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Entrevista: “As mulheres guineenses precisam não só de ter um filho vivo nos braços, mas também um filho saudável” – Vasco Nam Dum

Vasco Nam Dum, Médico Obstetra guineense, ressalva que o apoio dos parceiros tem sido fundamental para reduzir as elevadas taxas de mortalidade infantil na Guiné-Bissau, como comprova o Programa Integrado para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil (PIMI), cofinanciado pela União Europeia, implementado em 2016 e já na II edição. Este programa permite que hoje todas as mulheres guineenses possam hoje ser assistidas gratuitamente em qualquer hospital da Guiné Bissau. A excepção é a Maternidade do Hospital Nacional Simão Mendes, em Bissau, que não está abrangido pelo programa. Sem esse apoio é difícil salvar vidas, quando não há kits de emergência e quando “são os próprios doentes que têm de pagar tudo”.

 

O que o levou a escolher a área de obstetricia e ginecologia?

Eu voltei para a Guiné-Bissauem 2005, depois de tirar o curso de medicina em Cuba e, quando regressei, vim com um grupo cubano, que reabriu a faculdade de medicina na Guiné Bissau, que ainda hoje continua a funcionar. Quando começámos a trabalhar, fiquei numa zona de difícil acesso, na região de Quinará, mais concretamente em Buba e Tite. Lá, em 2009, o governo desenvolveu um plano de saúde reprodutiva para poder fazer face à morte materna e recrutou um grupo de médicos, onde eu estava incluído. Percebeu-se, nessa altura, que era preciso prestar os primeiros cuidados e cirurgias em regiões distantes, a fim de evitar deslocações até Bissau, onde as mulheres já chegavam bastante debilitadas, ou, às vezes, não aguentavam as viagens. Foi nesse âmbito que eu entrei para a área de saúde reprodutiva e comecei a gostar. Ao mesmo tempo, vinha de Tite cada mês e ficava uma semana em Bissau, onde assumia alguns serviços e ia participando nas cirurgias planificadas de obstetricia na Maternidade do Hospital Nacional Simão Mendes.

   

Ao longo destes últimos anos, de acordo com a experiência que acumulou, é possível dizer que atualmente as mulheres gestantes guineenses recorrem cada vez mais às consultas neonatais?

Nos últimos anos, como se sabe, desde 2013, o PIMI – Programa Integrado para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil –  financiado pela União Europeia, que foi primeiramente implementado nas regiões sanitárias de Cachéu, Biombo, Oio e Farim, com o intuito de reduzir a mortalidade maternal, trouxe melhorias significativas neste campo da saúde. Mas, qual é o problema aqui? É que, na realidade, não há um programa bem planificado. Por exemplo, o Hospital Nacional Simão Mendes deveria ter especialistas em todas as áreas, mas isso não acontece, o que se passa é que nós vamos aprendendo com o pessoal especializado que passa por cá e as pessoas aprendem e fazem o seu melhor. O PIMI com o trabalho que fez e as estruturas sanitárias que criou, permitiu que todas as regiões da Guiné Bissau, com exceção do Hospital Simão Mendes, pudessem prestar todo o tipo de cuidados neonatais, a todas as mulheres guineenses e a crianças com menos de cinco anos, de forma gratuita. No entanto, devido a certas crenças que ainda prevalecem, dificuldades de acesso e até devido a um certo nível cultural, as mulheres só se deslocam às consultas pré-natais já com 28, 30 ou 32 semanas, pois dão prioridade a outras coisas, ao invés de se preocuparem com a sua saúde. Ainda não sabem quais as consequências de prosseguir com uma gravidez não vigiada. Tem de se perceber que um diagnostico feito atempadamente pode minorar riscos e complicações.

 

Mais do que uma questão de equipamentos, torna-se também necessário trabalhar ao nível da mudança de mentalidades. Como é que se luta contra estas crenças culturais que ainda subsistem e se faz passar informação relevante?

