Entrevista: “Em Portugal temos uma reserva de vacinas para a varíola”

Em Portugal são 58 os casos confirmados de varíola dos macacos em humanos, até ao momento. Por enquanto, os doentes são apenas homens, com idades entre os 20 e os 60 anos. 

O e-Global entrevistou o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Gustavo Tato Borges, para saber mais sobre esta doença que está a ser detetada em vários países do mundo. 

e-Global: Como está a situação da varíola em Portugal? 

Gustavo Tato Borges: A varíola humana em Portugal está erradicada desde 1980. Não temos qualquer tipo de casos nem nenhuma preocupação com a variante humana. 

Quanto à infeção humana por varíola dos macacos, existem atualmente cerca de 58 casos diagnosticados. Trata-se de uma infeção que naturalmente ocorre apenas entre os animais e que, por um acaso, acabou por transpor a barreira entre os animais e os humanos. E chegou a Portugal, de uma situação que ainda não está totalmente esclarecida. 

“(…) é um acaso ainda não ter sido diagnosticada uma mulher com esta doença.” 

Neste momento em Portugal está a ser diagnosticado entre maioritariamente homens, entre os 20 e os 60 anos, que, devido a uma característica muito particular – que nada tem a ver com a doença, mas que condiciona neste momento a transmissão – é o facto de serem homens que têm sexo com homens. Apesar de isto não ser uma doença sexualmente transmissível, porque a varíola dos macacos transmite-se por contacto próximo e, portanto, é um acaso ainda não ter sido diagnosticada uma mulher com esta doença. 

Então até agora não existe nenhum heterossexual infetado? 

Não lhe sei dizer esse pormenor. Isto começou com homens que têm sexo com homens, mas até ao momento tem havido uma investigação bastante cuidada e ativa. São considerados contactos próximos, em todas as vertentes da vida social de cada um desses casos, e estão a ser identificados e testados todos os contactos de alto risco. E depois, os que dão positivo. 

“(…) [a varíola dos macacos] não tem qualquer fator protetor para as mulheres, para as crianças ou para os idosos.” 

Continua a ser feita esta investigação e, portanto, não lhe sei dizer ainda. Até nem é uma característica que é identificada na altura do inquérito. Também não é o mais importante. Trata-se de um acaso que condicionou, neste momento, a transmissão do vírus apenas, de facto, em homens, mas que não tem qualquer fator protetor para as mulheres, para as crianças ou para os idosos. 

“Esta doença pode apanhar qualquer um, em qualquer momento, desde que tenha contacto próximo (…)” 

Esta doença pode apanhar qualquer um, em qualquer momento, desde que tenha contacto próximo, pele com pele, ou às vezes também mucosa com mucosa, que possa levar a uma pequena ferida que possa transmitir o vírus. Repito, é apenas um acaso só termos homens diagnosticados. 

Ou seja, ainda estão a verificar se esta pode ser uma situação grave? 

Estamos a estudar esta incursão do vírus da varíola do macaco nos homens para percebermos se alguma coisa mudou no vírus em si e se tornou mais fácil para transmitir entre os humanos ou não. Aparentemente, daquilo que se conhece, não se tornou mais fácil de circular entre os humanos e, por isso, não deverá constituir uma situação grave ou uma ameaça significativa para a população portuguesa. 

No entanto, se formos diagnosticados com esta doença ou se tivermos alguns sintomas sugestivos desta doença, devemos afastar-nos e evitar todo o contacto físico com as pessoas que nos rodeiam até desaparecerem todos os sintomas. 

Quem está infetado tem estado numa espécie de quarentena? 

Não é bem uma quarentena porque as pessoas podem interagir umas com as outras. Não podem é ter contacto físico nem partilhar roupa de cama nem roupa física entre si. A louça também não deve ser partilhada. 

Tudo o que for material que usamos individualmente deve ser só para nós, no caso de testarmos positivo. Claro que a louça, por exemplo, tem a vantagem de rapidamente colocar-se na máquina e lavar, até o próprio pode colocar, e não haver aqui risco. 

“(…) o contacto físico deve ser inexistente, de todo.” 

Mas o indivíduo que está diagnosticado com esta doença deve abster-se de qualquer contacto físico, seja direto ou indireto, com pessoas que o rodeiam. Não tem que estar fechado num quarto. Pode fazer algum convívio de sala. Mas o contacto físico deve ser inexistente, de todo. 

O que pensa da quarentena que a Bélgica decretou para quem tem a varíola do macaco? Considera exagerado, para já? 

