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“Em Portugal temos muita e boa ciência” entrevista a Pedro Horta, investigador

“O Investigador Coordenador e Titular da Cátedra de Energias Renováveis da Universidade de Évora, Pedro Horta, concedeu uma entrevista à E-Global-Noticias em Português onde aborda o papel do hidrogénio na transição energética e destaca as condições vantajosas de Portugal para entrar neste novo mercado.

Com 17 anos de experiência no desenvolvimento de atividades de investigação no campo da energia solar, Pedro Horta liderou durante 4 anos o Grupo de Calor de Processo Solar e Sistemas Industriais no Fraunhofer-Institut für Solare Energiesysteme ISE e entre 2015 e 2019 coordenou a Agenda Europeia Comum de Investigação e Inovação (ECRIA) INSHIP – Integrating National Research Agendas on Solar Heat for Industrial Processes.”

 

Ao nível da investigação e desenvolvimento de tecnologias no âmbito da produção de hidrogénio verde, Portugal está a ser competitivo, nomeadamente e por exemplo, a nível Europeu?

Sim, eu acho que sim. Em Portugal temos muita e boa ciência, e mais ainda, em Portugal, temos uma experiência de décadas na cooperação internacional. Especialmente com tudo o que tem sido a nossa participação em financiamentos europeus nos vários programas-quadro.

Essa experiência existe, as redes e o trabalho em rede é algo que está muito bem implantado no sistema científico nacional. Nós temos a capacidade de ter competências próprias e nas competências que não temos, conseguimos ir procurar parcerias. Ou seja, procurar parceiros que possam trazer competências complementares de modo a que, em consórcio, se possam abordar problemas de uma forma competitiva com outros consórcios.

Eu creio que temos muitas das competências técnicas e científicas para abordar as questões associadas ao hidrogénio verde. Temos e estamos inseridos em redes europeias, e até fora da Europa, que nos permitem identificar parcerias tendentes à apresentação de conceitos e/ou propostas que sejam competitivas.

Depois do ponto de vista do que são os nossos recursos naturais, somos bafejados pelas condições, seja da energia solar, que é uma das mais importantes da Europa, seja dos recursos hídricos, que produzem grande parte da nossa electricidade desde há anos. Temos também uma capacidade eólica instalada muito grande. Temos condições muito competitivas.

É verdade que a produção de hidrogénio verde, actualmente, não é economicamente competitiva comparativamente ao hidrogénio cinzento. Mas também é verdade que o aumento de investimento nestas tecnologias irão fazer baixar os custos de produção. É importante não perder de vista que quem invista neste momento nestas tecnologias vai estar a suportar um sobrecusto e isso tem de ser uma opção consciente.

A única forma de recuperarmos o investimento que estamos a fazer ao pagar esse sobrecusto, em vez de esperarmos que daqui a 10 anos as tecnologias estejam mais baratas, é nós próprios termos a capacidade de desenvolver tecnologias e capacidades que nos permitam mais tarde exportar não apenas hidrogénio, mas também tecnologias e know how. Esta é a estratégia seguida pelos países com maior sucesso económico, basta olharmos para a Alemanha.

E está-se apostar na investigação, desenvolvimento e produção dessas tecnologias?

Sim. Há financiamento público para a investigação de tecnologias no domínio das energias no geral, que inclui também o hidrogénio, quer ao nível de investigação base quer ao nível de investigação aplicada.

O sistema científico nacional está dotado de alguns recursos e os tópicos relacionados com a energia são tópicos interessantes. E a nível europeu também há uma aposta muito clara no investimento em projectos de investigação nestes domínios.

Quais são os principais problemas ou dificuldades neste passo de transferir o conhecimento para a indústria?

Eu creio que cada vez mais a indústria começa a ver a importância na investigação e cada vez mais há empresas a terem quadros próprios de investigação e a terem mais colaboração com o sistema científico. No entanto, parece que muitas vezes há, para o tecido industrial, falta de informação, falta de visão estratégica que permita perceber os benefícios que a investigação pode trazer. Felizmente há cada vez mais empresas a participar em projectos.

Na sua opinião há aceitação por parte da sociedade e das empresas para tipo de energia renovável?

Sim. Creio que cada vez mais há maior consciência da importância das energias renováveis, não só para o ambiente, mas também para a economia.

Os setores das energias renováveis têm tido ao longo do tempo um desenvolvimento importante e começam a ser vistos como sectores de criação de emprego, criação de receitas fiscais e, muito importante, redução de dependência energética e redução de impactos ambientais.

Inclusive redução dos custos de energia. Basta ver-se o que é hoje em dia o custo da produção de electricidade verde por via solar fotovoltaica. Além de ser competitiva já é mais barata do que produzir electricidade de forma tradicional.

É titular da Cátedra de Energias Renováveis da Universidade de Évora (CEAR-UÉR). Qual é o trabalho e a missão da CEAR-ÉR?

É um grupo de investigação que está agora afazer 10 anos e que tem como missão utilizar o recurso solar, através de diferentes tecnologias, na descarbonização de vários sectores da economia.

Portanto, temos competências que estão muito ancoradas nas tecnologias da concentração de radiação solar, porque temos competências na área da ótica que, no fundo, fazem com que tenhamos capacidade para concentrar o fluxo radiativo que recebemos à superfície.

Com isto podemos utilizar a energia solar numa gama muito maior de aplicações e sectores. Nessa medida temos actividades que vão desde a produção termoeléctrica, com base em radiação solar, até ao fotovoltaico flutuante. Temos um conjunto de actividades muito amplo que pretende utilizar o recurso solar em aplicações e na resolução de problemas em vários sectores da economia.

Neste momento está a desenvolver um projeto de produção de hidrogénio verde. Pode falar-nos um pouco mais sobre esse projeto?

Normalmente quando falamos de produção de hidrogénio verde falamos na utilização de um método que é a electrólise da água, com base na utilização de electricidade verde. Uma outra alternativa é a utilização de biomassa, através de processos termoquímicos, que convertem a biomassa num gás de síntese, a partir do qual podemos produzir diferentes combustíveis, inclusive hidrogénio.

Este é um processo tecnológico que já é conhecido, e apresenta como potencial vantagem a utilização dos recursos de biomassa. No fundo, é uma valorização da biomassa que não a tradicional que é a da queima direta.

Representa um upgrade do conteúdo energético que se consegue obter da biomassa e representa também uma possibilidade de valorização de recursos que hoje em dia não são valorizados e podem até constituir um problema. Basta pensar nos fogos florestais que temos tido nos últimos anos, claramente um sinal que existe um excesso de biomassa nos solos e que pode resultar num problema, que até acarreta custos.

O que estamos a fazer é tentar perceber que espécies autóctones, que recursos de biomassa, poderiam ser valorizados por essa via, em que base e em que parâmetros técnicos e económicos essa exploração poderia ser viável.

Com isto pretendemos, no fundo, perceber se existe um modelo de negócio viável que valorize estes recursos, reduzindo riscos, aproveitando resíduos e produzindo um produto que é mais nobre do ponto de vista energético. O que se chama hoje um combustível avançado.

Esse projeto ainda está numa fase inicial mas já é possível prever alguns resultados?

Sim, este projeto ainda está numa fase embrionária. Neste momento estamos a estudar o potencial termoquímico de alguns recursos que foram seleccionados, para perceber quais serão os resultados da transformação destes recursos em hidrogénio. E com isto, perceber quais são os parâmetros técnicos e económicos que poderiam viabilizar o aproveitamento destes recursos na produção de hidrogénio.

Em função dos resultados, poderemos, sim ou não, encontrar soluções que poderão ser interessantes. O que de iremos de certeza perceber é que mesmo que não sejam interessantes do ponto de vista económico, do ponto de vista técnico e tecnológico não creio que existam dificuldades, o quão longe estamos de poder ser competitivos num modelo de negócio destes. E o que se pode fazer para o melhorar.

É esse o objectivo deste estudo, perceber se a produção de hidrogénio pode ser solução de alguns problemas como sejam os fogos florestais ou até mesmo problemas de ordenamento do território.

Esse projeto é apenas da Universidade de Évora ou faz parte de uma colaboração com outras entidades?

Esta primeira fase do projeto assenta num projeto europeu no qual estamos a participar na área do calor de processo solar. No domínio dos processos a alta temperatura a produção de combustíveis solares, é essa a designação, é um dos tópicos que o projeto abarca.

Dentro deste tópico submetemos uma pequena actividade exploratória de investigação para fazer a caracterização destes recursos e perceber o potencial que teriam. Neste pequeno projeto estamos a colaborar com um outro grupo de investigação dentro da Universidade de Évora, que é o MED (Instituto Mediterrânico para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento), especializado em tudo o que tem a ver com estes recursos de biomassa. E estamos a colaborar também com um instituto de investigação suíço, que é a Escola Técnica de Zurich, que tem uma experiência muito grande na solarização destes processos, e que colabora connosco na caracterização e no desenvolvimento dos reatores que são necessários para a realização destes processos termoquímicos.

Destaca algum país nas áreas de investigação que esteja na vanguarda do desenvolvimento destas tecnologias?

No que toca à produção de combustíveis solares eu destacaria parceiros que temos na Suíça, nomeadamente na Escola Técnica de Zurich, mas também na Alemanha, a Agência Aeroespacial Alemã, com a qual temos um acordo de cooperação.

Creio que nestes dois países esteja uma parte importante das competências mais avançadas neste momento.

Qual é a sua opinião sobre o Centro Europeu para o Hidrogénio Verde?

Este tipo de agregação de conhecimento é algo que felizmente já é muito usual na comunidade científica. É natural que parceiros que trabalhem nestes domínios, que já se conhecem, que já trabalharam em projectos conjuntos, que a determinado momento percebam que é necessário coordenarem-se e encontrarem um fórum de discussão, e um fórum que permita tomadas de posição conjuntas.

O surgimento destas redes e, destes Centros acaba por ser um resultado de um aspeto mais importante que se foi estabelecendo ao longo das décadas que é a capacidade de trabalharmos em rede e de cooperamos entre países no espaço europeu.

Já passaram a primeira fase, e são conhecidos, 37 projetos que poderão integrar a candidatura portuguesa ao Important Project of Common European Interest (IPCEI) do Hidrogénio. Destaca algum?

Não, não destaco nenhum porque a informação que existe sobre esses projectos não me deixa fazer uma avaliação muito aprofundada. O que destaco é que claramente existe interesse por parte do tecido industrial e por parte do setor privado para esta área. Ter-se aberto esta oportunidade e terem surgido muitas propostas é que merece destaque. O setor privado olha para este tópico como um mercado interessante.

 

 

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