributo para que os lusodescendentes que estão fora de Portugal se sintam valorizados, reconhecidos e acarinhados. Mais do que dizer-lhes para regressar, é importante fazer-lhes sentir que Portugal precisa deles, que o interior do País precisa deles, que os seus territórios, hoje chamados de “baixa densidade”, estão a definhar e a precisar deles. Para aqueles que pretendem continuar fora de Portugal, também queremos estar com eles na importante missão da promoção da nossa língua e cultura portuguesa, da lusofonia e do papel importante que podem ter nas relações comerciais com Portugal, na captação de investidores e na própria internacionalização das nossas empresas portuguesas. A este propósito, temos prevista a realização do “Promovinvest”, uma ação que pretende promover a territorialização do investimento em Portugal, em proximidade com vários empresários e concidadãos lusodescendentes a residirem em diversos países do mundo, e em articulação com as autoridades locais, nomeadamente, da esfera do poder central e do poder local, com especial ênfase para os municípios e territórios do interior e de baixa densidade. Esta ação permitirá dar um contributo ao investimento local e auxiliar no estreitamento de laços de proximidade dos investidores das nossas comunidades portuguesas com o seu País, com a sua terra do coração.

Que iniciativas estão previstas para os próximos meses?

No próximo dia 20 de maio de 2020, se esta situação atual do Covid-19 não justificar o seu adiamento, vamos levar a cabo na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa o colóquio “Pare de dizer DIÁSPORA”, no qual teremos a presença de catedráticos, lusodescendentes, comunicação social, e aguardamos a confirmação do Ministro da Educação e da Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, estando já confirmada a presença de Luís Costa, subdiretor da RTP internacional. Trata-se de um tema com alguma polémica por ser muito utilizado nos últimos anos quando nos referimos às nossas comunidades portuguesas lá fora, termo que até facilita em termos de comunicação, mas, na verdade, acaba por ser um rótulo que muitos dos nossos concidadãos lá fora não gostam, sentindo-se discriminados relativamente aos portugueses residentes em Portugal. E é este o debate que queremos trazer para cima da mesa, que, além de polémico, será muito participado.

De que forma nasceu a Associação? 

A AILD foi criada no final do ano de 2019. Nasceu pela consciência de que as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo são um importante ativo para Portugal e para os seus territórios, além de promotores e embaixadores de Portugal no mundo. Os seus corpos sociais são maioritariamente lusodescendentes a residirem em diversos países do globo. A AILD nasceu com o apoio e envolvimento do diretor da revista Observa Magazine, Jorge Vilela, do presidente da AILD, Philippe Fernandes, que viveu em França mas retornou a Lisboa, da Madalena Pires de Lima, da Cristina Passas, da Gilda Pereira, da Sónia Coelho, do Tiago Robalo, da Vanda de Mello e da Alma Ang e eu próprio.

Como enxerga a comunidade lusodescendente?

Os lusodescendentes têm um potencial enorme, alguns com elevada formação e experiência em diversas áreas, empresários, académicos, políticos, entre outros, que se têm distinguido nos seus respetivos países de acolhimentos. Mas, também, gente que gosta de Portugal, que quer contribuir, criar laços, oportunidades, mas que por vezes não sabem como fazê-lo, com quem falar, como poder colaborar. E é perante todas estas perguntas, que consideramos que a nossa ação será importante, quer para os lusodescendentes, quer para Portugal, pois, é importante para ambas as partes esta ligação e este estímulo.

Que importância tem esse grupo para Portugal?

As nossas comunidades portuguesas e os lusodescendentes em particular são importantes interlocutores e embaixadores de Portugal no mundo. Portugal pode e deve contar com estes nossos concidadãos. Pelas funções que já desempenhei na Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, no movimento associativo das comunidades, pela minha constante e permanente ligação às comunidades portuguesas lá fora, a paixão, respeito e reconhecimento que tenho por este grupo de portugueses, permito-me ter um pensamento muito próprio e objetivo. E, portanto, atrevo-me a dizer que as comunidades portuguesas têm que fazer parte da solução. É preciso associar as comunidades portuguesas aos produtos endógenos e marcas das regiões de Portugal, sensibilizá-los para a territorialização do investimento, convidando-os à divulgação e ao próprio investimento, à promoção do networking e criação de uma rede de contatos, promover a diversidade e diferenciação. É preciso divulgar com orgulho que Portugal é, pelo terceiro ano consecutivo, o melhor destino turístico do mundo, sendo o turismo um forte instrumento de coesão territorial, com consequências económicas, mas também sociais. No fundo, é conferir às nossas comunidades portuguesas e aos lusodescendentes a nobre missão de promoverem Portugal no mundo e trazerem o mundo para Portugal.

Por fim, existem diferenças entre os lusodescendentes?

Tenho tido, felizmente, a oportunidade e possibilidade de conhecer e visitar as nossas comunidades portuguesas em diversos países da Europa e no resto do mundo, e existem, sem dúvida alguma diferenças. Se olharmos para o movimento associativo, ele teve grandes dinâmicas, teve e tem uma enorme importância a vários níveis, nomeadamente, na integração, manutenção e promoção da nossa cultura e tradições, a promoção da língua, entre outros. No entanto, verificam-se diferenças entre a Europa e Fora da Europa, motivado pela distância relativamente a Portugal, com a consequência das idas a Portugal não poderem ser tão frequentes para quem está mais longe, e devido aos elevados custos. As associações fora da Europa tiveram e têm uma dimensão muito maior. Possuem patrimónios próprios, de enorme valor, com uma atividade e dinâmica quase que profissional, colocando ali todo o seu amor por Portugal e a saudade. Contrariamente, as comunidades portuguesas a residirem no espaço europeu, pela sua maior proximidade a Portugal e, por conseguinte, menores custos de viagem, sempre tiveram oportunidade de ir a Portugal, pelo menos uma vez por ano, para matar saudades e, portanto, com uma carga emocional menor. A este nível, penso que o movimento associativo das nossas comunidades deveria ser melhor acompanhado e apoiado, deveria existir uma estratégia diferente. No passado, realizaram-se boas iniciativas, com resultados muito positivos, mas que, infelizmente, a mudança de governos também muda as boas estratégias. Mas, porque estamos a falar de movimento associativo, importa referir que existe algum abrandamento, declínio, dificuldades, até ao nível das dinâmicas do chamado “movimento associativo da Diáspora”, motivado por diversos fatores: a transição dos seus diretores, em que os mais velhos vão saindo; outros não dão oportunidade aos mais novos; os mais novos, por outro lado, não se revêm no espírito associativo e nas atividades que são desenvolvidas. E isto está a acontecer quer na Europa, quer fora da Europa.

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