Não diria exagerado, porque de facto esta doença pode ter até 21 dias de período de incubação. E, portanto, os contactos de alto risco devem ficar também mais isolados até 21 dias após o último contacto com a pessoa infetada. 

“Não temos uma necessidade de determinar um isolamento deste género.” 

Agora, esta imposição legal carece de uma situação de gravidade que em Portugal, em específico, mesmo tendo 58 casos, não há facilidade de transmissão do vírus. A não ser, como lhe disse, por contacto físico próximo. Não temos uma necessidade de determinar um isolamento deste género. O objetivo é apenas aconselhar, vigiar as pessoas. 

Aqueles que estão em risco também devem ter mais cuidado no contacto com terceiros para minimizar a possibilidade de continuar a transmitir esta doença. 

Quais são os sintomas que têm sido mais detetados? Quando os infetados procuraram o hospital foi já por causa das marcas na pele? 

Sim. Essas marcas na pele foram aquilo que despertou a curiosidade, digamos assim, dos primeiros casos. Atualmente, a maior parte destes que estão identificados já estavam referenciados como contactos de alto risco e, portanto, é uma investigação ativa, uma procura ativa de casos. 

“Podem aparecer em qualquer parte do corpo, portanto devemos estar atentos.” 

Aquilo a que nós, cidadãos, devemos estar atentos é se desenvolvemos um quadro de febre, mal-estar, dores musculares, dor de cabeça… uma síndrome quase como sendo gripal, só que sem estar afetada a parte do nariz. E depois de uns dias após aparecer essa febre e esse mal-estar começam a aparecer feridas que depois vão ulcerar e transformar-se em crostas. Podem aparecer em qualquer parte do corpo, portanto devemos estar atentos. No caso de aparecer isso claramente já estamos infetados com a varíola, e aí é um sinal chamado patognomónico, ou seja, não deixa dúvidas de que em princípio será mesmo a varíola. 

Uma pessoa que tenha este quadro e que saiba que teve contacto com alguém que está positivo deve contactar a linha SNS 24, ou o seu médico de família, ou dirigir-se mesmo a um serviço hospitalar para que possa ser feita a colheita do produto biológico para confirmar a presença do vírus, ou não, e tomar as medidas necessárias. 

Então é um pouco difícil distinguir esta doença da gripe? Por isso os infetados podem deixar avançar até notarem as marcas… 

Esta pequena síndrome constitucional inicial – febre, dores musculares, dores de cabeça – é geral para muitas doenças, não apenas a síndrome gripal. E, portanto, este início torna sempre muito difícil de distinguir se é ou não é uma determinada doença. 

Claro que se eu sei que tive contacto próximo com um indivíduo que está diagnosticado com esta doença e se tenho febre e dores musculares, devo falar imediatamente com os serviços hospitalares porque tive este contacto próximo e devo ter mais cuidado. Se não sei se tive contacto, obviamente que com o início destes pequenos sintomas torna-se difícil discernir seja o que for. E, portanto, só com o aparecimento das bolhas é que começamos a suspeitar que pode haver algo diferente. 

Em relação à vacina, parece ter sido recentemente aprovada uma para a varíola [foi noticiado que os Estados Unidos da América licenciaram em 2019 uma vacina capaz de proteger contra a varíola e a varíola dos macacos, a Jynneos da Bavarian Nordic]. Pensa que poderemos vir a ter de tomar uma vacina para a varíola ou no caso desta dos macacos ainda não se justifica, ainda não se sabe…? 

Nós sabemos que, há uns largos anos atrás, de facto foi vacinada massivamente a população mundial para erradicar a varíola e a vacina funcionou de uma forma extraordinária. E, portanto, também há essa vantagem de já termos tido essa inoculação em pessoas que nasceram até 1973, portanto estarão mais protegidas porque foram efetivamente vacinadas para a varíola humana. 

“Em Portugal temos, de acordo com o secretário de Estado, uma reserva de vacinas importante para a varíola.” 

Em Portugal temos, de acordo com o secretário de Estado, uma reserva de vacinas importante para a varíola. E, se for necessário, podemos administrar e também podemos adquiri-la. É uma arma terapêutica interessante e que, de facto, caso os casos comecem a espalhar-se mais e a aparecer em todos os grupos etários e em todos os grupos sexuais, acaba então por poder fazer sentido aplicá-la de uma forma mais alargada. Não necessariamente à população toda, mas pelo menos aos contactos mais próximos daqueles que forem identificados como positivos, para tentar combater a doença. 

Esta reserva de que estamos a falar é de vacinas que foram criadas para a varíola humana. Faz alguma diferença com a do macaco? É necessária alguma alteração na composição das mesmas? 