As mulheres precisam não só de ter um filho vivo nos braços, mas também um filho saudável. Por isso todos nós devemos empenhar-nos na sensibilização da saúde materna. Há várias agências comunitárias a trabalhar nestes projetos, mas, muitas vezes, não têm condições económicas para fazer mais e ficam sem condições para prestar esse apoio. Toda a mulher deve ser encarada como peça fundamental nesta máquina, neste processo e o homem deve dar o máximo de si para ajudar na estrutura familiar, na orientação das crianças e em tudo o mais. Neste sentido, o próprio governo deve trabalhar esta questão. O que acontece é que esta luta contínua para chegar ao poder- pois, no nosso país, ser dirigente politico é sinónimo de enriquecimento – não deixa espaço para melhorar o desempenho do país a nível económico e estrutural. Há sempre uma Guerra! Enquanto os nossos políticos continuarem a lutar para se auto-promoverem, não se vai obter bons resultados. Imagine que, até hoje, no Hospital Nacional Simão Mendes, os médicos têm de passar uma receita para os familiares da mulher grávida comprarem os consumíveis necessários à realização de uma cirurgia. E a mulher pode esperar? Não. Demora-se pelo menos duas horas a ir às várias farmácias comprar os produtos, mas, e se a família da mulher grávida não tiver dinheiro? É uma necessidade absoluta e urgente que a Maternidade Simão Mendes tenha Kits de emergência completos, visto que todas as outras instalações sanitárias regionais que são cobertas pelo programa PIMI têm esses kits. É necessário fazer mais na área da sensibilização junto das nossas tabancas, criar condições para que todas as pessoas sejam atendidas quando chegam às urgências. Toda a sociedade civil deve estar envolvida nesse papel, mas o governo deve fazer a sua parte, passar do papel, do domínio teórico, para a parte prática.

 

Esta instabilidade política que a Guiné-Bissau vive também não ajuda. Considera que há muitos projetos, especialmente no campo da saúde, que poderão nunca avançar enquanto esta situação se mantiver?

O apoio dos parceiros estará sempre condicionado pela nossa instabilidade política. Volto a repetir que estas guerras contínuas para subir ao poder não ajudam. Os nossos políticos não pensam em desenvolver o país, não pensam em reduzir as taxas de mortalidade infantil ou materna, apenas estão focados em defender-se para não saírem do poder, não olham para os reais problemas do país, aquilo que é essencial ser feito. Há uma onda de greves contínua tanto na saúde como na educação e há um conjunto de medidas que têm de ser tomadas, o que não seria difícil, se houvesse vontade para isso. Os programas por si só não chegam.

 

Como é o seu dia a dia? Trabalha em diversos sítios ao mesmo tempo? Debate-se com que tipo de dificuldades?

Trabalhei durante muito tempo em Buga e Tite e em 2013 vim para Bissau, onde  comecei a trabalhar na Maternidade Simão Mendes até 2016, quando fui para o projeto PIMI em Kanchungo onde fazíamos cirurgias, transfusões sanguíneas, todo o tipo de cirurgias. Atualmente o hospital em Cachungo, recebe e presta apoio a todas as mulheres da região de forma gratuita.  Em todos os lugares onde o PIMI foi implantado há equipamentos, medicamentos e ninguém tem de comprar nada. Para além disso, desenvolveram-se diversas formações na realização de ecografias e especialização de outros serviços. Nestas condições, quando uma mulher chega para ser assistida em situação de urgência, será bem atendida. Mas, a situação em Bissau é muito difícil, o hospital Simão Mendes não reúne as condições minímas necessárias, não há nada. Se isso não mudar, o nosso trabalho vai ser cada vez mais difícil. Não se consegue fazer muito mais.

 

Neste momento considera que há um maior empoderamento das mulheres guineenses na sociedade? Ou ainda há um longo caminho a percorrer?

As mulheres guineenses lutam para reforçar a sua posição na sociedade, são pilares nas nossas casas. No trabalho, têm feito o seu caminho e merecem o seu lugar, lutam diariamente e isso está a acontecer, há mudanças assinaláveis a todos os níveis.

 

O que é que o continua a motivar na área de obstetricia?

É um trabalho que já faço há muitos anos e acaba-se por ganhar alguma afetividade. Será que depois de tantos anos vou conseguir mudar? Não, penso que não. Vou tentar melhorar cada vez mais e salvar mais mães e bebés. Quem sabe se o bebé que eu salvo hoje poderá fazer a diferença neste país amanhã. É um grande orgulho e quero continuar a fazer este trabalho enquanto puder.

 

Por Ana Gonçalves

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