Entrevista a Astregilda Lopes, a empreendedora que saiu da venda das verduras para a gerência de uma empresa

Atulamente em Cabo Verde um dos temas mais abordados é o empreendedorismo e o empoderamento das mulheres, e no relato de Astregilda da Luz Lopes podemos encontrar estes dois tópicos. A empreendedora, mais conhecida por Gilda, de 41 anos, natural de Nossa Senhora da Luz, São Vicente, e residente atualmente na Ilha do Sal em Chão de Matias falou à E-Global dos seus projetos.

Início a “ajudar na criação dos meus irmãos”

Astregilda Lopes trabalhava num bar e quando teve de abandonar este projeto começou a fazer croquetes, comprando 100 escudos de cavala e 100 escudos de batata, com o objetivo de ajudar a criar os seus irmãos. “A irmã ficou grávida de gémeos e fiquei a cuidar dos meus sobrinhos, e minha irmã levava para o seu trabalho de fábrica de sapatos 500 escudos de croquete que fazia” disse Gilda da Luz. À tarde saía a própria Gilda para vender nas redondezas, num curto período de tempo chegou a trabalhar também na mesma fábrica que a irmã, não gostou e foi trabalhar para a cantina do Liceu de São Vicente.

O começo da vida de empreendedora

Gilda conta ao jornal E-Global, que “Trabalhei em São Vicente e o salário era muito baixo. Conheci um guineense, em 2003 que me informou que estava aberto um projeto na “Morabi”, voltado para as mulheres, que iriam fazer um empréstimo para empreender. E perguntei a ele quando dinheiro seria, e logo me disse que seriam 50 contos, que para mim na época era muito dinheiro”.

A atual empreendedora, mesmo com algum receio fez esse empréstimo e num grande momento de aprendizagem este passo permitiu que desse um novo rumo na sua vida, “falei com o meu cunhado “Arlindo”, para ser o meu fiador, ele e meu amigo Guineense, Marcelino e aceitaram”.

Na época trabalhava ainda na cantina, onde recebia um salário de 8 mil escudos, e num pouco tempo depois de entregar os documentos chamaram para fazer o levantamento, mas neste momento Gilsa queria rejeitar o dinheiro. Apesar disso o cheque não podia ser devolvido e tinha que avançar e implementar o dinheiro em algum negócio e fazer a devolução do dinheiro para a “Morabi”.

“Quando fiz a retirada do dinheiro, era fim de setembro de 2003 fui logo para Santo Antão Ribeira de Paul, eu e o meu primo, levantamos 4h da madrugada para comprar as passagens de barco e viajar para lá. Apanhei um lenço de amarar na cabeça e coloquei na cintura, e comprei uma canteira e coloquei os 45 contos. Ao chegar ao destino, no Pelourinho do Porto Novo, comprei um saco de cenoura, de batata-doce, batata inglesa, inhame, e não abri o saco para verificar que tipo de produto estava nos sacos” comenta a Alstragilda da Luz.

Ao voltar para São Vicente vendeu os produtos rapidamente e muito bem, e faltava só dois sacos e foi “no “Pedro” para comprar-me metade de um saco de batata-doce e cenoura, e ele concordou, quando levei os alimentos, a batata-doce eram grandes e o senhor me disse que infelizmente esses não serão comprados na loja, por causa do seu tamanho”. Ao ficar com estes produtos,  “Cai em prantos, porque era ai que estava o meu ganho do negócio, e não conseguia vende-lo, e tive a ideia de assar as batatas e vender por quilo assado e consegui vender todos. Daí fiquei a ir para Santo Antão, segunda, quarta, e sexta, mas tive um plano de ir nas lojas e perguntar o que estavam a precisar e eu anotava, o produto e o peso, assim trazia os quilos de produtos que eu sabia que iria conseguir vender” esclarece a empreendedora.