Esta reserva de vacinas que Portugal tem é para a varíola humana, que eu tenha conhecimento. Os vírus são diferentes, são primos, digamos. E, portanto, a vacina dirigida para a varíola humana tem mais eficácia para a varíola humana, mas dá um efeito protetor também para a varíola do macaco. 

Não havendo uma vacina para a varíola do macaco que seja aplicada aos humanos, porque de facto é uma investigação que eu creio que não aconteceu em lado nenhum, acaba por não haver nenhuma outra arma terapêutica preventiva que possamos usar. E, por isso, faz sentido usar a vacina da varíola humana caso tenhamos necessidade de proteger mais alargadamente um conjunto de pessoas que possam estar em risco. 

A taxa de mortalidade da varíola do macaco pode ser grave? 

A nossa sorte é que a estirpe da varíola do macaco que apareceu em Portugal é a estirpe da África Ocidental. E essa é menos grave, menos letal. Tem uma letalidade bastante baixa. Portanto, em princípio, nós não teremos um surto de mortes associadas à varíola do macaco, exatamente porque esta variante que nos apareceu é menos letal. Existem duas e esta é a menos letal. 

Cátia Tocha

2 Comments

  1. Roberto

    Excelente entrevista, com perguntas muito importantes para um esclarecimento claro do tema. Fantástico artigo.

  2. NeuroTrans

    Vale a pena mencionar que há muito se pensa que o GABA é incapaz de atravessar a barreira hematoencefálica (BBB) (Kuriyama e Sze, 1971; Roberts, 1974), o que levanta questões sobre os mecanismos de ação por trás de seus benefícios à saúde. No entanto, existem vários relatos a respeito da permeabilidade BBB da GABA. Enquanto alguns pesquisadores argumentam que apenas pequenas quantidades de GABA atravessam o BBB (Knudsen et al., 1988; Bassett et al., 1990), com a descoberta de sistemas GABA-transportadores no cérebro (ou seja, passagem de solutos por trans-citose, transporte mediado por portadores, ou simples difusão de substâncias hidrofóbicas), outros acreditam que as quantidades substanciais de GABA poderiam atravessar o BBB (Takanaga et al., 2001; Al-Sarraf, 2002; Shyamaladevi et al., 2002). Além disso, como GABA também está presente no sistema nervoso entérico, tem sido considerado que GABA pode atuar no sistema nervoso periférico através do eixo do cérebro intestinal (Cryan e Dinan, 2012). Embora haja algumas evidências que mostram que o GABA biossintético poderia alcançar o cérebro humano como evidenciado por várias respostas do EEG (Abdou et al., 2006; Yoto et al., 2012), até o momento, não há dados mostrando a permeabilidade do GABA ao BBB em humanos. Embora tenha sido demonstrado que os níveis de GABA no sangue foram elevados 30 minutos após a ingestão oral de GABA (Yamatsu et al., 2016), não se sabe se a ingestão oral de GABA aumentaria ou não as concentrações de GABA no cérebro. Antagonistas de GABA, como a gabazina ou a bicuculina, só são úteis no estudo de convulsões ou para combater overdoses de sedativos e tranqüilizantes. Alguns antagonistas GABA são venenos particularmente assustadores, causando a morte ao interromper o controle do CNS sobre as funções corporais básicas, como a respiração. gaba gamma aminobutyric acid para que sirve

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.




Artigos relacionados

Revista de Imprensa Lusófona de 08 de junho de 2022

Revista de Imprensa Lusófona de 08 de junho de 2022

Em Portugal o “Expresso” escreve que o “Governo não garante revisão da Tabela Remuneratória Única em 2023”. O “Público” noticia “PSD…
Angola: Costa Júnior fala sobre processo eleitoral com diretora para África da UE

Angola: Costa Júnior fala sobre processo eleitoral com diretora para África da UE

O líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, reuniu-se com a diretora para África da União Europeia (UE), Rita Laranjinha, nesta…
Reino Unido: Boris Johnson diz que Ucrânia não deve aceitar mau acordo de paz

Reino Unido: Boris Johnson diz que Ucrânia não deve aceitar mau acordo de paz

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, considera que a Ucrânia não deve ser pressionada a aceitar um mau acordo de paz.…
Timor-Leste e Emirados Árabes Unidos ratificam acordo de Serviços Aéreos

Timor-Leste e Emirados Árabes Unidos ratificam acordo de Serviços Aéreos

O Parlamento de Timor-Leste ratificou por unanimidade nesta terça-feira, 07 de junho, o acordo de serviços aéreos entre o país…
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin