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“Desapego-me de muitos ‘quereres’ porque vivencio prioridades realmente urgentes”, afirma atriz brasileira integrante de um dos principais programas da ONU

A atriz, apresentadora e empreendedora brasileira Úrsula Corona é um dos nomes mais ativos da Organização das Nações Unidas (ONU). Mulher ligada a causas sociais, é Embaixadora da ONU no Programa Mundial de Alimentos (WFP), considerada a maior agência humanitária das Nações Unidas. Há poucos dias, o WFP foi anunciado como o Programa vencedor do Nobel da Paz.

Úrsula Corona é também figura presente nas ligações e trabalhos entre Brasil e Portugal. Recentemente, atuou na telenovela “Na Corda Bamba”, no canal português TVI, recebendo elogios do público. Úrsula diz-se orgulhosa por participar no projeto da ONU e não esconde o desejo de se manter “na estrada” a procura de novos desafios.

Este ano, a exemplo do que aconteceu no mundo, a atriz, que participou em trabalhos cénicos premiados, passou por um momento negativo quando o seu pai foi internado no Brasil após ter sido infetado com o Covid-19. Felizmente, no final do tratamento, o pai da atriz recuperou.

Em conversa com a e-Global, Úrsula Corona falou sobre os projetos atuais, destacou o trabalho na WFP, afirmou quais são as suas expectativas e prioridades, realçou o amor que tem pelo Brasil e por Portugal e garantiu que o país europeu tem uma “assinatura própria e altamente profissional” na área da dramaturgia.

Em que projetos está concentrada?

Em Portugal, integrei o elenco da telenovela “Na Corda Bamba”, que terminou em maio deste ano. A minha personagem foi a Letícia, uma brasileira nascida em Niterói, caçula de três irmãos de uma família humilde. Graduou-se em Educação Física e mudou-se para Portugal a procura de uma oportunidade melhor de vida. (…) O convite do autor Rui Vilhena foi um sonho artístico realizado, pois o admiro demais, há anos, e sempre desejei trabalhar com ele. Rui é genial, moçambicano, já viveu em vários países, tem muitas culturas diversas na sua experiência, e o seu texto e a sua obra refletem essa qualidade. No Brasil, ele fez algumas novelas, já trabalhou com o grande Aguinaldo Silva também. Considero os dois grandes mestres, espetaculares. Em paralelo, dirigi a série do Alceu Valença e, como atriz, iniciei ensaios através de leitura virtual da série “Acesso Restrito”, de Graça Motta, que tem no elenco Marcos Caruso, Barbara Paz, Monica Torres. Fizemos leitura via zoom. Também estou feliz porque no Brasil “Floribella” regressou, pois foi um trabalho genuíno onde a troca com as crianças e o programa infantil “Diário de Floribella” que apresentei me trouxeram imensa alegria. As crianças transbordam pureza e o mundo está precisando deste amor.

Foi convidada para ajudar o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. Como se sentiu com essa oportunidade?

Fico honrada. É inenarrável. Sinto principalmente compromisso e responsabilidade pela confiança, pois o nosso objetivo é termos resultados. Sou movida a desafios. O meu pai foi adotado, então, partilhar e pensar no próximo sempre esteve presente. Estou entregue de corpo e alma. Cresço muito com cada ação. Desapego-me de muitos “quereres” porque vivencio prioridades realmente urgentes. O ego não é querer e sim fazer.

O que podem esperar de você?

Desejo ter a oportunidade de aplicarmos o empreendedorismo social. Pois, assim, incentivamos o crescimento. Assistencialismo é importante, mas o empreender faz toda a diferença. Então, trazermos ferramentas para potencializar talentos locais ativando uma economia sustentável e consumo consciente só vai dar retorno e satisfação para todos, impactando novas forças. O Programa realmente acontece. Quando há um desastre natural, somos os primeiros a chegar. Diariamente, mais de 90 milhões de pessoas se beneficiam diretamente da rede. O convite aconteceu em Londres, através do Rodrigo, que trabalha nesse Programa, na sede, em Roma. No dia 24 de outubro de 2019, Dia Internacional das Nações Unidas, ingressei oficialmente no programa.

Desempenha outras funções e ações?

Atuo também no empreendedorismo social, em três grandes ações. Este ano, tive uma das minhas maiores satisfações: uni-me ao Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, e, através dessa aliança internacional, faremos campanhas e arrecadaremos recursos para ações de combate à fome no Brasil e no mundo. Esta nossa união foca num objetivo urgente: dar continuidade ao trabalho de cooperação com os governos de mais de 30 países para garantir que todas as crianças tenham acesso a alimentação de qualidade e nutrição nas escolas. Já, no Brasil, temos, há quatro anos, a escola modelo Josias José de Souza, localizada na zona rural da Bahia, em Jaguaripe. Alba de Souza faz homenagem ao seu pai que tanto lutou por uma educação democrática e incentivava o acesso ao conhecimento. A escola é exemplar, totalmente gratuita, fica dentro de uma das quintas da Alba, que generosamente cedeu o espaço, além de apoiar e incentivar a educação. Temos uma agricultura orgânica na merenda das 93 crianças. Trabalhamos muito o núcleo familiar também. Há ainda a Usina Criativa, projeto que criei com o meu sócio Omar Marzagão, que é uma aceleradora que traz uma estrutura empresarial para projetos de comunidades aplicando internacionalização e rede aos projetos. Acredito imenso no empreendedorismo social. Acredito de alma e coração que independente de classe social ou poder aquisitivo, todos nós podemos dar um retorno à nossa sociedade. No Brasil, estou também dirigindo a série “O Silêncio que Canta por Liberdade”, onde assino a criação junto com Omar Marzagão. Criamos essa série em 2016. Queremos contar histórias abafadas pelo tempo político, retratando a influência da ditadura na cultura nordestina. Participam Gilberto Gil, Alceu Valença, Moraes Moreira, Gal Costa, Cacá Diegues, Pessoal do Ceará, Lula Queiroga, Capinam, Ednardo e etc. No total, temos 44 artistas. Na moda, junto com Beto Kelner, estamos lançando a linha de roupa feita com garrafas PET com a “Gatos de Rua”.

O que espera dessa sua nova fase, incluindo o projeto na ONU e outros trabalhos?

Mais aprendizados. Quero continuar somando e realizando. Estou sempre estudando e agora iniciando um trabalho de pesquisa e reciclagem como atriz, que é o Canto do Bode com o meu mestre na Universidade, Vítor Lemos. Na ONU, quero, junto ao Programa, contribuir e somar para atingirmos resultados sustentáveis através do empreendedorismo social, que é uma forma de aplicarmos as potências para gerarmos economia sustentável, independente e um consumo consciente, através de ações e projetos que tenham impacto na vida das pessoas e, principalmente, no núcleo familiar.

Em relação às gravações da telenovela “Na Corda Bamba”, consegue apontar diferenças na área cénica entre Brasil e Portugal?

A maior diferença é o tempo das produções em cada país. O Brasil tem o dobro de estrada e experiência, mas isso não impede Portugal de ter uma assinatura própria e altamente profissional. Também aprendo muito com a união de cada trabalho. Não é à toa que Portugal vem se destacando e já possui Emmys conquistados. Já estive em duas produções vencedoras, uma no Brasil e outra em Portugal, e, ano passado, tive a honra de ser uma das juradas da premiação do Emmy Internacional e a disputa mundial é enorme, o que mostra qualidade e autenticidade nos produtos nacionais portugueses, que se destacam cada vez mais com o talento dos seus profissionais. Vejo também a mistura de nacionalidades nas produções em Portugal, o que é um grande acerto, pois Portugal hoje tem essa mistura cultural e espectadores que querem se sentir representados. Diferenças existem em todos os países e isso é maravilhoso. É uma escola e um exercício para os atores também vivenciarem processos diferentes.

Em que área profissional se sente mais a vontade?

Sou atriz, apresentadora e empreendedora. O meu trabalho na moda está ligado à atuação ou à alguma causa. Na verdade, sou bem tímida para fotografar. Não me considero compositora, apesar de ter mais de 60 músicas editadas. Sou aprendiz. Amo atuar e apresentar, pois gosto de me comunicar e de conhecer o mundo das pessoas, histórias e valores. Os atores são canais e as pessoas, inspirações para moldarmos essa nova identidade à qual iremos servir. Aprendo atuando com cada personalidade dos meus personagens e também quando apresento. São complementares para mim.

Afirma que vive entre Lisboa, Londres e Brasil. Do que sente falta quando está em cada um desses locais?

Adapto-me bem às mudanças. Na quarentena vim viver no campo. O que me moveu a ter essa disponibilidade de me encorajam nestes países e cidades foi o meu sonho e paixão pela minha arte. Esse movimento surgiu pelo sonho de realizar projetos profissionais que me desafiassem. Sinto falta da família e dos amigos. A minha família e amigos de infância são os meus valores e raiz.

O que mais lhe chama a atenção atualmente?

Chama-me a atenção, ultimamente, o facto de o Brasil estar passando por ódio, intolerância, violência e a sistemática destruição das expressões artísticas, ataques aos nossos artistas consagrados e aos mecanismos de financiamento para as artes. Sou brasileira e o que desejo é viver ainda num sistema que exista para funcionar.

Por fim, que lembranças tem do início da sua carreira?

Quando chego à casa, após um dia cheio, e penso em tudo que estou fazendo hoje, os projetos diversos, cada um com as suas demandas e equipas, sempre me lembro como cheguei a este ponto e me orgulho muito do caminho escolhido, porque foi tudo fruto de cada escolha com coragem, com a minha garra, desde o começo, pois, na minha vida, nada foi fácil. Hoje, o meu equilíbrio e satisfação vêm quando há harmonia entre a vida pessoal e profissional, além da minha responsabilidade social com propósito. Teve uma época em que, profissionalmente, não estava feliz quando era obrigada a aceitar papéis que não achava incrível, mas tinha de os fazer pois precisava do dinheiro. Muitos de nós temos trabalhos sem prazer, apenas pela necessidade financeira e aí entrei em conflito, pois me senti presa dentro da minha maior paixão, que é atuar e, também, sem poder explorar outras vertentes das artes que me apaixonavam. Foi aí o meu ponto de mudança, a minha liberdade de escolha. Comecei a trabalhar na Rede Globo aos oito anos de idade, foi a minha segunda escola, e sou até hoje extremamente grata por tudo que a Globo fez por mim e pelas oportunidades que me proporcionou, mas, em 2010, comecei a querer me aventurar mais, explorar mais a minha paixão pelas artes e cultura e comecei a questionar várias escolhas minhas no Brasil e daí nasceu a necessidade de me reconstruir. Não foi fácil sair da zona de conforto, mas a satisfação hoje é imensa. Descobri a minha profissão cedo. Era a minha melhor brincadeira. Os meus pais se preocupavam com a minha infância. Lembro-me claramente da minha mãe conversando comigo, falando que não queria sentir culpa ao ver que eu estava “perdendo” a minha infância. Mas era o contrário. Trabalhar com arte é fantasia, um mundo lúdico. Gostava de estudar e fazer cursos nos finais de semana. Ser curiosa fez-me plural.

Ígor Lopes

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