Apesar dos inumeros desafios impostos, e obstáculos incontáveis ainda assim continuou com a sua venda que estava a dar algum lucro.

“No mês de novembro de 2003, uma grande amiga me disse que iria abrir um bar na ilha do Sal, me pediu para ir abrir o bar para ela, porque não tinha experiencia e eu como já trabalhei em bares, sei como funcionava, mas fui para a ilha do Sal só no mês de dezembro, e voltei para São Vicente no mês de janeiro e continuem a venda nas verduras” e logo no , mês de fevereiro de 2004, “ela me chamou a disser para voltar para a ilha do Sal para tomar conta do bar, porque não sabia como gerênciar aquilo e tinha o seu trabalho, por isso o negócio não estava a dar certo. No entanto logo a alertei que terá que esperar, porque ainda não tinha acabado de pagar a Morabi e quando terminar no mês de abril iria para a ilha do Sal.”

A Gilda aceitou este desafio que sabia que seria grande, e iria exigir muita “labuta”, logo “em 26 de abril de 2004, voltei para a ilha do Sal, com 100 queijos (11 mil escudos), mais 72 mil escudos, com a divida já soltada nos seis meses que geri os 50 mil escudos”.

E Astregilda da Luz Lopes, passado um tempo veio a comprar e ficar com o bar que na altura se chamava “Fronteira”, porque a sua amiga como tinha o seu trabalho não queria continuar, mas teve que sair do lugar, já que os donos da propriedade queriam, a casa de volta e chegaram até a tirar a telha da casa para que Lopes, saísse. E ela enfatiza que sempre pagou a sua renda em dia. Dali abriu num clube, em que colocou o nome de “Bar Gilda”, e veio uma crise na época como pagava a renda em 20 mil escudos, fechou o Bar.

Abertura da sua empresa Rapid

Em 2018, abriu novamente um lugar de refeição quente e a sua empresa “Lanchonete o Rapid”, juntamente com o seu companheiro Aderlindo Duarte, mais conhecido como “Kotxi”, porque viu que a ilha do Sal estava com falta de lugar para comer.

“Em são Vicente Gilda Lopes trabalhava com Calu, que tinha na altura “Bar Morabesa”, e ele foi uma grande referencia para a empreendedora, e ele queria vender o lanchonete que na altura tinha o nome de “O Rapid”, para Lopes mas rejeitou a compra, todavia ficou com muita empatia de “Patrão para funcionário”, como ele vendeu o lanchonete, e o nome deixou de existir, “Achei que o nome veio comigo para a ilha do sal”, referiu Astregilda, que acabou por colocar “Lanchonete o Rapid” o nome da sua empresa , em que “O Rapid”, significa “Fast food”, comida rápida.

Impacto da pandemia no negócio

A empresária relata que a pandemia de covid-19 teve muito impacto no seu negócio, na medida em que  “é um trabalho ligado muito ao turismo, e mais concretamente a taxistas que pedem refeições, e é um ponto forte para o meu negócio, porque em 2018 criei um sistema que ia levar refeição quente até ao aeroporto, tudo com muita higiene, mas teve um dia que a Câmara Municipal me barrou, por pessoas que ficaram a implicar com a ideia que eu tive, há uma certa “preguiça mental” das pessoas, porque há um certo impedimento das pessoas mostrarem as suas ideias, mas barreira para mim é desenvolvimento, e aquele dia fiquei com três almoços sem vender. Mesmo tendo todos os documentos em dia”.

Gilda Lopes aconselha a todas as mulheres, mesmo as que não estudaram, a acreditar nelas mesmas, porque irão conseguir, dizendo que perdeu a sua mãe com 16 anos, mas basta ter fé e acreditar no tempo que tudo se resolve. Ainda deu uma dica que sempre aplica no seu negócio “tenho muito amor pelo cliente, pelo meu trabalho e sempre faço as minhas contas e do cliente, tendo como lema qualidade para quantidade”.

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